Carlos Fiolhais faz o panegírico de Nuno Crato

A revista XXI, Ter Opinião constitui, sem dúvida, um projecto meritório: num país e num mundo em que, devido à facilidade de publicar, existe excesso de opinião, poder ler textos em que essa mesma opinião é, em princípio, informada, é sempre refrescante.

Carlos Fiolhais faz, no número deste ano (pp. 186-188), um balanço sobre o mandato de Nuno Crato no Ministério da Educação e Ciência (MEC), num texto intitulado “Uma revolução tranquila” e subintitulado “Impulso reformista e cortes na despesa”. É fácil conhecer o curriculum vitae de Carlos Fiolhais e, entre outros aspectos, descobrir o seu papel como divulgador do conhecimento científico ou saber que desempenha de uma função tão prestigiante como a de director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

Longe de mim querer negar a quem quer que seja o direito de exprimir as suas opiniões, mesmo quando versam tópicos que não são da respectiva área de especialidade, mas a verdade é que o texto de Carlos Fiolhais não é mais do que, perdoe-se-me a redundância, um panegírico acrítico das políticas de Nuno Crato. Limitar-me-ei a comentar algumas citações.

 (…) a autonomia das escolas, apesar de nominalmente acrescida, é ainda bastante limitada. O ministério fortaleceu o papel dos directores das escolas e apregoou a liberdade de escolha pelas famílias, mas não conseguiu ainda, por exemplo, aumentar o papel das escolas privadas. Portugal está ainda longe de modelos de outros países com sistemas educativos descentralizados.

Em primeiro lugar, é verdade que a autonomia das escolas é reduzidíssima (basta ver que o crédito de horas disponíveis diminuiu brutalmente, por imposição de um ministério cuja única preocupação consiste em diminuir a despesa) e que houve um fortalecimento dos poderes dos directores, sendo que tudo isso se faz à custa da diminuição dos poderes de intervenção dos professores, mesmo em sede pedagógica. Já se sabe que haverá muitos a defender que é assim que se combate o corporativismo, esquecendo-se que, na realidade, estão a coarctar os contributos dos professores, que, por estranho que pareça, são tão especialistas em Educação como os médicos o são na Saúde.

Não se percebe o que quer dizer Carlos Fiolhais com a necessidade de “aumentar o papel das escolas privadas”, mas parece-me, no mínimo, estranho que esse papel caiba ao MEC. De qualquer modo, num país que continua a permitir a existência de escolas com contratos de associação em concorrência com escolas públicas, o papel das escolas privadas parece estar bastante aumentado.

A “liberdade de escolha” é uma expressão sobre a qual pouco se pensa, na realidade, e, muitas vezes, é uma expressão tão vazia como muitas das frases do eduquês que Crato e Fiolhais têm atacado. Para muitos opinantes que se querem modernaços, a “liberdade de escolha” é uma espécie de chave que fecharia a Caixa de Pandora da Educação. A propósito desse tema, já escrevi aqui. Para além disso, Carlos Fiolhais poderia ter consultado estes textos do Paulo Guinote, por acaso membro do Conselho Editorial da revista e especialista reconhecido em Educação.

 Era também conhecida a vontade do ministro de promover a exigência nas escolas.

Para ilustrar a vontade de Nuno Crato em cumprir este desejo, Carlos Fiolhais descreve o aumento do número de exames nacionais, como se isso, só por si, constituísse garantia de “exigência nas escolas”, quando a maioria das medidas do MEC serve para dificultar. A criação de mega-agrupamentos que aumenta a distância entre as direcções e a comunidade educativa, o aumento do número de alunos por turma que torna mais difícil o acompanhamento de proximidade ou a diminuição do número de horas para apoios a alunos com dificuldades são elementos que tornam a imposição de exames em mera cosmética. Com todas estas dificuldades, e outras relacionadas com a avaliação docente, os professores poderão passar a preparar para o exame, prescindindo de ensinar, quando, noutras condições, essas duas actividades deveriam ser perfeitamente complementares.

Começaram a ser definidas metas curriculares, que, sem mudar o essencial dos currículos, procuraram especificar de modo simples e claro o que é exigido aos alunos em cada ano.

Se estivesse informado, Carlos Fiolhais descobriria que existem conflitos entre as metas e os programas, o que é especialmente grave nos anos em que os alunos serão sujeitos a exames (essa magna manifestação da exigência cratiana) e é ainda mais grave na opção que os professores deverão fazer na escolha de determinados conteúdos ou, no caso de Português, por exemplo, na indicação de obras de leitura integral.

