Os rankings e o colaboracionismo dos professores

Copio do facebook do José Gabriel, com uma vénia demorada, um excerto que corresponde àquilo que penso sobre a publicação dos rankings, ou melhor, sobre o modo como os rankings são interpretados: «Esta fraude estatística, destinada, inicialmente, a acalmar os ardores hormonais das direcções do Público – e, como é costume, a sangrar o erário público a favor das empresas privadas -, transformou-se numa anedota de efeitos nefastos e pasto fácil de comentários analfabetos.»

Não me espanta, portanto, que os ignorantes atrevidos e mal-intencionados continuem a transformar este rito anual num momento de propagação da ideia de que os rankings são um instrumento de avaliação do trabalho das escolas.

Também já não me espanta, por ser habitual, que, ao fim destes anos todos, directores de escolas e professores se tenham deixado contaminar por esta febre, ao ponto de comemorarem subidas em rankings ou de transformarem descidas em momentos de pura depressão, aceitando méritos ou culpas que não lhes cabem completamente, contribuindo para que a Educação não seja verdadeiramente discutida, aceitando o pensamento simplista de que o sucesso dos alunos depende apenas das escolas ou a ideia de que as escolas devem assumir uma atitude de concorrência empresarial, desvirtuando, afinal, a sua função.

Um dos problemas da Educação – que são muitos – consiste, cada vez mais, no facto de que os professores interiorizam – ou normalizam, como está na moda – os disparates proferidos e impostos por ignorantes e vendedores de banha da cobra com poder político e/ou mediático. Quando, numa área de actividade, os profissionais agem contra a própria área, a esperança é cada vez menor. Hoje, é dia de rankings: não faltarão patetices.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    O país está contaminado por rankings naquilo que interessa a uma certa elite. Tudo devidamente orientado, com um único fim, transformar a educação num negócio, e não numa emergência social, num país de iliteratos. Contra mim falo, não bastas vezes, talvez por alguma preguiça, enfio umas valentes calinadas. Mas, “burro velho não tem andadura”, já diz o ditado.
    Que tal trocarem umas turmas durante um ou dois anos ano lectivos, das instituições no topo desse ranking, por turmas similares, na cauda desse mesmo escalonamento. Seria interessante assistirmos a algum milagre, do estilo:
    “Lázaro, levanta-te e anda!”.
    Ou se quiserem:
    “Rui, eras um caso perdido e fizermos de ti um aluno muito acima da média”.
    Era capaz de me converter, perante tal desiderato.
    Já agora, que tal um ranking sobre as falências bancárias, com nomes de administradores, gestores e presidentes das instituições em causa. Talvez mesmo, um ranking das PPP’s, com nomes de negociadores entre partes, de ambos os lados, com os valores a pagar pelo erário público, às entidades envolvidas?
    Não “fosca-se”, aí não! (mais uma calinada para não ir ao vernáculo).
    Aí só o anonimato poderá salvar tais almas, para uma nova nomeação num novo cargo remunerado fora dos padrões da função pública. Para esses nunca há rankings. Entretanto o país vai falindo, e a culpa é do mexilhão.

    • Paulo Marques says:

      Tem que ter tudo nota para dar um ar muito objectivo e racional ao ser humano e a sociedade, mas não há sistema de avaliação que não esteja cheio de defeitos, da arte à educação.
      No caso concreto, um aluno ter 15 ou 16 quer dizer o quê de útil, exactamente, sobre as suas capacidades, para nem falar do sucesso, seja lá o que isso for.

  2. Fernando Antunes says:

    Vi agora uma notícia no Público. Não deixo o link porque nem vale a pena, mas o título é “Há pais que escolhem o jardim-de-infância já a pensar nos rankings”.

    Porque não? Todas as escolhas deviam ter só, só, só os rankings em consideração. Para quando é que os pais começam também a escolher a maternidade já a pensar nos rankings? Há, com certeza, maternidades onde nascem mais pessoas de sucesso do que outras.

    O mundo seria um mundo de excelência se deixássemos de ser lamechas e tomássemos todas as decisões com base em rankings, desde a escolha da pastelaria com melhor pastel de nata, às escolas dos filhos, aos amigos e namoradas.

    Havia até um episódio do Black Mirror em que existia um sistema de rating para todas as interacções sociais. É fácil imaginar que seria a utopia ou “wet dream” de muitos direitolas, mas a verdade é que ela já é parcialmente verdade.

  3. Julio Rolo Santos says:

    Os rankings são sobretudo a denúncia da má preparação dos professores para convencerem os seus alunos a darem o litro para poderem merecer a recompensa de fim de ano com passagem limpa pelo seu esforço. A luta dos professores (só do público e não os do privado?) por melhorias salariais e tempo de serviço não correspondem ao saber e esforço dispendido por estes. Contemtem-se com o que tem e já não é muito mau.

    • António Fernando Nabais says:

      Se o Júlio soubesse o que se passa nos colégios perceberia por que razão os professores do privado estão, na prática, impedidos de lutar por melhores condições. Que o facto de não saber não o impeça de exprimir a sua opinião, porque a democracia também inclui o direito ao disparate. A partir de que lugar do “ranking” é que fica provado que os professores são incompetentes? É indiferente dar aulas dos meninos do Colégio do Rosário ou aos dos bairros de Ramalde ou de Francos? Nada disto é simples a não ser para os simplórios. O problema dos professores é revoltarem-se pouco.

