AntiDeuteronómio I

  (Javier-de Juan-Creix)

A cidade está deserta por dentro e por fora de nós começa a não haver vivalma neste lusco-fusco brumoso neste irracional azul de um céu de chumbo nesta descrença de manhãs de sonho em bicéfalas e bárbaras bandeiras de um mundo informe e medonho [Read more…]

Uma leitura essencial:

Um excelente texto, ESTE, para se perceber quem são os Tuaregues.

O meu primeiro quadro de 2010

                          (adão cruz)

(adão cruz)

Este é o meu primeiro quadro de 2010. Já não pintava há un meses, depois da minha última exposição. Dedico-o ao amigo Luis Moreira, que não indo muito à minha “liturgia” de pensamento, é, tanto quanto me parece, um ser humano de excelência.
Quando escrevemos um poema ou pintamos um quadro, fazêmo-lo, convencidos de que vai nascer uma obra-prima. Não nasce, nunca nasce a obra-prima que sonhamos. Da próxima vez, sim, chegaremos à obra-prima. Mas a próxima vez nunca é a vez da obra-prima. Há-de ser outra, provavelmente aquela que fica para lá do pensamento.
O quadro mais lindo da minha vida ainda não nasceu. O poema mais lindo da minha vida ainda não nasceu. Eles estão dentro de mim mas não têm asas nem olhos nem sentimento.
Vagueiam no deserto entre as dunas e o sol como um grão de areia ao sabor do vento.
Ninguém os conhece, nem eu, amputados e ateus, assilabados na amargura, escondidos na sombra da ternura que passa ao lado, sem olhos, nem asas nem sentimento.
Que os leve o vento para além do deserto. Que me reste a saudade de por aqui terem passado tão perto.

Poemas do ser e não ser

                 (adao cruz)

(adao cruz)

Daqui te escrevo

Onde o mar não existe

Onde as mãos do silêncio

Não tardam a entrar

No silêncio da tarde.

Daqui te escrevo

Nesta tarde de silêncio

Onde a memória da tarde

Arde em silêncio

No mar das tuas mãos.

Daqui te escrevo

Onde o deserto é imenso

E a sede do teu mar

Cresce em silêncio

No silêncio da tarde

Onde não tarda o silêncio

Do mar das tuas mãos.

A minha cidade é o mar

E o deserto de silêncio

Do mar das tuas mãos.

Não a cidade da fome

Dos caminhos errantes

E das estrelas inseguras

Que ardem em silêncio

Sem fome das tuas mãos.

Daqui te escrevo

Onde o mar não existe

E o deserto é imenso

No silêncio da tarde.

Daqui te escrevo

Desta tarde sem fim

Onde arde a cidade sem mar

E o deserto sem cidade

Onde arde em silêncio

Na tarde das tuas mãos

Todo o silencio da tarde.

Poemas do ser e não ser

A saudade vai de barco

leva na frente a luz vermelha

que fende as águas verdes.

Atrás uma palmeira

menina do deserto

aprisionada no sonho.

Balançam copos de vinho

à flor do mar incerto

e a música desce ao fundo do mar.

O peito estremece

e entrelaça os remos

nas mãos da água

que já não abraça

o ventre do casco verde.

                (adao cruz)

(adao cruz)