Carta aberta a António Costa

Santana Castilho*

Senhor Primeiro-ministro:

Uma carta aberta é um recurso retórico. Uso-o para lhe dizer o que a verdade reclama. Errará se tomar esta carta por mais uma reivindicação de grémio. Não invoco qualquer argumento de autoridade por pertencer a uma classe a quem deve parte do que sabe. Escrevo-a do meu posto de observação da vida angustiada de milhares de professores, que o Senhor despreza. Com efeito, cada vez que o Senhor afirma que os professores são intransigentes, está antes a falar de si e do seu governo. Como pequeno manipulador que é, falta-lhe a humildade e a honestidade para reconhecer que falhou no relacionamento com os professores e recorre a uma narrativa que não resiste à confrontação com os factos. Façamo-la.

Começo por dar por transcrito o que aqui escrevi a 27/6/18, quando desmontei as repetidas falsidades que Governo e comentadores têm propalado sobre a recuperação do tempo de serviço dos professores. Nenhum dos que citei me desmentiu. Nada do que referi foi contraditado. 

Em 18/11/17, o Governo comprometeu-se a contabilizar o tempo de serviço. Recentemente, disse que a parcela que verteu no decreto que Marcelo vetou prova a cedência que fez, porque no início (15/12/17) a intenção era não considerar tempo algum. Quando mentiu? A 18/11/17, a 15/12/17, recentemente, ou sempre?

O Governo mente quando diz que a posição sindical não evoluiu. Em 18/11/17, os sindicatos queriam os professores colocados a 1/1/18 no escalão correspondente a todo o tempo de serviço prestado. Ao longo da negociação foram apresentando várias formas de faseamento e modos de recuperar o tempo de serviço. No prazo e no modo, têm cedido. No tempo não, porque é a lei que o reconhece (art. 17º da Lei do OE 2019).

O Senhor mente quando fala de 600 milhões. Nunca apresentou as suas contas. Os professores deixaram as contas certas na AR. Nem de metade se pode falar!

O problema não está, nem nunca esteve, no dinheiro. Está, como sempre esteve, nas mentiras e nas escolhas políticas do seu governo. Está na manipulação dos números, no abocanhar oculto de receitas injustas e nas cativações. Está nas diferenças entre os orçamentos de fachada que a “geringonça” aprovou e os orçamentos de austeridade desumana que Ronaldo Centeno executou. Numa palavra, causa-me náusea ouvi-lo dizer que não tem dinheiro para pagar o que deve aos professores, depois de ter aprovado cinco mil milhões para sustentar bancos parasitas. 

O tom que usou para falar de enfermeiros e professores, que não se portam como eunucos de outros tempos, foi demasiado vulgar e não serviu a cultura cívica minimamente decente que se deseja para o país. Não se sentiu incomodado por uma ministra do seu Governo homologar um parecer onde se diz que uma greve que não afecte mais os trabalhadores do que o patrão é ilegal? Ficou tranquilo quando o seu Governo protegeu os fura-greves dos estivadores de Setúbal? Não veria a democracia em risco se pertencessem a outro governo, que não o seu, estas acometidas contra a liberdade sindical? Numa palavra, a sua arrogância tornou-se insuportável.

Não posso concluir sem uma referência ao conforto que o Presidente da República lhe veio dar, quando perguntou: “ é preferível zero ou alguma recuperação?” É estranho que um professor, para mais do cimo da mais alta cátedra da nação, pareça sugerir a outros professores que troquem a ética pela pragmática. Como se ser justo fosse equivalente a ser oportunista ou ser esperto. Fora eu o interpelado, que no caso felizmente não sou, e respondia-lhe: zero! Por dignidade mínima. Porque se a lei pudesse ser substituída pela pragmática, aqui e além, a vida moral virava simples hipocrisia. Porque o modelo de actuação de um professor não é o modelo de actuação do homo economicus, que facilmente troca a fiabilidade do seu carácter por qualquer ganho imediato. Para não aviltar quantos lutam pela justiça e são solidários com os colegas humilhados.

Termino assumindo que, para além do que lhe acabo de dizer, tenho uma posição ideológica clara: sou visceralmente contra as pedagogias propaladas por meninos crescidos, glosando como se fossem coisa nova temas como flexibilidade, autonomia e inclusão, que colocaram no fim da lista os conhecimentos essenciais à compreensão do nosso mundo e à formação de cidadãos inteiros.

*Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt) 

Comments

  1. Julio Rolo Santos says:

    Esta carta aberta, lamentavelmente, vem com um atraso de anos porque o governo que criou esta situação aos professores e, não só, felizmente já ficou pelo caminho. Porque não aconteceu? Os heróis conhecem-se em tempo de guerra e não em tempo de paz.

    • António Fernando Nabais says:

      Ó Senhor Júlio, em que é que ficamos: as reivindicações dos professores são justas ou tardias? É se forem tardias, deixam de ser justas? Quando sair da reunião da concelhia do PS, diga qualquer coisa.

    • António Fernando Nabais says:

      Quando um governo está em guerra contra os trabalhadores, estamos em tempo de paz? Boa piada, Júlio!

  2. Julio Rolo Santos says:

    Já sei que não vai responder ao essencial da questão mas não vou desistir de o fazer. Porque é que não reclamaram do anterior governo o que agora reclamam?

