Quando os doidos tomam conta da casa

As medidas para um suposto combate à pandemia estão a enlouquecer os decisores políticos, um pouco por todo o lado. Na vertigem diária dos meios de comunicação com os números de infectados e de falecidos acontece de nos esquecermos de coisas que aconteceram nos dias anteriores. Ainda se lembram daquela reunião de madrugada em que Merkel decidiu uma coisa para nas horas seguintes pedir desculpa e decidir o seu contrário?

Agora foi em Espanha. Aliás, aqui em Espanha as contradições são tantas que era preciso criar um segundo Aventar e temático. A última foi ontem: decidiram que era obrigatório o uso de máscaras nas praias e piscinas. Perante os protestos, hoje decidiram que afinal já não é obrigatório.

Tal como em Portugal, um espanhol de Madrid/Barcelona/Vigo não está autorizado a vir às ilhas baleares por estes dias. Mas um alemão pode. Um turista espanhol não pode, mas um turista alemão (e não só) pode. E depois acontecem coisas que não lembram a ninguém: no aeroporto internacional de Palma de Maiorca detectaram cinco turistas que testaram positivo para Covid e a pergunta é: como foi possível três horas antes terem saído da Alemanha de boa saúde? Possível, pelos vistos, é. Ou então, hoje, deparo-me com uma fila enorme de turistas alemães junto a uma clínica privada de saúde (alemã, por acaso) aqui na terrinha. Em cinco anos que já levo aqui nunca tinha visto semelhante. Como é uma terra pequena, rapidamente se ficou a saber que seis turistas testaram positivo para Covid no hotel. E agora, toca a testar todos os clientes, os funcionários e sabe-se lá mais quem (por onde andaram? Foram a restaurantes? A cafés? Ao supermercado?).

Já na Alemanha, mesmo perante a tentativa do Governo de evitar a saída para férias dos seus conterrâneos, a verdade é que eles já não querem saber e toca a voar para Creta ou Maiorca (só na sexta-feira Santa são esperados no Aeroporto Internacional de Palma de Maiorca mais de 24 mil). Mesmo com ameaças veladas das autoridades alemãs de que vão ficar à sua sorte se ficarem contaminados com o vírus.

Ora, como combater uma pandemia e reactivar a economia, sobretudo o sector do turismo (PIB de dois dígitos tanto em Espanha como Portugal) com constantes alterações das regras e sem uma estratégia clara e bem definida? Pelo menos uma estratégia europeia para as viagens, todas elas, internas. Deve um alemão ser autorizado a viajar para Portugal ou Espanha? Deve. Com teste à saída e à entrada, das duas vezes, fornecido pelos respectivos países. Pelo menos dentro da Europa. Para salvar o Verão, como os políticos gostam de dizer? Não. Para salvar a economia, para salvar as vidas que não se perdem com a pandemia, mas que, por este andar, se vão perder por via do combate à pandemia. Com restauração e hotelaria abertas, com as restrições possíveis (ok, festas no meio disto é impensável), mas fechar os restaurantes e bares às cinco da tarde, como fazem aqui (nas Baleares), é igualmente impensável.

O problema é que os doidos tomaram conta da casa e quem nos governa (e aqui “quem” é extensivo a todos os Governos Europeus) não faz a mínima ideia do que está a fazer, até porque, como os funcionários públicos, o ordenado continua a ser recebido e por inteiro.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Ainda neste domingo tive o regresso do meu filho, vindo do Dubai.
    Realizou nesse país um teste Covid 19, o chamado PCR, 48 horas antes, numa clínica local, com o custo de 35,00€, pago por ele, com o ressarcimento à posteriori feito pela empresa. Por cá um teste rigorosamente igual custou a módica quantia de 100,00€, valor pago pela empresa aquando da sua ida, em meados de Janeiro deste ano, para o Emirado.
    Só por aqui já se começa a perceber que esta pandemia, ela existe de facto, não o neguemos, tem um enorme interesse económico para alguns sectores de actividade, em detrimento de outros.
    A saúde deve se um bem comum, mas o recurso aos hospitais, clínicas e farmácias, mesmo para medicação, deve ser feito numa perspectiva de recurso, ou nos casos das doenças crónicas, como meio de mitigar as enfermidades, e não por hipocondria. Há pessoas que têm medo da própria sombra.
    Testar é deveras importante para se reduzirem os contágios. Mas sabemos todos que o mundo está cheio de espertalhões, de ambos o sexos, daí eu achar que o teste deveria ser feito obrigatoriamente no país de chegada, logo no aeroporto ou na fronteira, com o resultado apresentado ao passageiro nas 24horas subsequentes. Este deverá ser identificado através de telemóvel ou e-mail, para que lhe possa ser dado o resultado do teste, e caso esteja positivo, os procedimentos a ter, como a quarentena, cujo número de dias poderá ser de 7, como acontece nalguns países, e não de 12, como em Portugal.
    O facto do teste ser feito em Portugal, obriga o país a assumir uma responsabilidade sobre o controle sanitário das entradas.

    • Luís Lavoura says:

      Testar é deveras importante para se reduzirem os contágios.

