Enquanto os pássaros visitarem as cidades

"A Balada do Mar Salgado" - Hugo Pratt

“A Balada do Mar Salgado” – Hugo Pratt

Deu a certa imprensa, aqui há dias, um arrebato de histeria contra as gaivotas. Chamaram-lhes ladras, acusaram-nas de roubar peixe e pão aos distraídos, de assustar os turistas nas esplanadas, de acordar a vizinhança quando gritam de fome nos telhados. Foram ouvidos os especialistas, que explicaram tratar-se de uma “espécie oportunista”, por adaptar-se às pessoas e aos ambientes urbanos.

Devem ter sido os primeiros rebates da época tola, que este ano parecia mais arredada da imprensa, não fosse o Verão estar a ser quente em todas as acepções da palavra. Mas é certo que todos os anos se recuperam notícias alarmistas sobre a “praga” de gaivotas, os perigos das bactérias que as bichas carregam, e até se lamenta, muito hipocritamente, que elas ataquem as pombas, as mesmas pombas que são também uma praga a exterminar em nome da saúde pública.

Levo anos a ter as gaivotas como inquilinas no telhado, a sofrer os seus ataques de cada vez que há crias nos ninhos e eu tenho o atrevimento de querer sair para a varanda, a descobrir cagadelas diárias nos vidros das janelas. [Read more…]

O grande deambulador

Diz-me o dicionário que não existe a palavra “deambulador”. Nem sequer “deambulante”, embora admita o galicismo tão baudelairiano “flanador”.

Começo por esta constatação para que não me cobrem o uso, como verão frequente, de uma palavra que o dicionário não consagra. Proponho-vos que, entre o título de lá de cima e o ponto que há-de pôr fim a estas linhas, exista, só para nós, a palavra “deambulador” e exista até, enquanto conceito também muito nosso, a figura do «grande deambulador».

O deambulador é, coisa óbvia, aquele que deambula. Quer dizer, aquele que caminha pelas ruas sem rumo certo, porque o seu percurso não é apenas pelo empedrado, pelo asfalto, pelo passeio (deambular é tão citadino, não é?), mas é, sobretudo, um caminho interior, porque, em verdade vos digo, não há rua que trilhemos que não corresponda a um caminho feito também por dentro. [Read more…]

Mulher e estendal

Como outros passeiam os cães de companhia, ela traz à rua o seu estendal. É preciso que vos diga que não é capricho nem bizarria, não há nela nenhuma excentricidade. É que há casas que são tão pequenas que nem o sol lá consegue entrar. E secar a roupa nesta cidade é um problema de que não se fala. Há casas baixinhas, sombrias, infiltrações de água, paredes corroídas, azulejos que se desprendem das paredes, senhorios que vivem longe e não assistem à lenta agonia das casas que arrendaram, há miséria, miséria, tantas formas de contar a miséria nesta cidade. Até a água a conta, no seu percurso sinuoso pelas paredes de casa, a tinta a estalar em crateras amareladas, a mancha negra a alastrar no tecto, “qualquer dia caem-nos os vizinhos em cima”.

Num cantinho da sala ficava o estendal e era preciso afastá-lo para passar. E a roupa não secava. Lavava-se ao sábado e os dias passavam, a roupa ganhava cheiro a humidade, a janelas fechadas, à comida que se cozinhou, e não havia forma de ficar seca. E a roupa húmida no corpo, não há pior, esse frio que vai atravessando a pele, fica-se gelada até à alma. Então lembrou-se de ir ela atrás do sol. [Read more…]

Barcelos

barcelos

postal de uma cidade que poderia ser Coimbra

Catalogamos as coisas pelo pouco que vimos delas, ou pelo que intuímos. Por isso, para mim, e embora nada tenha a ver com o que dela se conta, Coimbra é uma cidade exótica e descarada. Imagino que estes homens de pele tão morena que vieram abrir uma mercearia nestas ruelas podem ser descendentes dos mercadores de Samarkanda, a cidade onde até a morte se passeia pelo mercado. Ruelas de mercearias que podiam ser bazares, a transbordar laranjas e tecidos para a rua. Largo da Maracha, rua das Azeiteiras, rua do Almoxarife, beco dos Esteireiros, travessa dos Gatos.

Um senhorio velhote, invariavelmente chamado sr. Marques, conduz-nos pelo labirinto de ruas até ao prédio em ruínas que o seu pai lhe deixou, para mostrar-nos a casa sombria, com lixo amontado aos cantos, portadas de madeira carunchosas na janela, uma cama onde morreram gerações, uma banheira onde corre um rio de cobre.  Tem orgulho na casa e pede um bom dinheiro por ela. Que ninguém lhe diga que a casa é velha e suja, que a humidade alastra nas paredes e que há um cheiro a bafio que nos deixa nauseados.  Para os senhorios de Coimbra, os tais homens chamados Sr. Marques, que têm montado um “escritório de papelada” ou se dedicam à venda de atoalhados, nenhuma casa se compara à que têm para alugar e nenhuma cidade supera Coimbra. [Read more…]

AntiDeuteronómio I

  (Javier-de Juan-Creix)

A cidade está deserta por dentro e por fora de nós começa a não haver vivalma neste lusco-fusco brumoso neste irracional azul de um céu de chumbo nesta descrença de manhãs de sonho em bicéfalas e bárbaras bandeiras de um mundo informe e medonho [Read more…]

A Rainha

adão cruz

Dizem que toda a vida sonhara em ser Rainha. Rainha de qualquer coisa, já que não podia ser Rainha a sério. Por isso, no bairro, todos lhe chamam Rainha. A Rainha para aqui, a Rainha para ali.

