7_5373 mundos

Sagres (Regressa)

CAPÍTULO 66
César

Um Anjo aproximou-se de mim e disse:
-Oh, desgraçado e insensato jovem! Oh, terrível condição a tua! Atenta na masmorra ardente que estás a preparar para ti, por toda a eternidade, e onde irá levar o caminho que prossegues.
Ao que respondi:
-Talvez tu queiras mostrar-me o que a eternidade me reserva, e juntos contemplaremos o meu destino para vermos qual será o mais desejável, o meu ou o teu.
William Blake, A União do Céu e do Inferno

-A tatuagem, para o homem arcaico, era um gesto ritual que assentava num princípio de sacralidade do corpo enquanto extensão e fala, Verbo, do Universo e dos Deuses. O corpo-templo era marcado por sinais iniciáticos, emblemas que o inscreviam num Cosmos significativo, cuja Ordem advinha de um significado, de uma pluralidade de significados coerentes.

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Árvores dendrites

 

Árvores dendrites

A árvore dendrite encosta ao céu as mãos
enquanto come luz
e fala distraidamente com os pássaros.

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O verdadeiro inferno!

Quando um Padrão Estrebucha

PadrãoQuando um Padrão ou um Salgado estrebucham de desconforto ou dor de hastes, o Céu faz uma festa de arromba. Se Salgado e o seu moço de recados mediáticos andam infelizes e angustiados, fazem queixinhas, por guerras lá deles, sucessão e tal, organiza-se uma santa orgia celestial, mandam-se vir uns vapores e umas dançarinhas para se curtir à larga, e a malta transige nuns bolinhos de bacalhau e num sexo platónico básico.

Na Terra, quem é que quer saber se aos salgados, aos padrões e aos quejandos lhes dói o cu?! Que se fodam! No Céu é diferente. Os Anjos apanham uma valente bebedeira, tropeçam nas asas e despejam vómito pela sumptuosa escadaria da eternidade. Deus perdoa. Ri, cofia as barbas e dá finalmente uma relaxada, fuma um cubano e dá ordens para se colocar música sensual, gajas a dançar seminuas, pois celebra-se as dores de corno de um banqueiro, atiram-se foguetes pelos seu conflitos de poder, as suas guerras de merda. Tudo aquilo que a Banca sacana faz de mal ao cidadão indefeso, as penhoras injustas e filhas da puta ou os perdões de dívidas só a nababos ou os privilégios accionistas só para nababos-paxá como Machete, tudo o que a Banca sem escrúpulos congemina contra o cidadão inerme, genu manco tomado da manada para ser comido de mil e uma maneiras, faz com que no Céu toda aquela anjada e malta defuntada ande de monco caído, coitados.

Mas quando a mesa vira e os referidos Animais do Dinheiro andam às turras no seu infinito vazio, as melhores festas são dadas no Céu, onde estão todos mortos para isto e vivos para o que interessa. Alguém me apresente o angolano Álvaro Sobrinho e que venha a meus braços. Quem enerva o Salgado e o Padrão com tanta eficácia só pode ser meu amigo. E eu faço questão de lhe dar um beijo. É dia de luto no Inferno.

AntiDeuteronómio I

  (Javier-de Juan-Creix)

A cidade está deserta por dentro e por fora de nós começa a não haver vivalma neste lusco-fusco brumoso neste irracional azul de um céu de chumbo nesta descrença de manhãs de sonho em bicéfalas e bárbaras bandeiras de um mundo informe e medonho [Read more…]

Aqui me detenho

(adão cruz)

Aqui me detenho nesta pedra que sentámos no dia das canções antigas lembrando a canção que não cantámos

aqui me sento frente ao mar de coração vestido com as folhas secas do desejo

olhos dentro dos olhos que não tenho na profundidade do céu que nunca vimos.

O mar não fala do passado em seu imenso painel de séculos e o sol diz-me adeus com sua mão de violeta na paisagem que não vimos.

Mesmo assim quero demorar-me na partida acariciando o tempo no sensual enrolar das ondas que explodem orgasmos eternos nas rochas nuas

quero sentir a meus pés esta manhã de lábios doces sorrindo com olhos de donzela

quero enxugar neste sol do meio-dia as lágrimas das palavras não ditas no silêncio dos caminhos.

Deste-me o mar que nunca tive e pensei outrora vê-lo aqui mas não posso ter o que não perdi nem mudar o crepúsculo pela aurora.

In limine

(desenho de Manel Cruz)

 Pelos caminhos de prantos e sorrisos, dentro de um tempo farto de horas sem minutos, a vida vai colhendo flores que murcham, por não serem simples flores ou flores simples, sem exigências de estufa ou jardim, flores de terra húmida, céu por cima e sol de permeio.

 Em tudo o que me é vida interfere a vergonha de ser adulto. Descortino as janelas que me disseram haver dentro dos homens e só vejo muralhas. Nada de crianças. Os homens comeram as crianças, os homens comeram-se crianças, os homens pariram-se adultos.

 Os pongídeos chegaram a homens. Quinze milhões de anos para o homem ser bicho. Bicho erecto. Rastejo de púrpura.

 Eu nasci na erva e dormi no feno, e acordei com a voz dos melros e rouxinóis e saltitei com os pardais. Vesti-me de sol e despi-me de luar. Estreei o mundo no abraço das árvores e no beijo dos rios. Meus olhos dormidos casavam a noite e o dia no mesmo silêncio de sonho-menino. A vida viveu em mim crescendo todos os tamanhos e medindo todos os céus. Também eu fui criança e matei em mim a criança que procuro, ao pensar que eram de amor as mãos que a mataram.

 Passei a vida a correr tropeçando nas sombras. Arrumei ao canto da luz mil horas vazias, sangradas a curricular futuros para ser gente na praça dos homens. Pisei os passos pequeninos nos avessos da verdade e palmilhei léguas vagarosas a tossir poeira.

 Vestido de ausências fui renascendo de amor pela vida fora, nos infinitos da fantasia que outros foram lentamente matando com fruído prazer.

Pensamentos XXIX e XXX

XXIX

O pior é morreres com skis nos pés.

Não há inverno no inferno.


XXX

Ergue os olhos para o céu.

Se o sol bater neles, baixa-os.


Conheça o primeiro Caderno de Pensamentos do Sr. Anacleto da Cruz.


Poemas do ser e não ser

(adão cruz)

Já poeta não sou

já não sou quem era

não sinto as noites de prata

nem mexe comigo a ventania

que varre as faldas da serra

não me doem as videiras

espetadas no céu

nem os castelos de fantasia

caídos por terra.

Cada erva

cada semente

é resto de uma canção

que já não sei cantar.

Fugiu do peito o coração

foi-se embora o luar

e o rio que eu era

nem sequer chegou ao mar.

Sou pirilampo das sombras

voando pelos regatos secos

não sei se vou longe se vou perto

se ao cimo se ao fundo

não sei se giro por dentro

ou por fora do mundo.

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