Os liberais que afinal são estatistas

Desde que começou a pandemia, um ataque comum aos liberais é tentar provar que estes afinal querem que o Estado exista. Uma semana já não é a mesma coisa se não for dito que afinal os liberais gostam do dinheiro do Estado. Lembro-me de uma intervenção do género do primeiro-ministro dirigida a João Cotrim Figueiredo e, mais recentemente, um artigo de opinião no ECO de Pedro Sousa Carvalho. Será que os liberais afinal querem que o Estado exista?

 

Sim, querem. Se não quisessem, não eram liberais. Esta estratégia usada pela esquerda para descredibilizar os liberais e também usada pela direita magoada por não os ter atrelados é muito fácil de explicar. Criam a ideia que os liberais não querem o Estado para nada e atacam esta mesma ideia que inventaram cada vez que se fala em Estado. Basicamente, os liberais não são refutados, mas sim aquilo que gostavam que os liberais defendessem para facilitar. O liberalismo ainda é muito desconhecido neste canto da Europa e isso justifica a facilidade com que se mete palavras na boca de quem nunca as disse. Qualquer dia, inventam que os liberais querem é acabar com a saúde pública e a educ… Não, isso já fazem.

 

Afinal, o que querem esses perigosos liberais? Querem um Estado forte, mas pequeno. Um Estado que proteja as liberdades individuais, social e economicamente. Um Estado que garanta um acesso universal à saúde e à educação, mesmo que não seja sempre o prestador, colocando a escolha do cidadão em primeiro lugar. Uma justiça independente, ao serviço dos cidadãos e não do Estado. Um Estado que estimule a criação e a inovação em vez de ser um entrave, através de cargas fiscais que fazem corar os nórdicos e burocracias ao estilo caricaturado pelos Gato Fedorento no “Papel? Qual papel?”. Um Estado preparado para apoiar os mais vulneráveis, garantindo a igualdade de acesso às oportunidades. Um Estado com menos intervenção na economia, garantido que temos uma economia capitalista e não uma economia amiguista, em que conta mais ter um primo na Câmara Municipal do que ser o melhor empresário da tua terra. Um Estado transparente e que valorize a separação de poderes, diminuindo assim a corrupção pela raiz. Um Estado que garanta que nenhum indivíduo é discriminado pela sua natureza. Um Estado que dê liberdade de escolha aos cidadãos no que à vida privada diz respeito. Resumindo, um liberal defende que todos os cidadãos devem ser tratados com dignidade e que devem ver as suas liberdades respeitadas, sem condescendências ou paternalismos.

 

Os socialistas dizem que os liberais vivem numa fantasia – Estónia e Irlanda riram-se – quando defendem que são medidas liberais que ajudarão Portugal a crescer, mas que se tornam estatistas com a realidade. Será assim?

 

Os liberais, ao contrário de quem afirma isto, vivem na realidade. Ao contrário do que os socialistas fazem com as suas ideias, qualquer liberal admite facilmente que o liberalismo não é perfeito. Um liberal não tem como maior ambição provar que estava certo ou enriquecer à custa dos contribuintes, porque se fosse para isso mais valia ser do PS. O que um liberal quer é dar a oportunidade às pessoas de melhorarem a sua vida e… tem resultado. O objetivo não é provar à força toda que Friedman ou Hayek estavam certos, mas sim adaptar estas ideias à nossa realidade. E como os liberais vivem com os pés no chão, sabem que os portugueses têm um enorme esforço fiscal e que o Estado português não se pode queixar de falta de dinheiro dos contribuintes nos seus cofres. Se este dinheiro não serve para apoiar pessoas numa pandemia, para que serve o Estado então? Sustentar companhias aéreas e bancos falidos? Pagar o café com cheirinho da comitiva?

 

Quem está a falhar com a sua missão é o Estado. E num país que tem um Estado tão pesado na vida das pessoas, esse falhanço é ainda mais grave. Quando um liberal defende, por exemplo, que alunos do privado e do público sejam tratados da mesma forma pelo Estado, não está a ir contra os seus princípios. Quem o acha é que está a colocar a sua ideologia acima da vida das pessoas. Ora, quando eu andei num colégio de freiras, os meus pais deixaram de pagar impostos? Não. Não deixaram. O problema é que o Estado tem um produto e faz fita quando poucos o querem. Sim, porque ao contrário de um socialista, um liberal não pretende criar o sistema de privado para ricos e público para pobres. Se todos os cidadãos cumprem com o seu dever, também devem ser tratados de igual forma. Caso contrário, confirma-se que temos um país e dois sistemas. Um país em que, como cidadão, tens de ficar em casa, mas como militante, podes ir a aniversários partidários.