      Depende de quais as consequências de um teste positivo.

      É que, há que ver que os testes dão falsos positivos (isto é, a pessoa não está infetada mas o teste diz que está). Se o custo de um positivo fôr enorme, mais vale não testar.

      Se um turista que der positivo fôr obrigado a passar os 15 dias das suas férias fechado à chave num quarto de hotel, então haverá uma revolta, ou então as pessoas recusar-se-ão a viajar. Por isso, o melhor é abandonar essa ideia dos testes.

      As pessoas devem ser testadas apenas e somente se estiverem doentes. Nesse caso, são testadas para se descobrir que doença é que têm – tal e qual como se fazem testes para todas as outras doenças. Testa-se pessoas doentes, não se testa a esmo pessoas sãs.

      • Paulo Marques says:

        Se o objectivo for rapidamente voltar aos milhares de casos por dia, é uma boa táctica.

    • Fernando Moreira de Sá says:

      Outra coisa que não se entende: os preços dos testes PCR. Qual a razão para uma diferença tão grande?

      • Rui Naldinho says:

        Desconheço os motivos. Facto é que o Dubai quase não tem impostos. Também é verdade que não tem SNS.
        Não quero acreditar que haja Estados a aplicar impostos sobre um bem precioso, os testes PCR ou os reagentes, caso sejam importados, num período de crítico como este.
        Sei que há falsos positivos, mesmo em testes PCR. Mas depois de verificar o que se passa nalguns países, mesmo do Norte e Centro da Europa, confio mais naquilo que o nosso SNS está a fazer. Acresce que a responsabilidade de nos protegermos é nossa, mesmo contra a vontade dos outros.
        Falsos testes PCR comprados para se poder viajar para e por essa Europa é uma farturinha.

        • Luís Lavoura says:

          Não quero acreditar que haja Estados a aplicar impostos sobre um bem precioso, os testes PCR ou os reagentes

          Bem precioso por quê?

          Creio que muitas pessoas são testadas não por qualquer necessidade disso, mas por quererem, por qualquer motivo particular delas sem grande importância social.

          Uma coisa é um teste a uma doença feito em contexto hospitalar (é preciso saber de que doença um doente padece para o poder tratar), outra muito diferente é um teste feito só porque uma pessoa tem o capricho de descobrir se está infetada com um vírus em especial.

      • Paulo Marques says:

        É o mesmo que dos medicamentos: é o mercado.

  2. Luís Lavoura says:

    Com teste à saída e à entrada, das duas vezes, fornecido pelos respectivos países.

    E se os testes derem resultados contraditórios, como aconteceu com os 5 turistas alemães?

    É um disparate testar pessoas assintomáticas, porque, uma vez que os teses dão falsos positivos, se nos pomos a testar assintomáticos vamos obter uma data de gente que tem testes positivos mas não está infetada. E dessa forma gastamos imenso dinheiro para nada.

    É preciso aceitar, de uma vez por todas, que os testes devem servir para identificar a doença de pessoas que estão doentes (ou seja, com sintomas), e não para perseguir vírus que não fazem mal nenhum a quem os transporta. Ou seja, não se deve testar pessoas assintomáticas.

    • Fernando Moreira de Sá says:

      Mas se não for com os testes, mesmo tendo em conta a percentagem de falsos positivos (pergunto porque não sei: é uma percentagem alta?) como raio vão os governos abrir a circulação de pessoas pela Europa? Mais uma vez pergunto por não saber a resposta e não na óptica do discordo/concordo. O que não consigo é continuar a aceitar que se mate empresas e postos de trabalho a eito.

      • Elvimonte says:

        Lamentável que se continue a falar em “casos” (testes RT-PCR positivos) sem que se especifique o número de ciclos de amplificação (ct) a que é sujeito o material genético colhido. O Prof. Michael Mina e página do site do CEBM da Universidade de Oxford têm explicado desde há meses, bem assim como o artigo do NYT “Your Coronavirus Test Is Positive. Maybe It Shouldn’t Be”, a necessidade de se ter em consideração o número de ciclos de amplificação (ct). Nesse artigo, de 29/8/2020, já se escrevia que, relativamente a um ct de 40, valor usual nos EUA:

        «With a cutoff of 35 [cycles], about 43 percent of those tests would no longer qualify as positive. About 63 percent would no longer be judged positive if the cycles were limited to 30.»

        Como se isto não bastasse, também o artigo científico “Correlation Between 3790 Quantitative Polymerase Chain Reaction–Positives Samples and Positive Cell Cultures, Including 1941 Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 Isolates”, citado no ACÓRDÃO N.º 1783/20.7T8PDL.L1-3 do Tribunal da Relação de Lisboa, datado de 11 de Novembro de 2020, afirma claramente (na tradução constante nesse acordão):

        «“A um limiar de ciclos (ct) de 25, cerca de 70% das amostras mantém-se positivas na cultura celular (i.e. estavam infectadas); num ct de 30, 20% das amostras mantinham-se positivas; num ct de 35, 3% das amostras mantinham-se positivas; e num ct acima de 35, nenhuma amostra se mantinha positiva (infecciosa) na cultura celular (ver diagrama).

