Contra o Orçamento do Estado para 2022

Accorder un participe est une question délicate ; la difficulté, en outre, commence avec la terminologie. La nomenclature grammaticale est ancienne, parfois arbitraire (voir les innombrables « compléments circonstanciels » mal définis), souvent maladroite (le possessif ne « possède » pas toujours).
Bernard Cerquiglini

Can I smoke on television?
Kurt Cobain

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No dia 13 de Outubro de 2020 (faz amanhã um ano), avisei: «para o ano, infelizmente, haverá mais».

Efectivamente, houve.

Com efeito, além da Teoria dos Leilões, premiada no ano passado, na véspera da entrega do OE2021 na Assembleia da República, também as experiências naturais, premiadas ontem, no dia da entrega do OE2022, são importantes para percebermos este processo. Sabemos que a ideia de base do recurso a experiências naturais para a avaliação de determinadas medidas é a seguinte: o que teria acontecido se tais medidas não tivessem sido adoptadas?.

Eis uma amostra daquilo que não teria acontecido ao Relatório do Orçamento do Estado para 2022, se redigido com recurso às regras ortográficas de 1945/1973:

«Investigação Científica de Caráter Geral» (p. 270) e «INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA DE CARÁCTER GERAL» (p. 270): efectivamente, na mesma página;

«expetativas de uma sociedade mais informada» (p. 35), «não exista uma expectativa de retorno» (p. 73) e «fruto da melhoria das espectativas » (p. 10): as espectativas nada têm a ver com o AO90, mas são um exemplo de um dos temas mais fascinantes da línguística portuguesa actual e ficam aqui para o meu arquivo;

«sendo expetável que» (p. 2) e «é expectável que» (p. 94);

«à conetividade digital» (p. 183) e «a conectividade transfronteiriça» (p. 122);

«a nível setorial» (p. 161) e «a nível sectorial» (p. 107);

«inúmeros setores económicos» (p. 200) e «desenvolvimento de sectores económicos» (p.40);

«o setor dos transportes» (p. 308) e «descarbonização do sector dos transportes» (p. 41);

«Fatura Eletrónica receção, tratamento e arquivo» (p. 51) e «Fornecedores – Facturas em recepção e conferência» (p. 401);

«Sociedade de Transportes Coletivos do Porto, SA» (p. 423), «proteção contra novos episódios» (p. 24) e «028 – HABITAÇÃO E SERV. COLECTIVOS – ADMINISTRAÇÃO E REGULAMENTAÇÃO, 031 – HABITAÇÃO E SERV. COLECTIVOS – ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO, 033 – HABITAÇÃO E SERV. COLECTIVOS PROTECÇÃO DO MEIO AMBIENTE E CONSERVAÇÃO DA NATUREZA» (p. 192);

«formas de produção de eletricidade» (p.39) e «051 – INDUSTRIA E ENERGIA – COMBUSTÍVEIS, ELECTRICIDADE E OUTRAS FONTES DE ENERGIA» (p. 320);

«os programas e prestações de ação social» (p. 114) e «024 – SEGURANÇA E ACÇÃO SOCIAL – ADMINISTRAÇÃO E REGULAMENTAÇÃO, 027 – SEGURANÇA E ACÇÃO SOCIAL – ACÇÃO SOCIAL» (p. 192);

Apesar de não haver *fatos (registo o facto com apreço), os *contatos não podiam faltar à festa: «disponibilização de serviços de atendimento de centro de contato consular» (p. 170).

Ou seja, apesar do ambiente festivo

e ao contrário do que diz o ministro das Finanças, o Orçamento do Estado para 2022 não é bom nem para Portugal, nem para os portugueses.

Os meus agradecimentos a David Card, Joshua Angrist e Guido Imbens pela abordagem teórica quer da experiência natural deste ano, quer das experiências realizadas em:

2012
2013
2014
2015
2016
2017
2018
2019
2020
2021

Para o ano, como sabeis, havendo Acordo Ortográfico de 1990, haverá também mais do mesmo.

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Comments

  1. Professor B says:

    Não haver fatos é mais um golpe na indústria têxtil.
    Com estas temperaturas, só se fossem fatos de banho…

  2. POIS! says:

    Mais Poesya Achordal (da série “O imposto que nos é imposto”)

    “Uma baixa de impostos,
    Seria, de fato, notável.
    Esperam os contribuintes
    Pela descida expetável”.

  3. Professor B says:

    O Orçamento em modo Lúcia Vaz Pedro ou o primado da dupla grafia…

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  1. […] «PCP junta-se ao BE e vota contra proposta de OE tal como está». […]

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