Pega ladrão!

“E depois da eleição, você cobra resultado? 
Ou fica aí parado, de braço cruzado? 
Você lembra em quem votou p’ra deputado? 
E em quem você votou lá no Senado?” 

O Supremo Tribunal Federal do Brasil anulou, esta segunda-feira, todas as condenações de Lula da Silva, no âmbito da operação Lava Jato. 

Recorde-se que o processo Lava Jato teve início em Março de 2014, pela mão do então juiz Sérgio Moro, posteriormente nomeado Ministro da Justiça e Segurança Pública do Governo de Bolsonaro, cargo a que renunciou em Abril de 2020, depois de divergências com o presidente brasileiro. A operação condenou mais de cem pessoas, investigando, entre outros, crimes de corrupção activa e passiva, gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, organização criminosa e recebimento de vantagem indevida. A operação Lava Jato teve o seu término em Fevereiro de 2021.  

Uma das pessoas apanhadas na teia de suspeição foi o antigo presidente do Brasil e antigo presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), Lula da Silva. O ex-presidente brasileiro, suspeito de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, acabou por ser condenado a nove anos e seis meses de prisão, em Julho de 2017. Proibido de exercer cargos públicos, Lula da Silva cumpriu 580 dias de prisão, depois de, em Abril de 2018, ter visto rejeitado o Habeas Corpus e ter sido, novamente, condenado à prisão (desta vez a doze anos e um mês). Depois do linchamento, da perseguição e da prisão, o socialista Lula foi libertado em Novembro de 2019, depois do Supremo Tribunal Federal ter considerado a condenação da prisão em segunda instância inconstitucional. Segundo a revista Veja, Lula da Silva é a personalidade brasileira mais visada por notícias de teor falso e calunioso.   

Agora, em Março de 2021, sete anos depois do início da histórica investigação, o “petista” vê anuladas todas as condenações de que foi alvo. A decisão do juiz Edson Fachin determina, então, que Lula da Silva volta a ser elegível para se candidatar a eleições, ficando, desde já, apto a concorrer a um terceiro mandado como Presidente da República do Brasil em 2022. Numa altura em que o Brasil vive tempos difíceis, sendo o terceiro país do mundo com mais casos de Covid-19 e o segundo com o maior número de mortes causadas pela doença. A tudo isto acrescem os problemas económicos a que os brasileiros estão, nos últimos anos, condenados, o nepotismo da governação de Bolsonaro, assim como a repressão, a perda de direitos cada vez mais evidente, o crescente conflito racial, a destruição acelerada da Amazónia e as acusações de genocídio. Com Jair Bolsonaro cada vez menos popular, a decisão do STF do Brasil vem trazer ainda mais dissabores ao ditador brasileiro, que vê, desta forma, cada vez menos provável a re-eleição em 2022. Entre 2003 e 2011, com Lula da Silva como presidente, a economia brasileira cresceu, cresceu o emprego (num somatório de cerca de quinze milhões de postos de trabalho criados) e houve melhorias sociais que visaram a igualdade: o combate à escravidão, a igualdade na saúde, a luta pela educação e a luta ambiental. As infra-estruturas do Brasil também foram melhoradas: da habitação, às tele-comunicações, passando pela segurança. Isto, claro, quando comparados com períodos homólogos do passado, pois, convém dizer, muito ficou por fazer, muitos erros foram cometidos e, lá está, o flagelo da corrupção continua a assolar o país da “Ordem e Progresso” (das duas, uma: ou foram os brasileiros que a ensinaram aos portugueses quando estes lá chegaram, ou o contrário; nisto, não há dúvidas de que somos “irmãos”).

Bolsonaro deve temer. Deve temer porque sabe que, tendo em conta a conjuntura, perderá as eleições para Lula, caso o militante do PT se decida candidatar (o que parece óbvio). Deve temer porque sabe que, depois de meia dúzia de anos em que o extremismo de direita ganhou terreno, o fascismo começou a perder o norte quando, mais a Norte, Donald Trump (o número um da entente) perdeu as eleições para Joe Biden. Deve temer porque sabe que Lula da Silva e o seu esquerdismo têm mais força. E deve temer porque sabe que, mal termine o seu mandato, o “segundo” será iniciado por investigações que o poderão levar a sentar-se no banco dos réus.  

