Postcards from Greece #27 (Mount Olympus & Litochoro)


The house of the Gods and Goddesses

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Hoje o dia amanheceu glorioso, sem rasto nem gota da abundante chuva que caiu antes de ontem e especialmente ontem. Também acordei muito cedo para os meus hábitos. Ás 9h20 já estava na paragem do 23, na Kassandrou, aqui em cima, para ir para a estação dos caminhos de ferro de Salónica. O meu destino era (e foi) Litochoro, uma cidade pequenina aos pés do Monte Olimpo, ou melhor (que o Monte Olimpo é grande) a porta de entrada para a casa dos deuses e das deusas gregas. Na estação comprei um bilhete de ida e volta para a pequena cidade. Disse qualquer coisa em português, ou murmurei, e a senhora da bilheteira perguntou-me se era portuguesa, num português quase perfeito, aprendido no Porto onde, disse, viveu alguns anos. Obrigada e adeus.
 

O comboio para Litochoro demora cerca de uma hora. Litochoro fica a uns 100 quilómetros de Salónica, na parte oeste do Golfo Termaico, na fronteira entre a região da Tessália e da Macedónia. Podia ter ido com uma excursão organizada, como fui a Metéora, mas seria de autocarro e, convenhamos, de comboio as viagens são muito mais bonitas e tranquilas. A vantagem de ter ido com uma excursão organizada seria a de visitar Dion e o Parque Arqueológico, mas bom, sinceramente, não sei bem sequer se isso seria de facto uma vantagem. O comboio chega a Litochoro à hora que devia chegar, portanto às 11h23. A estação fica no meio de nada à beira-mar. Está praticamente deserta e não há transporte (já o sabia) para a pequena cidade de onde se entra mais facilmente para o Monte Olimpo. Fora da estação há um placard com anúncios de táxis. Escolhe-se um qualquer ao acaso. Neste caso, um anúncio que dizia ‘we speak english’ (dá sempre jeito). O senhor aparece, chama-se Athanasios e não se pode ser mais simpático. Pergunto-lhe coisas sobre o que ver. Queria ver as ruínas do antigo mosteiro de São Dionísio, mas ele diz-me logo que fica lá para cima, muito lá para cima onde já há neve. Pode visitar-se o novo mosteiro, mas mesmo esse fica a 3 ou 4 quilómetros da cidade. E o cemitério? Tinha lido que o cemitério era um dos mais originais da Grécia. Ah sim, o cemitério de Agios Athanasios, o meu nome, diz ele. E recomenda que se siga um trilho, depois, para entrar um pouco no Monte Olimpo, que basicamente é o aqueduto que abastece a cidade de água. É pavimentado e não tem de se subir muito. Agradeço, claro, e penso fazer o percurso até ao ‘banho de Zeus’, será só meia hora e se o trilho é a direito e pavimentado não deve ser complicado. O taxista deixa-me à porta do cemitério, não sem antes se inteirar de onde sou. Portugal? Euro 2004. Pois. Que se há-de fazer?
 
Visito o cemitério de Agios Athanasios, que é pitoresco, mas nada tem de original. Apenas campas e flores e cedros como em quase toda a parte (enfim, como em muitos outros cemitérios do mundo). Ouvem-se os pássaros e a água do rio Enipea que divide o Monte mais alto da Grécia (2919 metros) em dois. Quer dizer, divide-o nesta zona, que a cadeia montanhosa é bastante extensa. Depois de visto o cemitério, vira-se à esquerda e anda-se uns 250 metros até encontrar uma taverna, extraordinariamente bem localizada, com vistas fabulosas para o Monte Olimpo e o trono de Zeus e o ponto onde se reuniam os 12 deuses do Olimpo para terem as suas discussões tempestuosa sobre o destino dos mortais – Mytikas atualmente, antes, no tempo dos deuses ao que se diz, Pantheon, claro. Da Taverna à esquerda há umas escadas de pedra onde corre água. Estamos à entrada do Parque Nacional Olimpo, criado em 1938, hoje também Reserva da Biosfera e parte da Rede Natura 2000. Um mapa bastante antigo explica onde estamos. Dá mais ou menos no mesmo, penso e subo os mais uns degraus. Há um cão grande e simpático que me acompanha interessado e atencioso, desde a taverna. Fiz-lhe umas festas e preocupei-me com as pulgas.
 