Não que haja, em bairro tão pobre, qualquer tipo de estatuto, hierarquia ou respeito especial. Não é um bairro onde os respeitos tenham degraus. No entanto, a Rainha, talvez pela idade, é assim uma espécie de pessoa honoris causa, uma espécie de Rainha-Mãe. [Read more…]

ruralidades

O título não é meu. Pertence a uma equipa de intelectuais  que criou um espaço de debate, para debater a crise económica e política que nos afecta. Como a toda a Europa, excepto aos países precavidos que sabem investir o seu dinheiro em bens que rendem lucro.

Temos herdado, desde os tempos em que o nosso país entrou na então Comunidade Europeia, um deficit de moeda para investir, lucrar e obter mais-valia dos bens que o nosso mercado pode criar e vender. No entanto, Portugal foi sempre um país pobre. Em 1984, foi aceite na União Europeia, o dinheiro que entrou foi usado em construção de estradas, que não havia, em melhorar as comunicações dentro do país, modernizar os paços mais antigos, para servir de habitação de férias de Verão para que cidadãos de outros países visitassem a nossa Nação. Nação que tem tido como a sua melhor riqueza, essa rica geografia da que foi dotada na criação do mundo, com casas lindas nascidas do imaginário fértil da mente lusa. [Read more…]

Vento preso à cidade

(adão cruz)
A noite passou já as estrelas se apagaram novo sol não tarda já doura o fio dos montes e o fantasma é um lençol no meio do chão porque eu sou o vencedor de todos os fantasmas.

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Os velhos de Cedofeita

Nestes dias de sol, quando o inverno dá os primeiros sinais de fraqueza, os velhos de Cedofeita vêm morrer para a varanda. Trazem a gaiola do periquito e a rafeira Pantufa, trazem o rádio de pilhas, e o iogurte do meio da tarde, para empurrar o comprimido, sentam-se num banquinho e ficam ali a olhar-nos, da tribuna dos que só têm passado.

Não sabemos que pensarão das nossas andanças, que lhes parecerá, visto de cima, o alvoroço dos vivos, quanto se rirão da nossa pressa. Não lhes conhecemos o nome, nem a história nem o timbre da voz. A casa que lhes entrevemos pela cortina está sempre escura e silenciosa, uma tumba na qual se depositam quando começa a arrefecer e de onde não saem nos dias de chuva.

Ali estão, emoldurados pelos arabescos de ferrugem das varandas e a corda do estendal de onde pendem um pano de cozinha e um par de peúgas. Seguem-nos com o olhar mas não sei se nos vêem ou se apenas buscam, no movimento dos nossos corpos, o que restou de um tempo gasto.

Também se pode amar uma cidade

Sim, acreditem, a gente pode amar uma cidade, amá-la como se ama uma cidade, com enlevo e ataques de fúria em doses desiguais e alternadas, e chegar da rua assim, a praguejar contra a merda de cão que trazemos nas solas dos sapatos.

E podemos insultar quem condenou à ruína as ruas que amamos desde a infância, chorar esses destroços fantasmagóricos de onde se soltam os azulejos, cansados de esperar uma nova vida que nunca mais chega.

A gente pode amar uma cidade e enfastiar-se da derrota, dos ombros descaídos, do casaco puído de burocrata em passeio de domingo, do cãozinho de pedigree comprado a prestações. E virar a cara para o lado para não ver a nossa pobre gente, condenada a uma velhice de quadro pitoresco para os turistas, a remoer uma côdea de pão na boca desdentada. [Read more…]

Who’s afraid of the big, bad wolf?

Recentemente fui passar um fim-de-semana ao campo. Fiquei naquilo a que se chama uma “casa de hóspedes”, destas em que a estada decorre num ambiente familiar, e que funciona às mil maravilhas se calha a gente de gostar da família que lá vive. Da família, felizmente, pouco vi, porque os seus amáveis membros rapidamente deixaram os hóspedes com a empregada e fugiram para os seus divertimentos equestres. Chegámos já de noite e não foi nada fácil descobrir o monte no qual se erguera a casa que nos receberia. Caminhos enlameados, nem uma única placa informativa, escuro como breu numa noite sem estrelas.

“Porque está tão escuro?”, perguntava esta citadina acagaçada. “Porque estamos no campo”, respondia o meu companheiro, que, como todos os que cresceram no campo, tem um gosto especial por me fazer sentir inapta sempre que deixamos a cidade para trás.

É verdade, no campo não há luz. E a escuridão, como sabem todas as crianças, é um território alarmante porque nele há espaço para que tomem corpo todos os nossos temores. Pousei o inútil GPS e fiquei a olhar pela janela do carro, enquanto o carro avançava a custo sobre trilhos de lama. Vi bandos de homens brandindo garrafas partidas, alcateias de lobos esfomeados, reuniões de feiticeiras aborrecidas com a interrupção, vi tudo isto e mais alguma coisa até que ao meu lado ouvi uma voz tranquilizadora: “É ali, já a vejo”.

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