Como justificar a transição de um aluno com 8 negativas

É só escolher do cardápio (a imaginação dos professores é infinda) e verter em acta (atenção ao acordo ortográfico, senão vem para trás).

“Não fica a fazer nada no 8. ano.”

“O aluno já tem 3 retenções.”

“Não dá mais.”

“Se 5 colegas subirem a nota, ele passa.”

“Está tão bem integrado na turma!”

“Tem tanto potencial!”

“Ao menos fica com o 9. ano feito!”

“É uma vítima daqueles pais.”

“É tão educado!”

“Quem é que sobe?”

“Ele pró ano vai para um curso.”

“Está é uma história triste. Vou contar o que se passa.”

“Coitadinho!”

Há menos em NOS

Diz o anúncio da NOS:

O futuro é para nós. Pela primeira vez o teu tablet sabe o que gostas de ver. Depois, só precisas de escolher e enviar para a televisão. Só a NOS te liga à televisão do futuro. Há mais em NOS.

Tenho algumas reservas. Olhando para este anúncio, vejo uma criança que tem um amigo robô, com quem joga às escondidas dentro de casa, sendo facilmente apanhado, com quem faz desenhos de foguetões (ou melhor, a criança faz um desenho de criança, o robô faz um projecto detalhado com escala), que desiste de fazer os trabalhos de casa, pasta imediatamente passada ao robô, que por ser máquina deve dar conta daquilo num ápice, e que perante a dificuldade em completar o desafio do cubo mágico o entrega ao seu camarada que finaliza o quebra-cabeças em fracções de segundos.

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Samuel, o Rei das Píbias


Enquanto o Samuel vai batendo umas pívias, supõe-se que no remanso do seu quarto, os professores vão arranjando forma de não o reprovarem e de o fazerem transitar, ano após ano, «só para fazer o 9.º ano» e, depois disso, «só para ficar com o 12.º».
Nos Conselhos de Turma, vale tudo, e para conseguirem que todos os alunos passem, alguns professores estendem a sua imaginação até ao limite. Recorrem a todo o tipo de argumentos e, se o aluno puder passar com 2 negativas, o aluno certamente passará.
Assim, se o aluno estiver com 12 negativas depois de serem atribuídos os níveis:

«E se fosse vosso filho, gostavam? Vocês não sabem o que é dar aulas!»

e se estiver com 11 negativas:

«Está tão bem integrado na turma que é inadmissível ter de ficar para trás. Não, este aluno não pode reprovar.»

e se estiver com 10 negativas:

«O pai é alcoólico, a mãe é vítima de violência. Não lhe vai fazer nada bem ficar outra vez no mesmo ano».

e se estiver com 9 negativas:

«Coitadinho! Tem tantas dificuldades. Ele nunca vai conseguir, deixem-no ao menos fazer o 9.º ano!»

e se estiver com 8 negativas:

«Não conseguiu agora, mas isso não significa que, se passar, não consiga no próximo ano.»

e se estiver com 7 negativas:

«Eu posso subir a minha nota, assim fica só com 6. Mais alguém pode?»

e se estiver com 6 negativas:

«Não querem reflectir sobre este caso?»

e se estiver com 5 negativas: [Read more…]

Novas Oportunidades: enquadramento do facilitismo

A função docente, entre muitas outras coisas, junta duas qualidades que entram em conflito frequentemente no Portugal hodierno: por um lado, o professor é um funcionário inserido numa cadeia hierárquica, o que o obriga à obediência aos superiores, entre outros deveres; por outro lado, é um técnico altamente especializado em questões educativas e científicas, o que o impede de exercer as suas funções de um modo mecânico e indiferenciado, como Chaplin a apertar porcas em Tempos Modernos.

Não pode, evidentemente, o professor desfazer-se de qualquer uma daquelas qualidades, sob pena de trair a função que desempenha. É essa a razão que leva os professores a serem cúmplices e críticos do facilitismo imposto há vários anos no sistema de ensino, com destaque muito negativo para os últimos seis anos.

O facilitismo está patente em vários campos, como, por exemplo, nos currículos ou no estatuto do aluno. A principal, quando não única, preocupação dos vários ministros, pelo menos desde os tristes tempos cavaquistas, prende-se com o sucesso educativo, confundido com estatísticas de aprovações.

Com as ministras de Sócrates, o discurso acéfalo contra as reprovações atingiu o paroxismo: o que interessa é forçar as estatísticas, mesmo que isso se faça à custa das aprendizagens, mesmo que vá contra tudo o que é essencial na Educação (o empenho, o civismo, a assiduidade, o rigor), mesmo que seja preciso aproveitar todas as não-notícias (como o caso dos resultados dos testes PISA 2009).

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Saltar do 8º para o 10º

film strip - salto do 8º para o 10º ano

A notícia: «Nenhum aluno conseguiu saltar do oitavo para o 10º ano», no Público.