Liberdade, liberdade, quem a tem chama-lhe sua…

Vêm aí as comemorações do 25 de Abril e, isso sim, é uma óptima razão para se falar de Liberdade. É uma bela razão para celebrar a Liberdade e a libertação.

O que é totalmente incompreensível para mim é este desfraldar sistemático do tema Liberdade na nossa actual sociedade, na qual, muito mais do que falta de Liberdade, existe falta de Igualdade.

Ele é partidos liberais a despontar, ele é uma forte ala intelectual a colocar o tema na agenda mediática, ele é uma pressão para alargar os limites da Liberdade e tolerância até englobarem aqueles que são, declaradamente, intolerantes, exclusivos, violentos.

Como se não houvesse outros valores a colocar na balança,

como se a liberdade de um não acabasse onde começa a liberdade do outro,

como se não houvesse necessidade de regras para podermos viver (bem) em comunidade,

como se não tivéssemos de obedecer ao semáforo vermelho ou não tivéssemos de colocar o cinto de segurança, obrigatoriamente,

como se não devesse haver medidas especiais para proteger os mais fracos e os mais pobres,

como se se pudesse fazer tábua rasa da situação, à partida distinta, dos filhos de famílias ricas e dos filhos de famílias pobres,

como se, actualmente, o maior entrave à Liberdade não fosse a pobreza, a precariedade,

como se as opções possíveis não fossem dezenas de vezes maiores para mim, que nasci em meio privilegiado, que estou bem na vida, do que são para quem vive no limiar da pobreza,

como se a pobreza não fosse, de facto, o grande tema dos nossos dias, e não tivesse sido agravada pela obsessão neoliberal que assumiu as rédeas nos países ocidentais.

Humberto Martins, investigador e professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, diz uma coisa tão banal como brilhante, nos dias que correm:

Sociologicamente, a Liberdade é uma impossibilidade. Ponto. Sem reservas, sem concessões. Ou seja, nós somos fruto de socializações que nos moldam visões do mundo, perspectivas, temos códigos, uma linguagem… e isto que eu acabei de dizer pode parecer uma banalidade, mas não é. (…) Pensar que podemos fazer tudo o que queremos é uma impossibilidade, até ontológica. Até por limitações físicas que temos, de percepção, de conhecimento. E isso é uma banalidade decisiva para começarmos a pensar a partir daqui.”

Será sempre necessário um equilíbrio de valores; onde ele não existe, chegaremos incontornavelmente ao totalitarismo; a Liberdade absoluta é o direito do mais forte dominar. A Igualdade absoluta destrói a Liberdade.

Na procura do equilíbrio, neste momento, a Igualdade precisa bem mais de estar no foco das nossas percepções e das políticas.

Comments

  1. Luís Lavoura says:

    Sem dúvida que a liberdade absoluta é impossível.
    Dito isto, a missão dos amantes da liberdade é, sempre que vêem qualquer limitação a ela, sempre que vêem qualquer forma de autoridade ou de opressão, questionar se e em que medida essa limitação à liberdade e essa autoridade são necessárias e proporcionais.

  2. JgMenos says:

    Até eu subscreveria este texto com um aditivo:
    A liberdade é indissociável da responsabilidade individual; o condicionamento social que a todos afecta acarreta a responsabilidade individual de agir sobre e nesse meio por objectivos que a cada um compete definir e lutar por eles.

    A cultura que os pastores de rebanho tentam inculcar, “dai-me o poder que eu criarei o meio social que te fará feliz” é o apelo ao fim da liberdade.

    • POIS! says:

      Pois é, seguramente.

      E um bom exemplo foi o Estado Novo salazaresco. Os pastores criaram uma felicidade tamanha que se tornou enjoativo.

      Foi preciso acabar com aquilo tudo antes que houvesse uma onda de falecimentos por excesso de deleite.

    • Paulo Marques says:

      Direito a poder tentar sobreviver é ser feliz? Muito me contas.

  3. Tal & Qual says:

    Este JgMenos está cada vez mais cretino.
    Aposto que tem ligação directa do intestino grosso ao cérbero.

  4. JgMenos says:

    O rebanho todo se inquieta se lhe falam de responsabilidade.

    • POIS! says:

      Pois nota-se!

      Que V. Exa, ultimamente, tem estado deveras inquieto.

      Experimente pedir ao seu venturoso pastor para parar de falar nisso. O que é demais, pelo Menos, cansa!

  5. Filipe Bastos says:

    De acordo com a Ana, como é habitual. Duas ressalvas.

    Além de igualdade falta equidade: a diferença entre todos terem o mesmo, ou todos terem o que precisam – uns mais, outros menos.

    Há pela net uma ilustração que… ilustra bem isto: três pessoas usam umas caixas para chegar aos frutos duma árvore. Como têm estaturas diferentes, precisam de caixas também diferentes. Pessoas mais altas podem nem precisar de uma caixa.

    O que temos é uma sociedade onde gigantes usam enormes caixas e colhem os frutos todos. A classe média, sempre à procura duma caixa um pouco maior, apanha umas cascas, e a larga maioria da população nem tem caixa nem apanha nada.

    2ª ressalva: o 25 Abril. Já vai sendo tempo de deixar de celebrar um golpe corporativo que se limitou a trocar uma ditadura pífia por uma partidocracia mafiosa. Este regime fede.

  6. JgMenos says:

    Por seu lado, os candidatos a pastores, do alto da sua mediocridade, logo se ofendem.

    • Paulo Marques says:

      Ora bem, o Menos veio logo cá despejar o catequismo.

    • POIS! says:

      Pois, pelos vistos…

      As conversas lá no pasto, quando há uns momentos mortos, são sobre “os de cima”. Não há rebanho que escape a uma certa má língua!

      Mas deixe lá: amanhã já chove e tudo deve ficar mais apetecível. Vai ver que as ofensas passam depressa e tudo vai ficar em harmonia. Até pode ser que o levem a passear para um campo de trevo.

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