Nem tudo pode ser atribuído à natureza – o corrupto governo moçambicano tem a sua quota-parte de culpa

Michael Hagedorn

Sem dúvida que a ajuda às vítimas do ciclone IDAI é imperiosa e premente. Mas nem por isso há que fechar os olhos ao contributo do governo moçambicano para esta tragédia e para a situação miserável em que o país se encontra.

A última grande catástrofe com fortes cheias em Moçambique foi há quase 20 anos e, nesta época do ano, o país é regularmente fustigado por devastadores ciclones.

Mas o que foi feito, depois da calamidade ocorrida em 2000, para evitar que as consequências das próximas fossem tão dramáticas? Nada. Uma elite corrupta não fez nada para assegurar que na segunda maior cidade do país, que está praticamente ao nível do mar, fossem realizadas medidas concretas e eficazes para proteger as pessoas dessas devastações cíclicas. Desde o fim da guerra em 1992, o nível de vida da população pouco melhorou. No relatório da ONU sobre a pobreza, Moçambique ocupa o 180º lugar entre 186 países.

Um país que possui vastas terras agrícolas e recursos minerais.

Enquanto a população continua a viver na miséria, uma elite corrupta sob o governo da FRELIMO tudo fez e faz para enriquecer. Actualmente, o antigo ministro das Finanças, Manuel Chang, está sob custódia sul-africana, a pedido dos EUA, por ser co-responsável por um empréstimo de 2 mil milhões para uma frota de pesca fantasma (EMATUM) que não passou pelo parlamento e que mergulhou o país numa dívida imensa, levando ao colapso de hospitais e escolas. As crianças moçambicanas sofrem, enquanto altos funcionários do governo, bem como bancos europeus e russos, lucram com os seus negócios sujos.

O país poderia estar hoje muito melhor, mas tem sido sistematicamente negligenciado – sobretudo a região da Beira, por ser considerada área da oposição.

Se o governo realmente tivesse seguido nas últimas décadas uma política para melhorar as condições de vida da população, grande parte estaria agora a viver em casas permanentes, haveria sistemas de alerta precoce e a escala do desastre não teria que assumir esta dimensão.

O Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), que recebe milhões de fundos de Cooperação para o Desenvolvimento para sistemas de alerta precoce e alívio de desastres, nada fez nas províncias afectadas.

O Centro de Integridade Pública denuncia o descrédito generalizado em relação ao INGC, afirmando que resulta do efeito persistente de transações do Governo na área de finanças públicas, em geral, e em relação às dívidas ocultas, em particular e aos níveis crescentes do número de casos de corrupção que tem vindo a se registar no país, com incidência no sector público”. E ainda: “Pelo nível de desconfiança que prevalece sobre os sistemas de controlo e gestão do INGC dever-se-ia envolver organizações da sociedade civil credíveis ou cidadãos de reconhecido mérito, bem como instituições religiosas organizadas e outros entes na gestão da ajuda na altura da sua recepção, acondicionamento e posterior distribuição as populações afectadas pelo ciclone.“

Mais uma vez, o mais provável é que a ajuda – ou grande parte dela – seja desviada para os bolsos de meia dúzia.

Mas os doadores internacionais continuam a apoiar esse governo, através de ajuda ao desenvolvimento e empréstimos, em vez de exigirem uma mudança política que realmente melhore a vida da maioria da população. É claro que esses doadores não querem deixar o campo para os chineses e querem garantir o acesso a matérias-primas estratégicas, como gás, grafite, bauxite e outros metais preciosos.

É o mesmo jogo duplo que se pratica na África Ocidental e no Norte de África, onde os déspotas são generosamente recompensados se estiverem dispostos a controlar a saída de refugiados para a Europa. Enquanto isso, os subsídios agrícolas europeus à agricultura de exportação da Europa e acordos comerciais injustos continuam a contribuir significativamente para as causas de fuga dos países de origem.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Artigo simples e escorreito, tocando nas feridas todas, sem necessidade de muita conversa.
    Ao ler este texto percebo o drama dos Moçambicanos, com quem me identifico, pois é esta a terra que me viu nascer, Inhambane. Sinto uma enorme nostalgia, e ao mesmo tempo uma enorme dor de alma.
    Moçambique libertou-se do jugo colonialista para quê?
    Qualquer luta de libertação pressupõe um objectivo básico. Dar ao seu povo o direito à liberdade de expressão, no exercício cívico da democracia, e consequência disso, melhorar as condições de vida das populações tirando-as da pobreza.
    Como se constata, pouco ou nada melhorou desde o tempo do colonialismo, a não ser para uma minoria que se reclama representante do povo “ad eternum”, a FRELIMO, e mesmo assim, não são todos..
    Ao ler este artigo, vem-me também à memória, o drama da Venezuela, e tento perceber como nestes países libertados há poucas décadas do poder imperial, a metamorfose para uma democracia plena, se é que isso existe, ainda está por fazer. O que se tem visto em África e na América latina é mais a troca de um tirano por outro, com um discurso por vezes de forma vaga, algo diferente, mas deixando tudo na mesma. Elimina-se a nomenklatura dominante, e outra ascenderá com novos protagonistas. O povo pode esperar. Porque o “Povo” é apenas um slogan.

  2. estevesayres says:

    Eu não vou fazer grandes considerações politicas e este texto, até porque não conheço devidamente a situação para poder comentar. Mas pelos visto e pelo que li mais baixo (Rui Naldinho) parece-me que veja na sua escrita um Ex colonialista.

    Os Povos tem que ser eles a tomar uma posição politica e económica de força, contra o imperialismo Europeu , Ianque, como o contra imperialismo e Russo e Chines!,

    E como dizia o meu saudoso amigo e camarada Arnaldo Matos:

    “Vivemos ,num planeta em que o imperialismo, estádio supremo e último do capitalismo, se mundializou e globalizou, ou seja, se tornou dominante ao nível local e ao nível geral”.

    E mais ” è agora que se irão intensificar as guerras entre as grandes potências imperialistas”.” Dessas guerras imperialistas acabarão por nascer revoluções proletárias socialistas modernas”.

    Por fim, é ” Esta é a razão pelo qual uma revolução politica proletária não pode sobreviver sozinha num país isolado”!

    E fico por aqui

  3. Nascimento says:

    É pá, vem aí mais um lava pés…ups, um livecancioneiro.É tudo malta que andou por cá a ” aprender” como ” lidar” com estas ” cosas, pá”… boa Escolinha! Belissimos governantes! Komunistas de braçinho no ar e belos discursos ( senão, não comes!) tópam…
    Bando de filhos da puta que deixam morrer de subnutriçao 18% de crianças! Pobres? Uma merda.Aquilo dá tudo. Só precisa de Trabalho e Organização! Há mais de 40 anos a Numenklaturra da Frélimo a encher os bolsos e a dar umas trancadas com os alemões na Ilha de Moçambique!Querem guito? Esperem sentados!

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