Começa o trilho que é estreito e tem apenas de um lado um varandim. Do outro não tem nada e inicialmente não faz falta porque, desse lado, não tem uma ravina como do outro. Não quero olhar para baixo, mas o raio do trilho cimentado, ou do aqueduto, é estreito. Começo a ter algumas tonturas de olhar para baixo e estar consciente demais da largura do trilho. De repente de ambos os lados há ravina e só de um, como antes, um corrimão verde. Mais à frente deixa de haver corrimão durante um bocado e eu penso que nem pensar, que se lixe o ‘banho de Zeus’, que eu cá não vou morrer de vertigens no Monte Olimpo e, assim como assim, já andei uns bons metros dentro dele. Ou em cima dele. Ou o que quer que seja. Volto para trás e sento-me do lado em que não há ravina. Ponho a mala no colo e o cão, que sempre ali esteve, põe imediatamente a cabeça grande em cima da mala e olha para mim desconsolado, como a sentir a minha frustração e a condoer-se. Faço-lhe festas. Que se lixem as pulgas, vá. Os cães e os gatos gregos também têm φιλοξενία (filoxenía ou amizade aos estranhos) como as pessoas, está visto.
 
Com o cão e a sua filoxenía volto para trás. Entro na taverna onde arde um belo fogo num grande lareira e peço um café. Não têm expresso, só café grego, que é forte e espesso e doce. Fico ali um bocado, depois vejo a paisagem do pátio da taverna e inicia-se a descida para o centro de Litochoro. Esta pequena cidade pitoresca, com as suas ruas estreitas, a sua escola com mais de 100 anos e as suas igrejinhas, é tida como o lugar onde teve início a Guerra Civil na Grécia (1946-1949). Em 1946, a 30 de março, um grupo de 30 homens do ELAS (Exército de Libertação do Povo Grego) atacou a polícia como retaliação pela tortura e morte de elementos da Frente de Libertação Nacional (EAM). No entanto, na cidade não há nenhuma referência específica a este acontecimento. Apenas no memorial militar, no meio do belíssimo parque da cidade, de onde se avistam, como de quase toda a parte, os picos cheios de neve do Monte Olimpo, há uma lista dos mortos nesta guerra, tal como nas I e II Guerras Mundiais.
 
Na pequena praça principal de Litochoro, que se alcança quando se desce do Monte Olimpo pela rua Agios Dimitrios, ergue-se a pitoresca igreja de Agios Nikolaous, com a sua torre isolada. É bem bonita por dentro, com os tectos azuis, como parece azul a neve nos picos do Olimpo, quando a tarde começa a cair. Os seus ídolos não são deuses do Olimpo, está bem de ver, mas santos a quem as pessoas dedicam velas. Também lá deixei algumas – já se sabe que gosto de acender velas em igrejas sejam de que fé forem – a arder para santo nenhum.
 
Antes da visita à igreja de São Nicolau, almocei uma mistura de queijos gregos no forno e costoletas de borrego grelhadas, bem boas, mas de digestão difícil. Caminhei depois pela avenida principal de Litochoro que sai da praça para deixar a cidadezinha, ao encontro do mar e, um pouco mais para Este de Litochoro, da praia de Gritsa onde, em 1999, desembarcaram forças da NATO por causa da guerra da ex-Jugoslávia, o que provocou uma acesa reação dos comunistas da região. Pelo caminho, com o Olimpo atrás de mim e o Egeu à minha frente, encontro o Museu Náutico que, aos domigos, pasme-se, abre entre as 10h e as 12h. Muito conveniente para visitas, portanto. Depois de passear no parque da cidade, vestido com as cores do outono, bebo um café num sítio chamado Route 82 (que nunca percorri e que fica a muitos milhares de quilómetros daqui, nos Estados Unidos da América) e chamo de novo o senhor Athanasios, que aparece com a sua simpatia pouco tempo depois, enquanto fotografo dois gatos num quintal perto do café. Pelo caminho até à estação de Litochoro pergunta coisas sobre Portugal onde, apesar de ter sido marinheiro, nunca esteve. Interessa-se sobretudo pelas diferenças entre Portugal e Espanha e quer saber se alguma vez o meu país tinha sido ocupado. Que sim, por um breve período, pelos espanhóis, mas que corremos com eles. Ele fala de Fernão de Magalhães com uma certa ternura de marinheiro e muita admiração. Dos descobrimentos. Digo-lhe ‘está a ver? já fizemos isso tudo e veja agora onde estamos!’. Ri-se. E pergunta se a crise em Portugal já acabou. Que não, digo-lhe eu, estamos um pouco melhor do que a Grécia e um pouco melhor agora, desde há uns dois anos. Mas ainda estamos em crise. E estaremos, como aqui.
 
Deixa-me na estação. Informa-me que o comboio para Salónica partirá da plataforma 2, dá-me um aperto de mão e diz ‘Encantado’. Likewise, Mr. Athanasios. O comboio deixa-me uma hora depois na estação de Salónica, longe dos deuses do Olimpo e de volta a casa.

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