Isto sim, tresanda a estalinismo e fascismo por todos os lados

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Imagem: Fernando Pessoa – Heterónimo, 1978, óleo sobre tela de António Costa Pinheiro

Vivem-se tempos de polarização, de radicalizações mil, marcados pelo regresso de fantasmas de outros tempos, que procuram usar a democracia e a liberdade de expressão na tentativa de as suprimir.

Fruto deste extremar de posições, que alimenta discursos cada vez mais carregados de ódio e ignorância, termos como “fascista” ou “estalinista” são usados e abusados, e servem hoje para tudo e mais alguma coisa. O governo português, por exemplo, é estalinista. Os conservadores, por seu lado, são fascistas. Hitler, segundo algumas almas perdidas que deambulam pelas redes sociais (e em alguns projectos políticos travestidos de jornais), era socialista, porque o nome do seu partido incluía o termo. Qualquer dia, ainda nos tentam convencer que a República Popular Democrática da Coreia do Norte é uma democracia.

Enquanto andamos entretidos com parvoíces desta categoria, a verdadeira extrema-direita vai dando o ar da sua graça por essa Europa fora, ameaçando liberdades e garantias conseguidas a troco de muito suor e sangue. Em Portugal, na falta de insegurança ou emigrantes provenientes do Médio Oriente e do Magrebe para galvanizar a massa de ultra-indignados, temos pseudo-jornais e pseudo-jornalistas a praticar o branqueamento do fascista. O que vale é que a extrema-direita que por cá anda não tem onde cair morta.

Não obstante, algo de muito grave e perigoso aconteceu por estes dias. Em pleno século XXI, assistimos a um acto de censura cultural, e logo num manual escolar do 12º ano. No ano da graça de 2019, o grande Fernando Pessoa, símbolo maior da poesia nacional e internacionalmente reconhecido como uma das grandes figuras da literatura mundial, foi literalmente censurado. Parece mentira, como se de repente tivéssemos acordado na Hungria ou na Polónia, mas foi exactamente isso que aconteceu: censura.

(…)

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! —
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(…)

Ode Triunfal, Álvaro de Campos

Os versos rasurados foram censurados no manual do 12º ano Encontros, da Porto Editora, usado, segundo pude apurar, em 90 estabelecimentos de ensino deste país. Questionada sobre as acusações de censura, que me parece muito óbvia e igualmente grave, a editora desdobrou-se em desculpas para justificar a adulteração de uma obra literária de referência, afirmando mesmo que não existe

qualquer censura à obra de Fernando Pessoa, apenas e tão somente uma preocupação didático-pedagógica – seguida pela generalidade dos manuais existentes – que permite aos professores decidirem livremente sobre a abordagem mais adequada junto dos seus alunos

Como assim, decidir livremente sobre a integridade de uma obra literária? Não era isso que faziam os lápis azuis das ditaduras de outros tempos? Serão os miúdos de 17, 18 anos estúpidos e incapazes de compreender o conteúdo de uma obra que estudaram durante o ano em questão? E mesmo que sejam estúpidos como uma porta, em que medida é que se levantam preocupações didático-pedagógicas? Querem ver que os meninos não sabem o que é uma puta, ou nunca ouviram falar em pedofilia? Só se nunca tiverem assistido a um telejornal. Ou folheado os classificados de um jornal.

Isto é de uma imbecilidade sem paralelo. As TV’s e os jornais repletos das mais variadas formas de violência, grunhos à solta em reality shows, não raras vezes a fazer campanha pelas associações de estudantes dos mais variados estabelecimentos de ensino, Mários Machados em programas da manhã e vêm agora estes puristas da Porto Editora censurar versos ao Pessoa. Isto sim, tresanda a fascismo e estalinismo por todos os lados.

Comments

  1. Hélder says:

    “Hitler, segundo algumas almas perdidas que deambulam pelas redes sociais (e em alguns projectos políticos travestidos de jornais), era socialista, porque o nome do seu partido incluía o termo.”

    Isto vindo das mesmas pessoas que nos tentam convencer que o PSD é social-democrata( dentro da excepcionalidade ideológica aqui do rectângulo em que a social-democracia é de direita) ou que o CDS é do centro, dificilmente surpreende, não acha?

  2. esteve,ayres says:

    Mas o que é que tem haver estalinismo, como uma atitude politica com tiques fascistas e hitlerianos. Será que este senhor ainda vida as custas dos pais ou do orçamento geral do estado par escrever estas m…

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