 

O que o Estado está a fazer às pessoas, e espero que um dia se olhe para isto como erro a não repetir, é amarrar a população. Não deixa as pessoas trabalhar e, com a mesma facilidade, também não as apoia. Alguns, do alto da sua arrogância, até ridicularizam dizendo que afinal sempre é necessário o Estado. Isto é o mesmo que eu querer ir trabalhar, a minha mãe dizer que não, eu pedir-lhe dinheiro e ela exclamar: Vês como não és nada sem a tua mãe?

 

Quanto mais pobres estamos, mais desesperados ficamos. E este desespero leva à vulnerabilidade que é instrumentalizada por populistas que encontram um inimigo comum e por medidas milagrosas de redistribuição que colocarão o Ronaldo e um colega meu do Cerco com a mesma qualidade de vida em 3 dias. São piores que os moços com dobragens terríveis das televendas. Esta iliteracia financeira em Portugal reflete-se, por exemplo, no facto de um partido liberal apenas ter assento parlamentar em 2019, sendo um dos únicos países europeus que ainda não tinha. Também temos um dos maiores partidos comunistas da Europa, a par de países como a gloriosa Grécia. E não conseguimos resistir à evolução da direita populista que está a causar divisões sociais graves no leste europeu.

 

Os liberais não viraram estatistas. Os liberais, simplesmente, sabem que existe diferença em apoiar alguém que perdeu tudo devido à pandemia ou financiar as empresas dos amigos que “não podemos deixar cair”.

 

Os liberais pretendem criar pontes e permitir que os cidadãos possam confiar no contrato social, com um equilíbrio entre as liberdades positivas e negativas. Ao contrário deste sistema em que as pessoas votam e são afastadas quatro anos da política.

 

O Estado traiu a população. O Estado não cumpriu a sua função.

Comments

  1. JgMenos says:

    As lições do Estaline e Goebbels foram bem apreendidas pela esquerdalhada: uma mentir, se bastante repetida…

    • POIS! says:

      Tem V. Exa. carradas de resmas de toneladas de razão!

      É como aquela “bocarra” de que foram os “esquerdalhos” que “abandonaram o Ultramar à miséria” que, volta e meia, andam por aqui a repetir. Uma mentira, se bastante repetida…

      É uma bela fábula. Mas, em primeiro lugar, convenhamos que os direitrolhas não se opuseram por aí além ao “abandono”…

      Não vi, na época (agora há aos montes!), nenhum herói direitrolha a oferecer-se para ir à frente defender a coisa, talvez inflienciados por Salazar que disse que só lá ia quando desaparecesse o “último terrorista”.

      Nem aquela malta das juventudes partidárias da Direita pareceu muito interessada em dar o corpo às balas. Nessa altura era tudo mais Algarve, Quinta da Marinha, fumaças holandesas…Ainda lhes acenaram com a abundância de nativas à disposição, Cuca e Coca-Cola às litradas, mas nem assim.

  2. Filipe Bastos says:

    Francisco, a descrição do seu Estado “forte, mas pequeno” lembra um anúncio: tem tudo de bom, nada de mau ou assim-assim.

    O facto é que a esquerda incha o Estado; o capitalismo compra-o. Com demasiado dinheiro vem inevitavelmente demasiado poder. Quem manda em Portugal e no mundo já não são os governos: é a Banca, as grandes empresas, os ‘mercados’. Os mamões.

    Outro facto: como é que um sistema privado de saúde ou educação não divide ricos e pobres? Paga o Estado a diferença, subsidiando os privados? E acha que os ricos toleravam lá os pobretanas?

    Tal como a esquerda ignora hipocritamente os abusos do Estado, i.e. dos camaradas no poder, a direita finge ignorar que a separação entre ricos e pobres não é casual: é deliberada. Os ricos querem ser mais que os outros. Apenas chegam lá de outro modo; em vez do Estado chulam e mamam em empresas e negócios.

    A Irlanda cresceu como o Luxemburgo, a encher mamões: a ser o paraíso fiscal, a rameira dos mamões. A Estónia é melhor, mas dê-lhe tempo. A desigualdade acompanha sempre a ganância.