Lula da Silva foi alvo de uma perseguição sem precedentes na história da política brasileira, de acusações de “ladrão” a “pedófilo”, conspurcado nos jornais e nas redes sociais, tendo levado Dilma Rousseff de arrastão e a imagem da Esquerda brasileira, que acabou manchada. Se todos somos inocentes até prova em contrário, a justiça provou-o: Lula é e continua a ser, até prova em contrário, inocente. E Bolsonaro será, com toda a certeza, e até prova em contrário, o próximo na lista: pega ladrão! 

Lula da Silva carregado em ombros por apoiantes após a sua libertação (2019) – Sebastiao Moreira / EPA

Comments

  1. José Meireles Graça says:

    Gosto muito de vir ao Aventar, que tem autores cómicos: “… vem trazer ainda mais dissabores ao ditador brasileiro, que vê, desta forma, cada vez menos provável a re-eleição em 2022”.

    • João L. Maio says:

      E em que medida isso lhe transmite comicidade? Explique-se que eu tenho pouco sentido de humor.

      • José Meireles Graça says:

        Se é preciso que se lhe explique a contradição ínsita na frase não está em condições de entender a explicação.

        • João L. Maio says:

          O José falou em comédia, não falou em contradições.

          Se, para si, o facto de existirem eleições, apaga o facto de Bolsonaro ser um ditador, não está em condições de entender a “contradição”. Na Venezuela também há eleições… considera Nicolás Maduro um democrata?

          Já que cito Gabriel, o Pensador, no texto, vai daqui mais uma citação: “É p’ra rir ou p’ra chorar?”.

          • José Meireles Graça says:

            A contradição, num ponto essencial para a economia do post, tem graça porque o anula; Bolsonaro corre o risco de perder as eleições, Maduro não; o Brasil, com todas as suas imperfeições, é uma democracia, a Venezuela não; o Brasil é um grande país razoavelmente governado, a Venezuela uma anedota cripto-comunista.

        • João L. Maio says:

          E até lhe dou outra novidade: em 1930, o partido nazi elegeu 107 lugares no Reichstag. Sim, por via de eleições! Os nazis são democratas?

          • José Meireles Graça says:

            Agradeço a novidade, é um grande gosto aprender história consigo e com a Wikipedia. Para a troca de novidades, informo: Hitler chegou ao poder num regime democrático, que destruiu assim que esteve em condições de o fazer.

        • Filipe Bastos says:

          Sejamos sérios, João: até 1933 a Alemanha não era uma ditadura. Até então as eleições foram livres e os resultados reais; os nazis receberam mesmo os votos.

          Da mesma forma, o Bozonaro será muita coisa, mas foi também mesmo eleito. Não é um ditador. Poucos dirão o mesmo da Venezuela e do Maduro.

          • João L. Maio says:

            Filipe: de 1925 a 1930, o regime alemão, que até então era uma democracia, deu uma guinada para o autoritarismo, pela mão de Paul von Hindenburg, um nacionalista que foi combatente na I Guerra. Só depois Hitler, um nacionalista ainda mais radical, chega ao poder. Mas, antes disso, a Alemanha já não era propriamente uma democracia.

          • Filipe Bastos says:

            João, Hindenburg foi eleito e reeleito com votos reais. Schleicher queria certamente um regime mais autocrático, mas só a crise empurrou o já velho Hindenburg a concentrar mais poder.
            Tanto havia democracia que em 1932 Hitler perdeu com ele, e o NSDAP perdeu também votos.

            Conhece muitas fontes que afirmem que até 1933 a Alemanha não era uma democracia – isto é, uma fantochada representativa, como por ex. a nossa?

          • João L. Maio says:

            Como é que pode afirmar que existia democracia se já havia clima repressivo e autoritário? Sim, havia um sistema democrático implementado, que em 1925 começou a ser quebrado e substituído por outra coisa. É apenas por causa da suposta liberdade de voto?

            É que se o é, voltamos ao mesmo; as ditaduras não são só e apenas avaliadas pela existência, ou não, de supostas eleições livres e nem sempre são impostas por golpes de Estado, mas sim em regime transitório, como aconteceu na Alemanha nessas décadas, até se instituir de vez o nazismo. Já dei o exemplo da Venezuela, também, que pratica supostas eleições livres, mas que toda a gente sabe que tem um regime tudo menos democrático.

          • Filipe Bastos says:

            O ponto aqui, João, é que Maduro vicia as eleições; Hindenburg e Bozonaro não. A eleição do primeiro foi mentira; a dos segundos não.

            Podemos questionar leis, pressões, até chantagem – por ex. no recente referendo da secessão da Escócia houve clara chantagem dos mamões para ganhar o Não – mas as pessoas podem votar, bem ou mal, e os votos são mesmo contados, ganhe quem ganhar.