      • Julio Rolo Santos says:

        Sr. Antonio Fernandes, compreendo o que diz sobre a dificuldade que os professores do privado têm em lutar por melhores condições, o que não compreendo é porque é que os professores do público não se manifestaram contra o governo de passos coelho que lhes cortou o salário e congelou o tempo de serviço que agora reclamam, sem sucesso, espero.Acredito que só por cobardia os impediu de o fazerem.

        • António Fernando Nabais says:

          Afinal, os professores devem contentar-se com o que têm ou devem lutar? Decida-se! Contra o governo Passos, houve luta contra a prova inventada por Nuno Crato e houve greve às avaliações. Essa queixa “É tudo contra o Costa e contra o Passos calaram-se!“ cheira a PS que tresanda. Não se preocupe: Sócrates, Passos e Costa, para mim, são a mesma porcaria e perseguem o mesmo clientelismo e o mesmo afã de destruir a administração pública.

          • Julio Rolo Santos says:

            Sr. Antonio Fernandes a minha discordância da luta dos professores nos moldes em que o fazem é por não ter sido feita na altura em que lhes coartaram esses pseudo direitos que só agora reclamam. Continuo a considerar que os rankings também são um teste de avaliação dos professores que são capazes ou incapazes por puxarem pelos alunos e manterem a disciplina na aula. As dificuldades económicas dos alunos não justificam o fracasso do ensino mas antes a falta de um acompanhamento mais acentuado por falta do professor. Sei que é difícil mas para isso é que serve a vocação para se ser professor.

          • António Fernando Nabais says:

            Se, do seu ponto de vista, são pseudo-direitos, a discordância não é apenas relativa à altura da greve, como é evidente. O resto do seu comentário é típico dos ignorantes que confundem ensinar com trocar peças de uma máquina ou substituí-la por outra, se estiver dentro ds garantia. O sucesso de um aluno não é apenas mensurável pelas notas e depende de vários factores, sendo que muitos escapam à intervenção dos professores, mesmo que não lhes retirem condições de trabalho.

    • Paulo Marques says:

      São? Porquê e como, sendo todos realidades diferentes?

  4. JgMenos says:

    «um instrumento de avaliação do trabalho das escolas»
    SEGURAMENTO o são!
    Avaliam o trabalho da ESCOLA, não só o dos docentes mas de todos os envolvidos, docentes , alunos, pais.

    Só falta um indicador: despesa por aluno. Sem isso fica inibida a compulsão estatística que sempre busca aplanar tudo o que se destaca pelo mérito.

    • ZE LOPES says:

      Apoiado!
      Proponho também mais um indicador: a despesa por banqueiro, seguida da sua divisão por aluno.Talvez nos indique qualquer coisinha.

    • António Fernando Nabais says:

      Se o menos se dedicasse ao tiro, acertaria sempre no alvo do lado. Boa, grande menos!

      • Rui Naldinho says:

        O Menos jamais se dedicaria ao tiro, com medo do projéctil poder ter um efeito boomerang. Caso contrário, comentava de forma simples e aberta, como fazem muitos que não pensam da mesma maneira que o António. Não se respaldava naquele nick, para debitar continuada baboseira.
        Meu caro, em todas as estradas aparece um “poio”. Ás vezes mais do que um. Continuemos pois o nosso caminho, olhando de vez em quando o “poio”, com a náusea que ele merece.

    • Paulo Marques says:

      Acho que sim, que se veja a despesa por aluno; nos medicamentos já se viu que o custo da eficiência do mercado chega a custar 58 vezes mais.
      Fora isso, o ranking abrangendo todas essas pessoas é útil para concluir o quê, então?

  5. Julio Rolo Santos says:

    Bem sei que ensinar não é o mesmo que trocar uma peça avariada de um carro mas também sei que não é chegar a uma sala de aulas e dizer bom dia ou boa tarde, vomitar a matéria por vezes pouco cimentada, e dizer adeus até ao meu regresso. Ser professor é muito mais do que isto é, por exemplo compreender porque é que o aluno A ou B não acompanham a matéria dada e tentar reverter a situação. Se ser professor também não é isto então estamos conversados.

    • António Fernando Nabais says:

      Mais acima, o Júlio escreveu “A luta dos professores (só do público e não os do privado?) por melhorias salariais e tempo de serviço não correspondem ao saber e esforço dispendido por estes.” Isto é uma generalização que mete todos no mesmo saco, através de uma vaga meritocracia baseada numa avaliação de conversa de café (“Há um professor do meu filho que…” ou “Tive um professor que…”). É feio e merece pouco crédito, mas, como já disse, o direito ao disparate é sagrado e as caixas de comentários não são menos do que um café. Tudo o que escreveu neste último comentário é absolutamente verdade, mas para se ser esse professor é preciso criar condições, o que não acontece com turmas com muitos alunos ou com cortes no crédito horário para apoios individuais, entre muitas outras medidas que, desde 2005, retiram progressivamente condições de trabalho. Mas é mais fácil dizer mal dos professores, claro.

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