  3. Paulo Marques says:

    Quando um liberal defende que o estado pague o lucro, não defende igualdade de oportunidades, define oportunidade de escolher quem lhe vai dar o lucro. Escolhe que doenças aceita, deixando o resto para o público, se existir, ou para que piore para a emergência, onde pode extrair mais. Escolhe alunos que deiam menos trabalho e publicitem mais o negócio, porque não cabem todos e alguém fica com os restos. E depois critica os “maus” resultados do estado para arcar com mais rendas.
    Defende que o estado defenda os mais vulneráveis, mas só se forem fortes para se defenderem. Tornam-se redudantes? É porque não foram para o emprego certo. Têm uma doença com gastos acima do plafond? Deviam ter escolhido um plano mais alto. Gastam demais no seguro e têm problemas a pagar as contas? Deviam ter um plano mais baseado na boa sorte. A universidade faliu sem te deixar com nada? Se for boa, o estado salva-te o investimento. A empresa obriga-te a violar a lei ou põe a tua segurança em perigo? Muda-te para os milhares de alternativas negativas existentes, porque o estado não pode ter força. As empresas vigiam-te na internet e sabem mais sobre ti do que os teus pais e vendem a informação aos potenciais patrões e seguradoras? A culpa é tua, devias ser um santinho que elogia mercados com filtros instalados, se não sabes como, não mereces. E não sejas uma minoria discriminada, muda o nome para Francisco para não saberem o que és.
    O estado não serve para salvar empresas, serve para obrigar trabalhadores a irem para as fábricas de comida e armazéns amontoados e terem o mérito genético de não serem quem morre. Até as minorias estão protegidas ao estarem na linha da frente, tal a magnância. Quando a família os perde, só têm é que ter mais mérito a substituí-los.
    Mas isto é tudo a bem da literacia financeira. A literacia financeira que nos diz que mais vale ter percentagens de desempregados a mais do que alguém calcular que um dia estamos a chegar a quase estar perto de vir a ter a uma ligeira subida da inflação, uma ciência quase tão exacta como a subida de desemprego por aumento de salários e de procura. Dito por “especialistas” que têm números, e defendem o sucesso pelo PIB ou pelo rendimento, como se fosse a mesma coisa, e ignorando os abandonados com certeza que os filhos viverão pior, ou a razia demográfica que nos faz parecer em expansão acelerada. Tudo a crédito, acima das possibilidades, porque porque é que alguém há-de regular o preço de alguma coisa? Que vão à falência, pois, e as poupanças também, que 100000€ já é ser milionário se forem poupadinhos. E ainda há os mais iluminados que nos vendem o novo ouro, porque uma moeda baseada na destruição ambiental sem qualquer controlo de estabilidade faz todo o sentido quando o problema é dos outros.
    E que dizem sobre Grenfell? Nada. Bhopal? Nada. Boeing? Nada. É o mercado, não se aperfeiçoa o mercado sem perder uns milhares aqui ou ali. Acho que é falta de criatividade, tal o amordaçamento democrático. Fossem outros os tempos, e arranjavam maneira de o atribuir aos 100 mil milhões de mortes pelo comunismo, tal como às empresas que contribuíram e colaboraram com o Adolfo. É só quererem.


    • O Francisco quer escola pública, mas também que o Estado financie a privada a bem da liberdade de escolha. Quer manter um SNS, mas financiar a saúde privada pelo mesmo motivo. E quer um Estado mais pequeno. E uma redução significativa dos impostos. É isto?


      • O comentário é ao post, saiu no sítio errado (dedos gordos)

      • Francisco Figueiredo says:

        Sim. Mas o Estado paga o mesmo, na verdade, porque o valor que o Estado paga caso o cidadão tem de ser acordado de forma a ser justo para o Estado e para o privado. Não podemos esquecer que alguém colocou o seu dinheiro para criar esse Hospital ou Escola, por isso não é só mandar para lá. Há que pagar, mas ao valor normal e não apenas estabelecido pelo privado. Ser liberal não é querer ficar ao lado dos privados, é ao lado do cidadão. E assim deixamos de ter um sistema de público para pobres e privado para ricos. O que assusta mais a esquerda não é haver quem tenha uma educação sem qualidade, é dar um cêntimo de lucro que seja a alguém. Abraço

        • Paulo Marques says:

          E quando o privado só quiser quem dá mais lucro, como alunos com probabilidade de sucesso e de angariação de membros, ou menos custos, como internamentos prolongados e casos de risco? Ah, espere, já sabemos, porque acontece hoje, orgulham-se da eficiência para pedir mais rendas.

  4. Daniel says:

    “Querem um Estado forte, mas pequeno.”
    Isso existe?!
    Milagres é mais para os lados de Fátima!…
    O Estado na Noruega, Suécia, etc é forte, mas não é nada pequeno!
    Liberais como os do Lehman Brothers, do GES/BES, etc, também deram uma bela prenda aos Estados!…

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  1. […] Os liberais não querem acabar com o Estado, repito pela 1325ª vez. Mas é mais fácil acreditarem nisso. O ser humano tem esta tendência de mentir a si mesmo para se proteger do que o pode magoar. […]