Inclusão, o fetiche da moda na Educação

O Ministério da Educação é uma secretaria menor do Ministério das Finanças e serve, especialmente desde 2005, para aumentar ou confirmar cortes na despesa, actos diferentes de poupar.

As diferenças entre os sucessivos governos, na área da Educação, são, assim, meramente folclóricas e superficiais, evitando tocar nos pontos verdadeiramente importantes. Entre outras leviandades, vem a Direita e confunde exames com exigência, chega a Esquerda e corta exames em nome da igualdade, mais coisa menos coisa, sem que o poder legislativo perca verdadeiramente tempo a pensar, até porque os deputados estão ao serviço dos partidos e não dos constituintes, o que quer dizer a Educação não é uma prioridade na Assembleia da República.

Assim, mudam os ministros e os problemas não se resolvem (há um ditado que inclui merda e moscas – tudo o que inclua alusões a excrementos é simples e cristalino): formação inicial, formação contínua (moribunda e sujeita a modas passageiras), gestão das escolas, número de alunos por turma, horas para apoios e actividades, entre outros aspectos, continuam no limbo.

Na boca dos deslumbrados com (ou pelo) poder, há algumas constantes, derivadas da linguagem empresarialesa: avaliação, rankings, sucesso. Durante muitos anos, muita gente, incluindo professores (o que sempre foi um sinal preocupante), confundiu ou deixou que se confundissem os resultados nos exames nacionais, através dos rankings, com a avaliação do trabalho de uma escola (na imprensa e na boca de muitos professores, surgiram mesmo expressões como “a melhor escola”, como se houvesse algum campeonato).

João Costa é o secretário do Estado de um ministério com poder para nada de importante. Crítico, com argumentos válidos, do modo como os rankings foram interpretados, resolveu introduzir no sistema mais uma confusão desnecessária, mas suficientemente trabalhosa para atrapalhar a vida das escolas: a inclusão vai ser a medida principal para avaliar o desempenho das escolas.

(A “avaliação de desempenho” é uma daquelas expressões que, há muitos anos, dá origem a um monte de tarefas inúteis, num processo kafkiano em que os profissionais de muitos ofícios perdem tanto tempo a trabalhar para a avaliação que ficam com menos tempo para a profissão, o que, como tragicomédia, é excelente.)

A escola, como é evidente, deve ser inclusiva, está-lhe mesmo na massa do sangue, tendo em conta que o seu território é o da democracia. João Costa, como muitos decisores que passam pela Educação, acredita que lhe cabe trazer a Boa Nova aos ignaros, anunciar o Deus desconhecido aos descrentes.

Aconselho, entretanto, a propósito desta nova imposição, a opinião do Zé Morgado.

Ainda assim, vale a pena ler e comentar um excerto de uma notícia do Público, a propósito do entusiasmo ministerial com o novo sistema de avaliação. Na edição de dia 17 de Janeiro, pode ler-se:

é aqui [Beja, Faro e Bragança] que é mais visível a dificuldade que as escolas têm em conseguir que as crianças ultrapassem os constrangimentos ditados pela sua origem socioeconómica, mantendo-se ano após ano a larga distância daquelas que se podem comparar com elas.

Apesar de se apontar a “origem socioeconómica” como constrangimento, considera-se, na prática, que as escolas são as únicas entidades que têm a responsabilidade de resolver o problema. É fácil fazer futurologia: se a inclusão falhar, se a avaliação for negativa, a culpa será das escolas e dos professores. O critério do ranking muda, mas o objectivo é o mesmo: escolas e professores serão os bodes expiatórios da ausência de verdadeiras políticas sociais e educativas (relembre-se: formação inicial, formação contínua, etc.). Alunos, encarregados de educação e políticos ficam, assim, desresponsabilizados.

O Ministério da Educação deveria preocupar-se em perguntar às escolas se estão bem, se precisam de alguma coisa. Em vez disso, é só um pai ausente que insiste em dar ordens a uma família que não conhece. Os professores, prolongando a imagem, acabam por ser a mãe submissa que faz tudo pelos filhos, incluindo obedecer a um pai que os prejudica.

Imagem roubada à página Txitxa’s life

Comments

  1. Mónica says:

    Parabéns! Excelente texto. Penso da mesma forma eu e muitos outros desses professores que têm de obedecer ao tal pai que os prejudica e aos alunos. Questiono-me por vezes se o secretário de estado tem noção do mal que anda a fazer ou se isto é uma estratégia montada para descredibilizar a escola pública.

  2. Paulo Marques says:

    Eu sou da espécie rara que não é professor e não conhece pessoalmente professores (não-universitários), mas que, pelo que se lembra e pela sua cabeça, não deixa de concordar com os Nabais que por aqui passam.
    Antes estivessem os professores com problemas de aptidão no topo dos problemas do país (este ou outro), como pardalam os MSTs semana após semana, era sinal que o resto estava tão bem resolvido que isso se resolvia numa semana.

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  1. […] vez mais, no facto de que os professores interiorizam – ou normalizam, como está na moda – os disparates proferidos e impostos por ignorantes e vendedores de banha da cobra com poder político e…. Quando, numa área de actividade, os profissionais agem contra a própria área, a esperança é […]


  2. […] No que se refere à Educação, esquerda e direita não têm pensamentos, têm tiques e reacções. O ideólogo de serviço, neste momento, é João Costa. Atacado por um vago esquerdismo que aparenta pensar nos mais desfavorecidos, já glosou a habitual treta da escola que deve preparar para a vida, apareceu, ainda, a combater a “acumulação de saberes” e inventou a Cidadania e Nova Inclusão. […]