Novas Oportunidades: enquadramento do facilitismo

A função docente, entre muitas outras coisas, junta duas qualidades que entram em conflito frequentemente no Portugal hodierno: por um lado, o professor é um funcionário inserido numa cadeia hierárquica, o que o obriga à obediência aos superiores, entre outros deveres; por outro lado, é um técnico altamente especializado em questões educativas e científicas, o que o impede de exercer as suas funções de um modo mecânico e indiferenciado, como Chaplin a apertar porcas em Tempos Modernos.

Não pode, evidentemente, o professor desfazer-se de qualquer uma daquelas qualidades, sob pena de trair a função que desempenha. É essa a razão que leva os professores a serem cúmplices e críticos do facilitismo imposto há vários anos no sistema de ensino, com destaque muito negativo para os últimos seis anos.

O facilitismo está patente em vários campos, como, por exemplo, nos currículos ou no estatuto do aluno. A principal, quando não única, preocupação dos vários ministros, pelo menos desde os tristes tempos cavaquistas, prende-se com o sucesso educativo, confundido com estatísticas de aprovações.

Com as ministras de Sócrates, o discurso acéfalo contra as reprovações atingiu o paroxismo: o que interessa é forçar as estatísticas, mesmo que isso se faça à custa das aprendizagens, mesmo que vá contra tudo o que é essencial na Educação (o empenho, o civismo, a assiduidade, o rigor), mesmo que seja preciso aproveitar todas as não-notícias (como o caso dos resultados dos testes PISA 2009).

Este foi o governo que transformou, definitivamente, a Educação em publicidade barata, com distribuição de computadores, com estatísticas de sucesso, enfim, com superficialidades. Entretanto, os professores vão combatendo este estado de coisas como podem, usando, o mais possível, de uma autonomia clandestina, para que os alunos possam ser o menos prejudicados possível por políticas educativas que são só políticas e nunca educativas.

Os alunos, como é evidente, evoluem, quanto mais não seja porque o simples facto de serem expostos a um ambiente escolar provoca modificações. No entanto, a verdade é que é do conhecimento dos professores que os alunos não saem de cada um dos ciclos tão bem preparados como deveriam sair.

É neste contexto que se inserem as críticas ao Programa Novas Oportunidades: não são os alunos que merecem ser criticados, como não o merecem os técnicos e professores que aí trabalham. O que merece ser criticado é um sistema que não constitui um corpo estranho naquilo que têm sido as opções políticas no âmbito da Educação.

Os professores, como técnicos especializados, têm, assim, o dever de chamar a atenção para todas estas insuficiências. O problema é que a Esquerda, como se verificou com Louçã (no debate com Passos Coelho), defende este embuste, graças a um reflexo condicionado que vê na crítica às NO um ataque as desfavorecidos. Para além disso, Sócrates, sempre pronto a fingir-se de esquerda, usa a mesma argumentação, quando, na realidade, só quer defender uma das suas bandeiras publicitárias. Finalmente, Passos Coelho vai aproveitando para ziguezaguear, criticando, hoje, aquilo que José Manuel Canavarro o obrigará a praticar, amanhã. O facilitismo continuará.

Comments

  1. Maria Elisabete Neves says:

    “Não são os alunos que merecem ser criticados, como não o merecem os técnicos e professores que aí trabalham. O que merece ser criticado é um sistema que não constitui um corpo estranho naquilo que têm sido as opções políticas no âmbito da Educação.” – Não posso estar mais de acordo.
    Quanto à defesa desse embuste pela Esquerda, não pode generalizar. Sou de esquerda e fui professora. Sempre me insurgi contra o facilitismo que reinava no Ministério da Educação (note que, quando a Direita estava no Governo, era a mesma coisa) e vivia numa enorme frustração por ver a oportunidade perdida pelas sucessivas gerações de jovens. É que ter um diploma nas mãos não é o mesmo que estar preparado, de acordo com o mais elementar critério de exigência.

    • António Fernando Nabais says:

      No que respeita à Esquerda, não quis generalizar, embora reconheça que o que escrevi possa ser interpretado como sendo uma generalização. Também sou de Esquerda, tenho dado o meu voto ao Bloco de Esquerda e vou continuar a dar, por enquanto. Nada disso, no entanto, me impede de discordar da posição do Bloco, que, ainda por cima, se juntou, na AR, hoje, ao PS na defesa cega das NO.
      O que quis dizer é que ainda não apareceu nenhuma força política que não tenha defendido ou praticado o facilitismo na Educação. A Direita pode dar a impressão de que tem um discurso mais exigente, mas isso não passa de uma ilusão.

  2. Ana Bento says:

    …«O que merece ser criticado é um sistema que não constitui um corpo estranho naquilo que têm sido as opções políticas no âmbito da Educação.»…CONCORDO!

  3. Antonio Monteiro says:

    Eu fui um daqueles que fez o 12º com as Novas Oportunidades, não por oportunismo mas sim por necessidade e vingança.
    A vida cruel e Sotto Mayor Cardia (lembram-se?) impediram-me de acabar o Liceu, naquele ano fatídico em que o governo arrasou com as notas de exames e implementou o numerus clausus.
    Tal foi a desilusão deste aluno (até aí) acima da média, que desisti e fui à luta pelo trabalho.
    Quando surgiu o programa NO aproveitei o facilitismo para finalmente alcançar o patamar que a minha experiência de vida e cultura geral há muito chegara.
    Como não sou parvo, é evidente que sabia que se esconde por detrás deste programa. Queiram-me desculpar que discorde que as NO sejam únicamente um rebento do Sócrates. Esta política é mais abrangente e europeia, e vai no sentido de distorcer e elevar artificialmente os níveis de literacia e formação da população, de forma a que haja uma aproximação à média europeia.
    Mas que tambem fique registado que, no meu caso pessoal, levei de tal modo a sério este programa, que trabalhei que me fartei, os formadores foram exigentes de acordo com o conteúdo programático e, no fim, todas as competências foram validadas.
    Diploma na mão, para minha satisfação pessoal unicamente, senti-me realizado.
    Não fui em folclores políticos e não fui levantar o diploma em nenhuma cerímónia de propaganda (nem da Ministra da Educação, nem do Sócrates, nem do Presidente da Câmara: mandei-o vir por correio; bem assim como recusei o convite “sincero” de testemunhar a minha experiêncianum programa de rádio local, onde estariam as forças vivas da região + o digníssimo autarca chefe – disse-lhes que estava ocupado nesse dia…
    Quanto ao ensino em geral…isto dá pano para mangas e é melhor falar disto noutra altura.

    • António Fernando Nabais says:

      Obrigado pelo seu testemunho, António.
      Concordo consigo: nada disto é uma invenção unicamente do Sócrates.

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  1. […] instintiva, face a aparentes ataques aos desfavorecidos? Será crença sincera? Seja como for, é a escolha do facilitismo, é o elogio da lágrima obscena de Sócrates, é querer estar ao lado de duas figuras sinistras […]


  2. […] Não o esperava, mas concordo. Com efeito, ignorante é quem não sabe a enorme fraude que as Novas Oportunidades […]