        Isto significa que se uma pessoa tem um teste PCR positivo a um limiar de ciclos de 35 ou superior (como acontece na maioria dos laboratórios do EUA e da Europa), as probabilidades de uma pessoa estar infectada é menor do que 3%. A probabilidade de a pessoa receber um falso positivo é de 97% ou superior”.»

      • Note-se que... says:

        Mais de um ano passado sobre a chegada do bicho mau à europa, parece que ainda não há dados científicos concretos sobre os assimptomáticos transmitirem ou não o bicho… Não parece um estudo muito complicado de fazer, dada a quantidade de positivos assimptomáticos que nos bombardeiam existirem diariamente, mas pelos vistos, e apesar da não evidência, presume-se que sim que os assimptomáticos são contagiosos. Quando, cientificamente, se for para presumir, o que faz sentido é presumir o contrário uma vez que todos os corona virus conhecidos até agora não eram transmissíveis por gente sem sintomas de doença (e portanto a extrapolar, seria no sentido contrário ao que se vem fazendo).

        O nosso querido hipocondríaco líder, por exemplo, testou positivo um dia e negativo no seguinte… Não tinha sintomas nem num dia nem no outro… Mas se fosse um euzinho a dar positivo ontem, hoje em vez de outro teste estava de quarentena forçada quer tivesse sintomas ou me sentisse são como um pêro…

      • Luís Lavoura says:

        como raio vão os governos abrir a circulação de pessoas pela Europa?

        Muito simplesmente: abrindo.

        Atualmente a maioria dos idosos estão vacinados, pelo que, mesmo que o vírus ande por aí a circular, e até a causar doenças, a probabilidade de doenças graves é pequena.

        No verão passado (2020) a Europa esteve toda aberta, e não veio daí grande mal. E as pessoas ainda não estavam vacinadas, note-se; agora já estão (e cada vez mais estarão).

        • Paulo Marques says:

          E a probabilidade de problemas com vacinas é menor, mas aí já há resistência. O cérebro humano é péssimo a lidar com probabilidades.
          Mas tudo isso ignora que é pequena porque a quantidade de infectados e de reinfecções é pequena, apesar de apenas se ter feito o mínimo para que assim fosse, e que as mutações insistem em contrariar. E que é pequena porque não se ultrapassou os recursos disponíveis, que, ao contrário do dinheiro que se escolhe não criar, não são infinitos.
          Vacinas, na Eurolândia, onde? Ainda por cima de pessoas em situações de maior transmissão? Afinal são os idosos que vão ao Sudoeste?

          • O bicho vai pegar... says:

            Não são os idosos que vão ao sudoeste, mas são eles que têm sido vacinados e são eles que tendem a ter a forma grave da infecção, aquela que requer cuidados médicos/intensivos.

            São esses que ocupam as camas e os ventiladores e os profissionais de saúde.

            Desde o início que se devia só ter assegurado que aqueles que pertencem aos grupos de risco (não só os idosos) tivessem formas de estarem protegidos do contágio, e não as sociedades inteiras.

            A esmagadora maioria dos casos positivos (não digo “infectados”, porque até ao covid, para se estar infectado/infeccioso era necessário apresentar sintomas e ser diagnosticado por um médico, não bastava um teste de fiabilidade comprovadamente duvidosa) são pessoas que recuperam em casa sem necessidade de intervenção médica…

            É como agora quererem vacinar as crianças e professores, independentemente do risco de desenvolverem a forma grave da infecção… É só estúpido, em termos clínicos/científicos… Crianças e professores que pertençam aos grupos de risco para desenvolver a forma grave sim, devem ser prioritários. Mas todos, indiscriminadamente, é mesmo só show-off político e demagogia pura…

            Já agora, deixo a questão (parecem várias, mas é uma só questão, implícita nas outras que são retóricas) no ar:

            Quantas pessoas foram este ano diagnosticadas com a gripe comum (influenza, que é também um coronavirus)? E como se chegou a esse diagnóstico? E quantas morreram este ano, dessa maleita? E tudo isso comparado com os anos anteriores? Os testes que se andam a fazer, detectam especificamente este coronavirus, ou podem acusar como positivo outros coronavirus?… E perante toda a falta deste tipo de informação vinda de fontes oficiais que é suposto terem-na, não é veiculado (abrindo a porta a estas especulações) porquê?…

  3. Luís Lavoura says:

    como fazem aqui

    Aqui, onde?

    Não sei onde se encontra o autor do post e, para perceber o enquadramento do post, conviria informar os leitores.

    • Fernando Moreira de Sá says:

      Toda a razão: Aqui nas Baleares. Vou já emendar.


  4. Fechar os bares e supermercados às 5 ou 6h? Acho maravilhoso. Toda a gente já sabe (cientificamente comprovado) que o bicho ataca é mais à noite. Ora bem.

  5. Paulo Marques says:

    Diz bem, os governos europeus, que tentaram um equilíbrio que não existe entre uma pandemia e a economia, digamos, liberalizada, à espera de soluções tecnológicas milagrosas, como de costume. Que cada um tenha feito o seu caminho é só um bónus.