    • António Fernando Nabais says:

      Os professores nunca deixaram de reclamar os seus direitos, incluindo o descongelamento das carreiras e a recuperação dos subsídios de férias e de Natal, entre muitos roubos que começaram no tempo de Sócrates. Passos foi um continuador de Sócrates, tal como Costa continua o mesmo trabalho sujo. No tempo do Passos, como já lhe disse (mas quem defende uma tribo não quer saber), houve uma greve às avaliações que foi tão longe como a do ano passado. Além disso, este governo comprometeu-se a repor o tempo de serviço e, ainda assim, só se dispôs a fazê-lo, e não na totalidade, no final do mandato. O Júlio, como é do PS, tem o pensamento básico de quem defende um clube ou um partido. Neste caso, em vez de se preocupar com as injustiças de que os trabalhadores são alvo, professores incluídos, comporta-se como os “calimeros” que se queixam das arbitragens no futebol, que estão todo contra nós. Na sua cabecinha cheia de propaganda pê-esse, os professores só protestam contra este governo (porque somos todos do PSD ou do CDS) ou, numa reviravolta sem sentido, protestam, mas não deviam protestar. Peço-lhe desculpa por lhe ter chamado ignorante noutras caixas de comentários: o Júlio é só desonesto.

  3. Julio Rolo Santos says:

    Vejo que estão a faltar-lhe argumentos para justificar o injustificável e vai dai recorre ao insulto que é próprio dos fracos. Ao contrário de si não tenho filiação partidária e não me considero desonesto. Começo a duvidar que possua o titulo académico de que se arroga porque um professor sabe medir as palavras sem ter de recorrer ao insulto.Reflita no assunto.

    • António Fernando Nabais says:

      Falta de argumentos? Depois de lhe ter dito, mais do que uma vez, que os professores não pararam de reclamar, depois de lhe dar exemplos, ainda me quer explicar que é o contrário? Ainda lhe digo mais: os sindicatos até estiveram demasiado parados no início desta legislatura, talvez porque o PCP e o BE assim o quiseram, a fim de não perturbar os acordos na Assembleia. Tendo em conta que continua a insistir em disparates, depois de lhe ter sido explicado, não posso continuar a considerá-lo ignorante, o que quer dizer que, afinal, não está interessado em saber. Se insiste no mesmo, passa a ser desonesto. Ao contrário de mim? Está tão enganado. Nem sequer tenho problema em dizer que sou eleitor do BE há muitos anos, mas nunca me filiei em nenhum partido. Tenho o título académico e uma experiência profissional de 30 anos. É-me indiferente acredite ou não. O que já não tenho, depois de mais de dez anos de ataques à Educação e aos professores, é paciência para ignorantes atrevidos, gente arrogante que se julga no direito de explicar aos professores o que é ser professor. Tem toda a liberdade do mundo para escrever e dizer o que que quiser, mas não irá sem resposta. Se não gostar, paciência!

      • Julio Rolo Santos says:

        Sr.Antonio Fernando Nabais. A resposta que é dada pelo SIMILARE parece-me mais coerente. Tudo se resume a uma luta de classes e os professores e outros que tais querem ficar por cima mesmo que isso signifique reduzir as outras classes com fraco poder reivindicativo a continuarem com salários miseráveis.Com este acentuado de desigualdades, a concretizarem-se, vamos ter os professores a poderem fumar charuto cubano e a plebe continuar a não ter dinheiro suficiente para se alimentarem a si e aos seus.Sim, porque a teta não dá para todos.

  4. SIMILARE says:

    O grave problema é outro muito diferente. Os professores , como classe privilegiada depois de 1974, podem ter as razões que tiverem e algumas até serão justas mas o problema não é esse . O problema são os professores, os enfermeiros, os médicos, os policias , os juízes, os funcionários judiciais, os das Finanças, os varredores de caminhos, os que recolhem o lixo, etc. etc. etc. e ,se restar algum, EU também sou gente. Se descobrirem a mina ou as têtas da grande porca, terão o meu aplauso. Enquanto o Coelho reinou , em regime de monarquia absoluta, estiveram todos satisfeitos, alegres e contentes. Tenham dó da santinha ! ! Façam lá as greves que quiserem, mas pensem que este país não se move apenas com professores. Até há uma classe que tem estado calada e que são os que arrecadam o dinheiro que serve para fazer andar esta grande máquina..

    • António Fernando Nabais says:

      Sim, é “similare” ao Júlio. Parabéns.

    • Paulo Marques says:

      Tão privilegiados que nem direito a carreira têm. Acha que a seguir ao bloco com mais poder, alegadamente, vem quem, neste milagre económico? Muitos perceberam-nos e já não voltam ao país, caso não tenha percebido.

    • Ide-vos morder says:

      O povo já percebeu que o gito para os profs lhe vai sair do bolso. Ide-vos morder

      • António Fernando Nabais says:

        O povo, através dos impostos, paga vários serviços, incluindo os prestados por professores. Os professores, que são parte do povo, também pagam impostos. Realmente, é estranho que um serviço seja pago. Deve ser uma inovação qualquer. Vá lamber sabão, carinhosamente.

        • Julio Rolo Santos says:

          De preferência o TIDE que lava + branco. Os impostos que os professores pagam não cobrem o aumento que pretendem daí o recurso á solidariedade dos restantes contribuintes, o que não é justo nem aceitável.

          • Paulo Marques says:

            O imposto que os trabalhadores pagam num paraíso neo-liberal deficitário não chega para o próprio salário? Sai mais uma ronda de austeridade, faz-favor.
            É um bocado chato que percam mais tempo a lutar contra as migalhas uns dos outros do que pelo bolo que sai pela porta dos fundos, mas tão bem assim.

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