Balanço do primeiro dia de greve: Números esmagadores

Não se realizaram 405 dos 419 Conselhos de Turma previstos para ontem, primeiro dia de greve dos professores, o que corresponde a uma percentagem de 96,6%. São números esmagadores.
E aqui não há lugar à habitual luta de números entre sindicatos e Ministério. Porque neste caso não interessa quantos fizeram greve. Até pode ter sido só um professor em cada Conselho de Turma. O que interessa é saber quantos é que não se realizaram. E sem receio de me repetir, volto a dizer que os números são esmagadores.
A lista completa está aqui. Terça-feira, dia em que começam os Conselhos de Turma do 6.º, 9.º e 12.º anos na maior parte dos agrupamentos, há mais.

Carlos Fiolhais faz o panegírico de Nuno Crato

A revista XXI, Ter Opinião constitui, sem dúvida, um projecto meritório: num país e num mundo em que, devido à facilidade de publicar, existe excesso de opinião, poder ler textos em que essa mesma opinião é, em princípio, informada, é sempre refrescante.

Carlos Fiolhais faz, no número deste ano (pp. 186-188), um balanço sobre o mandato de Nuno Crato no Ministério da Educação e Ciência (MEC), num texto intitulado “Uma revolução tranquila” e subintitulado “Impulso reformista e cortes na despesa”. É fácil conhecer o curriculum vitae de Carlos Fiolhais e, entre outros aspectos, descobrir o seu papel como divulgador do conhecimento científico ou saber que desempenha de uma função tão prestigiante como a de director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

Longe de mim querer negar a quem quer que seja o direito de exprimir as suas opiniões, mesmo quando versam tópicos que não são da respectiva área de especialidade, mas a verdade é que o texto de Carlos Fiolhais não é mais do que, perdoe-se-me a redundância, um panegírico acrítico das políticas de Nuno Crato. Limitar-me-ei a comentar algumas citações. [Read more…]

25 de Abril, balanço final das comemorações

-Vasco Lourenço disse esta frase:

a perda de confiança nos dirigentes políticos é bem mais perniciosa do que a dívida pública.

-Os cravos vermelhos estavam a um euro cada.

-A garrafa de água de litro e meio estava a dois euros.

Estado da Educação: um balanço

No Público de ontem, é possível ler-se um balanço sobre a Educação. Há contributos de gente de todos os partidos representados na Assembleia, para além de declarações de Ana Maria Bettencourt, Mário Nogueira e Paulo Guinote, entre outros.

Ainda não li tudo, mas deixo aqui alguns comentários àquilo que o deputado Bravo Nico, do PS, considera terem sido as grandes mudanças:

A maior requalificação de sempre no parque escolar, materializada através da construção de centenas de Centros Escolares (que substituíram a rede atomizada e inorgânica das antigas escolas primárias) e da completa requalificação do universo de Escolas Secundárias.

O outro lado da questão é o acentuar da desertificação do interior, para além da escuridão que são os negócios da Parque Escolar.

Também de relevar o significativo investimento na infra-estrutura tecnológica nas escolas e nos equipamentos de aprendizagem (caso do Magalhães);

Temos, aqui, o habitual exercício de provincianismo que confunde manobras de relações públicas (distribuição acéfala de tecnologia) com melhorias educativas. Qual será o destino dos Magalhães?

A aposta no ensino profissional, ao nível do ensino secundário, aproximando Portugal dos índices da OCDE;

Seria importante analisar seriamente de que modo o ensino profissional se transforma, por vezes, numa manobra de criar sucesso artificialmente.

O alargamento da escolaridade obrigatória para os 12 anos e a universalização do pré-escolar para as crianças de 5 anos;

O alargamento da escolaridade obrigatória constitui mais uma manobra de propaganda. Será posta no terreno à custa de muita cosmética estatística. [Read more…]

A formidável derrota de Maria de Lurdes Rodrigues: Balanço de um mandato

No final de um longo mandato de 4 anos, é hora de fazer o balanço de Maria de Lurdes Rodrigues como Ministra da Educação.
Irei procurar caracterizar aquela que foi, na minha opinião, uma formidável derrota da mais duradoura titular da pasta da Educação em Portugal no pós-25 de Abril. Maria de Lurdes Rodrigues deixa uma classe de professores unida como nunca esteve e admiravelmente preparada para lutar pelos seus direitos; e deixa milhares de alunos muitíssimo mal preparados para o futuro que é, afinal, o futuro de Portugal. Mais mal preparados do que alguma vez estiveram, apesar das estatísticas – a única preocupação da Ministra ao longo de quatro anos – dizerem exactamente o contrário.
Uma Ministra que tomou posse em 12 de Março de 2005. Uma antiga professora primária, que fez o curso do Magistério Primário como forma de acesso à função pública. Omitindo estes factos, o «curriculum» oficial revelava-nos uma socióloga formada no ISCTE e cuja experiência profissional nos vinte anos anteriores se resumia a muita teoria – projectos de investigação, representações em grupos do Eurostat e da OCDE, liderança do Observatório das Ciências. Em termos de prática, leccionou no ISCTE (uma professora sofrível) e pouco mais. [Read more…]