 (…) para enfrentar o terrível problema do abandono escolar, é necessário fazer um reforço de vias profissionalizantes mais cedo no percurso escolar, isto é, não apenas no secundário, mas logo no básico, com a salvaguarda óbvia da possibilidade de mudança atempada de via. Sem estas opções académicas, dificilmente se resolverá o problema dos alunos sem aproveitamento

A opção do ensino profissionalizante como meio de resolver os problemas de aproveitamento é um reflexo condicionado e não propriamente uma reflexão. Então o abandono escolar resolve-se criando vias profissionalizantes? Se o abandono escolar for consequência de problemas sociais, familiares ou psicológicos tantas vezes interligados, o que resolverá o ensino profissionalizante? A integração num ensino profissionalizante resolve os problemas de aproveitamento? Não estaremos diante de mais um sinal de que vivemos numa sociedade que desiste de educar a maior parte dos seus jovens?

A revista XXI, Ter Opinião é anual. Ficarei a aguardar que Carlos Fiolhais aproveite o ano que falta para se informar verdadeiramente sobre o ensino básico e secundário. O que se passa na Educação, em Portugal, não é uma revolução, é destruição. E não é tranquila, é podre: os professores e os directores das escolas têm culpas no cartório, mas haverá, infelizmente, muito tempo para escrever sobre isso.

Comments

  1. Jorge says:

    Já que estamos a comentar a opinião de um cientista deixo aqui a citação de outro cientista, este por sinal alemão , mas pelo que parece nao muito adepto do sistema dual de Crato, nem do sistema de adestramento que Crato pretende impor.

    “Educação para a Independência do Pensamento
    Não basta preparar o homem para o domínio de uma especialidade qualquer. Passará a ser então uma espécie de máquina utilizável, mas não uma personalidade perfeita. O que importa é que venha a ter um sentido atento para o que for digno de esforço, e que for belo e moralmente bom. De contrário, virá a parecer-se mais com um cão amestrado do que com um ser harmonicamente desenvolvido, pois só tem os conhecimentos da sua especialização. Deve aprender a compreender os motivos dos homens, as suas ilusões e as suas paixões, para tomar uma atitude perante cada um dos seus semelhantes e perante a comunidade.
    Estes valores são transmitidos à jovem geração pelo contacto pessoal com os professores, e não — ou pelos menos não primordialmente — pelos livros de ensino. São os professores, antes de mais nada, que desenvolvem e conservam a cultura. São ainda esses valores que tenho em mente, quando recomendo, como algo de importante, as «humanidades» e não o mero tecnicismo árido, no campo histórico e filosófico.
    A importância dada ao sistema de competição e a especialização precoce, sob pretexto da utilidade imediata, é o que mata o espírito de que depende toda a actividade cultural e até mesmo o próprio florescimento das ciências de especialização.
    Faz também parte da essência de uma boa educação desenvolver nos jovens o pensamento crítico independente, desenvolvimento esse que é prejudicado, em grande parte, pela sobrecarga de disciplinas em que o indivíduo, segundo o sistema adoptado, tem de obter nota de passagem. A sobrecarga conduz necessariamente à superficialidade e à falta de verdadeira cultura. O ensino deve ser de modo a fazer sentir aos alunos que aquilo que se lhes ensina é uma dádiva preciosa e não uma amarga obrigação. ”

    Albert Einstein, in ‘Como Vejo o Mundo’
    Tema(s): Educação Ler outros pensamentos de Albert Einstein

    Como se pode constatar há cientistas e cientistas.

  2. carol says:

    Muito mau! É como o Guilherme Valente, editor da Gradiva, também defende o senhor (C)rato com unhas e dentes. Elitistas!

  3. Alcides Herdeiro says:

    Concrdo comcomentários ,sobretudo à ideia de C.Fpretender propor a especialização logo no secundário em prejuizo das humanidades .
    Pareceu-me,felizmente,aquando da sua recente intervenção no “Manifesto de29/01/2014,ter mudado essa ideia

Trackbacks


  1. […] o Ensino Básico e Secundário: veja-se o caso de Carlos Fiolhais que chegou a escrever um panegírico ignorante acerca do ministro, para se queixar agora que os cortes chegaram à Investigação e à […]

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.