            Julgo que sabe disto, apenas lhe dá jeito manter que o Bozo é ditador. Tal como meio mundo dizia que o Trampa o era; mas não era. Era só trampa.

          • João L. Maio says:

            A perda de direitos do povo brasileiro nos últimos 2 anos e todas as outras condutas anti-democráticas de Bolsonaro que elenco no texto, para mim, são factuais.

            E mantenho que Bolsonaro é ditador.

          • Paulo Marques says:

            Acho piada alguém que diz que em Portugal o voto não serve para nada dizer que o que interessa noutro lado é o voto.

        • João L. Maio says:

          José, eu disse que o Bolsonaro é um ditador, não disse que o regime brasileiro não é uma democracia. Pode parecer uma contradição, mas se pensar melhor, não é. O mesmo com Trump.

          Eu não ensino história a ninguém… ainda por cima ser professor já não é uma profissão, é um insulto.

          E sim, Hitler chegou ao poder num regime “ainda” democrático, não totalmente pois já havia uma deriva, o que se agravou com ascensão de Hitler depois da grande crise.


  2. Credo! UM juiz do Supremo tomou essa decisão. Esse Juiz, o Sr. Fachin, é ligado ao PT e foi nomeado por Dilma para o Supremo. A decisão foi singular e terá, ainda, de ser votada pelo colectivo que integra a secção. O que impressiona, francamente, é como a notícia, que no Brasil é “Juiz do supremo anula condenação de Lula” passa, em Portugal, a “Supremo anula condenação de Lula”. Isso, e como, pelos vistos, ninguém se rala por a decisão ser puramente formal – Lula devia ter sido julgado em Brasília e não em Curitiba – e nada ter a ver com a substância dos factos imputados ao ex-PR do Brasil. Não há dúvida, para a esquerda, um bandido é bom, desde que seja o nosso bandido.

    • João L. Maio says:

      Quem diz “para a esquerda”, também diz “para a direita”. É igual dos dois lados, mas quem decide é a justiça. Afinal, tem o J de Jair e o PT do Partido Trabalhista, tem de malhar nos dois.

      Mas o que se passa? Também começou a temer alguma coisa? Tenha calma que ainda faltam alguns quilómetros para lá chegarmos.

  3. Filipe Bastos says:

    Tenho de concordar com o JPT. Quando vi Lula e “pega ladrão!” no mesmo post, confesso que esperei um pequeno milagre. Claro que me enganei. Nenhuma surpresa aqui.

    O Lula é dos ‘nossos’, logo isto foi obviamente uma cabala, uma campanha negra, nas imortais palavras de certo compincha do Lula e ex-beneficiário do Tide mais à esquerda.

    Isto sem esquecer as trafulhices do Moro, com o alto patrocínio da canalha americana, ou as do grotesco Bozonaro; mas querer agora limpar o trafulha Lula e o esgoto PT só porque a condenação daquele foi anulada por um juiz – um juiz favorável ao PT – da ultra-corrupta justiça brasileira, é de bradar aos céus.

    E depois admiramo-nos que a esquerda seja acusada de corrupção, de branqueamento, hipocrisia e cegueira selectiva.

    • João L. Maio says:

      É de louvar a sapiência.

    • João L. Maio says:

      “Quando vi Lula e “pega ladrão!” no mesmo post, confesso que esperei um pequeno milagre.” – o Filipe já devia saber, e se não sabia fica a saber, que não pode esperar milagres vindos deste lado. Nisso faço mea-culpa, o meu ateísmo repele milagres e milagreiros.

    • Filipe Bastos says:

      Não se preocupe, João, eu é que estou mal; v. está claramente no sítio certo. É esse o grau de isenção cá da casa.

    • Paulo Marques says:

      O melhor possível não lhe passa pela cabeça, pois não? Fora com a cabeça!

  4. estevesayres says:

    Eu não sou de intrigas…
    Mas não confio na justiça, seja ela Brasileira ou Portuguesa!!! Confio isso sim, em alguns juízes… Quanto ao caso do texto mais acima…Até 2022 muita água correrá debaixo da ponte…

  5. Paulo Marques says:

    Se continuar a centrar o país na exportação de matérias primas e a ter que servir muitos interesses para mexer nalguma coisa, nada de fundamental mudará. Democracia ou não, não há país que sobreviva a isso. Nem na Europa, era bom que se percebesse.

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