Madeira, o balanço possível

Depois do dilúvio a acalmia parece ter regressado à Madeira. O tempo, agora, é de localizar desaparecidos, socorrer dasalojados, cuidar dos feridos e repôr comunicações com povoados e habitações que permanecem isolados. É tempo também de desobstruir vias, limpar acessos, e voltar a alguma normalidade quotidiana. Os recenseamentos já começaram e estão em actualização constante: 40 mortos, 70 feridos, 248 desalojados. Outros balanços se farão posteriormente: políticos, técnicos, ecológicos.

Alberto João veio já declarar, contra toda a evidência, que as obras dos últimos anos minimizaram os prejuízos. O continente, durante os próximos dias, será tratado como um amigo que até já disponibilizou fundos e meios económicos. O julgamento público, na ilha, não sei se se fará. O mau tempo é o único responsável, eis a mensagem que o governo regional se esforçará por passar.

Depois, o regabofe continuará: construção desenfreada, impermeabilização indiscriminada de solos, ocupação de zona de cheias, encanamento de ribeiras, “tunelizações”, desflorestação, minimização da laurissilva.

Consequências a tirar? Confiar na boa disposição  S. Pedro e esperar que um dia alguém corrija os erros que entretanto se vão acumulando. É pouco, muito pouco.

Balanço

Dos acontecimentos de 2009, destaco, sem hesitações, a primeira íris que nasceu na minha varanda, e que deu origem ao texto com que iniciei a minha feliz vida no Aventar. A sua existência foi curta mas inspiradora, à sua pequena escala.

Recupero igualmente um salgueiro que encontrei na margem de um rio, lá nos idos de Agosto, e a sua particular melodia nessa tarde que anunciava o fim do Verão e o princípio de uma pequena crise. [Read more…]

A formidável derrota de Maria de Lurdes Rodrigues (1.º semestre de 2007)

continuação daqui

 

No discurso de Ano Novo, Cavaco exige «resultados claros» para a área da Educação em 2007, sem que se perceba muito bem, como é costume, o que quer ele dizer com isso. Seja como for, Maria de Lurdes Rodrigues não quis comentar.

Ou melhor, percebeu-se muito bem. Porque alguns dias depois, o Presidente Cavaco promulgava o novo Estatuto da Carreira Docente e a inenarrável divisão entre professor e professor titular.

Começa a falar-se na monodocência no 2.º Ciclo, ou seja, um só professor (no máximo dois), para leccionar o 5.º e o 6.º ano. Isto porque os meninos, coitadinhos, ficam traumatizados no fim da primária. Ideia de Mono, diz Paulo Guinote.

Ideia melhor só a do inquérito que por estes dias começou a circular em algumas das escolas portuguesas. As perguntas eram algo de surreal: «O teu pai insulta a tua mãe?»; «O teu pai bate à tua mãe?»; ou «o teu pai obriga a tua mãe a fazer vida sexual contra a vontade dela?». Habituada aos inquéritos como método sociológico, a Ministra mostrava aqui o máximo respeito pelos alunos e sua vida privada. Sobre isto, não consta que o Pai da Nação, Albino Almeida, tenha dito o que quer que seja.

 

 

 

Nos finais de Janeiro, Valter Lemos diz que seria uma estupidez acabar com a TLEBS a meio do ano lectivo. Na semana seguinte, Jorge Pedreira anuncia o fim da TLEBS. Para apaziguar os ânimos, que já não andam nada sossegados, o Ministério da Educação institui um Prémio anual, no valor de 25 mil euros, para o Melhor Professor. O «Lurditas de Oiro», como passará a ser depreciativamente conhecido graças à inspiração de Antero.

Um prémio profundamente ridículo. Porque, como é óbvio, os professores devem desempenhar bem a sua função. Porque sim e não por causa de um qualquer prémio.

Em Fevereiro, Maria de Lurdes justifica o fim das Provas Globais, que eram «localmente viciadas». Viciadas pelos professores, como não podia deixar de ser. Como não pôde deixar de ser ao longo de quatro anos.

Entretanto, o Ministério apresenta a sua proposta para o concurso de acesso a professor titular. As primeiras rondas são marcadas pela discórdia e os Sindicatos ameaçam recorrer aos Tribunais. 

