Diane Keaton e a coligação IL-Chega

Woody Allen, numa homenagem a Diane Keaton, explicou ao público que a cidade natal da actriz é tão reaccionária que ajudar um cego a atravessar a rua é considerado socialismo. Parece uma piada, é uma piada, mas, como geralmente acontece com as piadas, não é absurdo. Entenda-se, aqui, “absurdo” como algo necessariamente inexistente. O curioso do absurdo é ser real. A realidade, aliás, é sempre mais improvável do que a ficção (e do que o humor, uma das suas manifestações).

Ontem, na Assembleia da República, António Costa destacou a importância dos valores democratas e cristãos, na esteira do papa Francisco, considerando que este não era socialista, o que provocou uma reacção de discordância de João Cotrim de Figueiredo e de André Ventura (este com mais entusiasmo, é verdade) – o papa, para estas duas luminárias, não anda longe do socialismo, o que, nestas bocas, não é um elogio. O amor anda no ar – Cotrim e Ventura já acabam as frases um do outro.

A direita, que, em Portugal, assume, frequentemente, uma essência católica, é, com a mesma frequência, pouco cristã, especialmente se seguir a cartilha liberal. Para esta gente, não há desfavorecidos, há preguiçosos e parasitas. Do mesmo modo, não há privilégios, apenas mérito. O ideal (também cristão) de que uma sociedade justa seja um sistema solidário e redistributivo causa-lhes alergia e tudo aquilo que lhes cause alergia, incluindo ácaros, é socialismo – no fundo, são como os conterrâneos de Diane Keaton: o cego que se desenrasque. E o papa que se deixe de cristianismos.

Comments

  1. Filipe Bastos says:

    Um post justo e bom do João Mendes. Até o Naldinho saiu das meias-tintas habituais e malhou um bocadinho no PS e no BE.

    Muito bem. Mas um dos culpados escapa demasiado ileso: nós. A sociedade apática, egoísta, gananciosa e consumista que, mais que tolerar, incentiva e premeia esta exploração.

    Não, este não é um daqueles posts direitalhas para distribuir a culpa por todos, assim diluindo a culpa dos grandes responsáveis: os mamões privados e os seus capachos pulhíticos. Claro que cabe ao Estado criar as normas e cercear os mamões.

    Mas onde fica a nossa responsabilidade? Somos crianças?

    No outro dia comprei mirtilos. Havia duas embalagens parecidas; uma custava mais que a outra. Como não ligo a marcas e tretas de marketing, escolhi a mais barata. Não chegava a dois euros.

    Enquanto pagava, bateu-me aquela vergonha na cara que só às vezes nos assalta: qual o custo real disto? Quem o pagou? Cada mirtilo, banana, pacote de leite, par de calças, computador ou telefone que compramos tem uma história de mama e exploração. Nós encolhemos os ombros; dá-nos jeito.

    Quantas pessoas – pessoas normais, nem produtores nem políticos – em Odemira e noutros lados sabem destas condições degradantes há décadas? Quantas querem saber?

    • Paulo Marques says:

      Os problemas da exploração não se resolvem por acções individuais. Bem não compro na Amazon, perco imenso tempo a separar o lixo, etc, e nada mudou.
      Era bom, mas o conceito de responsabilidade neoliberal é uma treta. Escolha as batalhas sem passar por necessidades, que ninguém o pode culpar por isso.

      • Filipe Bastos says:

        Não? Ufa. Estava com medo de ter de me esforçar, ou ter de abdicar de alguma coisa!

        Assim é giro ser de esquerda e ‘activista’. Basta opinar.

        • Paulo Marques says:

          Só estou a dizer que a teoria da responsabilidade individual levada a sério fazia com que tivesse que ser ermita para não contribuir para a miséria. Só comer era complicado, restavam para aí as cooperativas, e a roupa não era muito mais fácil, e passava-se o tempo nisto.

  2. Filipe Bastos says:

    Acima enganei-me, era para o post Bidonville do João Mendes.

    Neste post, a velha contradição da direita dita cristã; o velho embaraço do célebre “é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus”.

    Egoísmo e hipocrisia. A direita em duas palavras.

  3. Rui Naldinho says:

    “Quem tem razão são os liberais e os extremistas da direita”

    Senão vejamos:

    Qual foi o primeiro emprego de Jesus?
    Nenhum. Vá lá, vamos ser generosos. Foi pregador.
    Mas isso é algum emprego? Onde está o erudito?
    Deu aulas? Sabia Latim? Álgebra? Grego? Didática?
    Não e não.
    Dava umas preleções aos indigentes, mas não se lhe conhece nenhuma obra publicada. Nem mesmo escrita por um amigo, em seu nome, como fazem alguns.
    Teve algum best seller? Não.
    Foi agricultor? Também não.
    Foi operário, vulgo artesão? Não.
    Foi agiota ou usurário? Penso que não.
    Ao menos o Pai dele, que não era bem pai, mas fez de pai, foi carpinteiro. Vá lá tinha um emprego digno. Podia ter sido dono do IKEA, se tivesse nascido uns séculos mais tarde. Já Jesus toda a vida foi um nómada, tipo cigano, mas os ciganos ainda vendem umas roupas e sapatos, Jesus, com aquele cabelo comprido pouco tratado e perfumado, barba à revolucionário, de sandálias, quando não descalço, sempre metido com gente pouco recomendável, nunca fez nada transacionável.
    A única mulher que se conhece na sua vida, uma tal Madalena, até parece que era rameira. Nem uma namorada rica arranjou. O chamado bom partido.
    Eu acho que esta coisa do espírito cristão é uma grande tanga, cujo fim absoluto é a acabar com o mérito e o empreendedorismo de quem o tem.
    Basta de demagogia!

  4. Manuel says:

    Concordo, que asco, ajudar quem esbanja no que não pode, se endivida, e depois estende a mão a pedir mais. Viva o mercado, quem se safa, safa. Quem não, não.
    Tipo o BES no tempo do PPC?

  5. Paulo Marques says:

    Podia ser pior, ao menos não são cristãos protestantes.

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