Todos os dias, são agredidos dois professores, no ano de 2006 foram 400, mas isso não parece preocupar a Ministra.  Enquanto isso, Valter Lemos gritava e atirava os papéis ao ar na Comissão de Educação da Assembleia da República. O mesmo Valter Lemos que considera que duas agressões por dia a professores «se dilui rapidamente» num Universo tão grande.

 

 Ao mesmo tempo que Salazar vencia o concurso dos «Grandes Portugueses» da RTP, o que diz bem da História que se dá nas escolas portuguesas, o Ministério da Educação tecia loas ao programa de generalização do ensino de Inglês nas escolas básicas. Só faltou referir que tal «sucesso» se deve à exploração laboral de milhares de professores por esse país fora, a maior parte deles a trabalhar com recibo verde e a 6/7 euros à hora (ou seja, é feriado, não recebem).

O mês terminava com Maria de Lurdes Rodrigues a assobiar os alunos no final de um corta-mato escolar em Santa Maria da Feira. Porque, como ela disse, «eu grito mais alto».

 

  

E eis que rebenta a polémica da licenciatura manhosa do primeiro-ministro, obtida num Domingo, via fax, na defunta Universidade Independente. Mariano Gago gagueja quando lhe falam do assunto, o «Público» noticia que antes da «licenciatura» na Independente já o título de Engenheiro estava na sua biografia oficial na Assembleia da República, Sócrates desfia o novelo do costume na «clarificadora» entrevista à RTP.

Entretanto, o Ministério da Educação toma medidas contra o abandono escolar. O fim das reprovações por excesso de faltas é a medida mais eficaz, porque se nunca reprovam, pode sempre dizer-se que continuam na escola.

Ao mesmo tempo que quase não há candidatos para o Prémio de Professor do Ano, o Lurditas d’Oiro, e que se debate os «rankings», ou falta deles, no ensino superior, chegamos ao 25 de Abril. E como a Revolução se fez para que houvesse igualdade entre todos, ficamos a saber que, para os dirigentes superiores da Função Pública, não há quotas para a avaliação do desempenho.

Continua o encerramento de escolas e a colocação de alunos noutros estabelecimentos com tantas condilções como aqueles que são encerrados. Sempre, sempre, sempre num interior cada vez mais esquecido e desertificado por causa de medidas como estas.

De um Governo que nem o direito à Greve respeita, vem a notícia de que « o Ministério das Finanças estipula que todos os serviços pertencentes à administração pública façam uma contabilização, obrigatória e imediata, dos trabalhadores que adiram ou não à greve». Ou como todas as estratégias são utilizadas para que os funcionários públicos tenham medo de exercer o seu inalienável direito – o direito à greve.

Estamos a chegar ao fim de Maio quando a comunicação social é atingida por um novo caso em que as liberdades democráticas estão ameaçadas – o caso Charrua, professor suspenso das suas funções na DREN por ter dito numa conversa privada, que alguém ouviu, que o Primeiro-Ministro é um filho da puta.

O caso Fernando Charrua representa o que de pior teve o regime socratino que agora finda. O terror, a censura, o culto do chefe. Numa conversa privada, Fernando Charrua terá dito que José Sócrates era um filho da puta. Tal qual nos tempos da PIDE, um inominável bufo ouviu o desabafo e foi contar às chefias. O professor foi suspenso de imediato e a sua comissão de serviços terminada. Iniciou-se então um processo disciplinar.

Num país decente, que não num lamaçal como Portugal, a Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, teria sido demitida de imediato, bem como a directora-geral da DREN, Margarida Moreira, e o respectivo bufo. Num pa
s
decente, o Presidente da República concluiria que estava em causa o normal funcionamento das instituições.

Ao invés, o bufo foi promovido, a directora-geral foi reconduzida e a Ministra assobiou para o lado como se nada fosse – o mesmo fizeram o primeiro-ministro e o Presidente da República.

Alcochete, esse deserto da Margem Sul, «Jamais!», proclama o ministro Mário Lino. Até porque se houvesse um atentado na ponte, a ligação a Lisboa seria cortada, junta Almeida Santos. Tudo numa altura em que o ano lectivo está a terminar e os funcionários públicos, professores incluídos, exercem de novo o seu direito à greve. Mais do que a adesão, cujo verdadeiro alcance esbarrou na habitual guerra dos números, ficava o ensaio geral para um empolgante ano lectivo de 2007/2008, fértil em lutas e em manifestações.

São finalmente publicitados os lugares existentes para professores titulares. Começa a inenarrável, original e efémera divisão da carreira em professor e professor titular.

O primeiro semestre termina com os Exames Nacionais de acesso ao 12.º ano. Foi especialmente escandaloso o exame de Matemática, como Nuno Crato bem fez notar. Havia até perguntas do 1.º Ciclo. Assim, realmente, é fácil brilhar nas estatísticas.