E na Educação?

Nada se transforma, tudo se mantém. 

Miragens no deserto

Santana Castilho *

A análise dos contributos que o sistema de ensino projecta na sociedade portuguesa é complexa e varia com as perspectivas, técnicas ou políticas, dos observadores. Mas há dados que são incontornáveis. Tendo a OCDE por fonte (Education at a Glance), Portugal tinha, em 2014, 57% da sua população com o 3º ciclo do ensino básico ou menos, enquanto a média da OCDE se cifrava apenas em 21%. Apesar disso, foi no sistema de ensino que a política de austeridade do anterior Governo provocou maior destruição, sem que o actual tenha revertido a situação (no OE para 2016 estão inscritos, para o ensinos básico e secundário, ainda menos 149,9 milhões de euros, relativamente ao que foi gasto em 2015).

Por outro lado, as Estatísticas do Emprego (INE) mostram que, entre 2007 e 2015, foram extintos 1 milhão e 378 mil postos de trabalho para os detentores de habilitação igual ou inferior ao 3º ciclo do ensino básico, face à redução global de 621.000 empregos. Significa isto que os mesmos postos de trabalho, que antes eram ocupados pelos menos qualificados, foram preenchidos por trabalhadores com maior habilitação. Ganhando estes mais? Não, ganhando menos, já que a remuneração média em Portugal diminuiu 24,5 euros de 2011 para 2014 (Boletim Estatístico do GEP do Ministério da Economia). Conclusão: os patrões aproveitaram a crise para substituir menos qualificados por mais qualificados, pagando menos.

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Mudar o mundo todo, uma pessoa de cada vez

A utopia é um elemento essencial da nossa identidade porque no dia em que  o sonho deixar de estar presente, o caminho para o amanhã desaparece também. No entanto, a utopia tem que ser um sonho que se materializa nas práticas diárias, nas opções que vamos fazendo a cada momento.

Malala é uma menina que faz a sua parte e que procurava, na sua comunidade, fazer a diferença.

“Um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo. A educação é a única solução. Educação primeiro”

Esta VERDADE apresentada por Malala na ONU leva-me para um terreno absolutamente oposto ao de Nuno Crato e dos seus seguidores. A aposta na Educação é um valor entendido até nos territórios mais deprimidos do nosso planeta, enquanto por cá um grupo de boys parece comprometido com o fim da escola pública. A jovem Paquistanesa além da defesa da Educação enquanto valor global, apresenta como urgente a formação das mulheres. [Read more…]

Os cursos EFA e as estatísticas de Nuno Crato

Um curso de Educação e Formação de Adultos é actualmente a única opção para quem, tendo mais de 18 anos, queira estudar. Num país onde o desemprego cresce todos os dias mandava o bom senso que deveriam ser estimulados, já para não falar na reabertura do ensino recorrente por módulos, que correspondia com algumas adaptações ao ensino regular e a euforia das Novas Oportunidades mandou às malvas.  Ora os Cursos EFA acabam de ser suspensos. [Read more…]

Nuno Crato: ignorante, irresponsável ou mentiroso?

Nuno Crato desvalorizou o aumento do número de alunos por turma, recorrendo a argumentos absolutamente levianos. O rendimento dos alunos levanta questões demasiado complexas e a verdade é que há estudos que provam que turmas maiores são prejudiciais, o que foi recentemente confirmado pela OCDE.

Nuno Crato justificou o aumento do desemprego entre os professores com a diminuição do número de alunos, o que, de qualquer modo, já era falacioso, pois esse facto é consequência do aumento do número de alunos por turma, da criação de mega-agrupamentos e da revisão curricular, entre outros factores. Como se isso não bastasse, descobre-se, agora, que houve cálculos errados, mais uma vez contrariados pela OCDE.

Não posso afirmar que Nuno Crato seja mentiroso e deixo ao próprio ministro a possibilidade de rejeitar essa acusação. Se não for mentiroso, será, no mínimo, ignorante. Sendo mentiroso ou ignorante, será sempre um ministro irresponsável ou continuará a ocupar a pasta graças à irresponsabilidade do primeiro-ministro.

Entretanto, é o seu filho que continua a ser prejudicado.

Olha quem fala

Feliz lembradura do Luís Branco no facebook.

Alberto da Ponte vai presidir à administração da RTP

Este país é um colosso,

está tudo grosso, está tudo grosso.

Fazes falta, Ivone Silva.

Não, não sou Doutor

Muito se tem escrito sobre a licenciatura de Relvas feita em apenas um ano.

Miguel Esteves Cardoso escreveu muito bem sobre o caso: “Mas o não-dr. Relvas não tirou curso nenhum. Por muito mau que seja o curso de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Lusófona (UL) se o não dr. Relvas o tivesse tirado, não só seria dr. Relvas, como seria, com certeza, menos ignorante.”

Miguel Relvas é um não-doutor que chegou a ministro.

Ao mesmo tempo, há «doutores» –  efectivamente, comprovadamente e merecidamente doutores -, que têm que esconder que são licenciados, ou mestres ou doutores para conseguirem um emprego.

Há jovens licenciados que “criam várias versões do seu CV de forma a garantir que os chamem mais depressa para entrevistas de trabalho“. “Reduzem as habilitações ao 12.º ano como estratégia, tornando o currículo simples e atraente”. ??

Há portugueses que negam a sua formação, que quase têm vergonha do seu esforço e da sua formação académica de alto nível. Anos das suas vidas que têm necessidade de negar com medo!!!!Portugueses que recebem um salário muito aquém daquilo para que se prepararam.

Há portugueses que se sentem prejudicados por excesso de habilitações. O que é isto? E ainda se lhes pede: voltem à escola (Mariano Gago)!!

Isto é uma vergonha! Uma vergonha nacional!

A Educação em Portugal: «só para inglês ver».

Um retrato do nosso país.

P.S.: E há portugueses que não são «doutores» por falta de oportunidade para estudar e a quem respeitamos! Uma palavra para eles, como o meu pai: não têm mais que a 4ª classe mas são «doutores» pelo respeito que me merecem, pelo exemplo que dão nas suas vidas de gente íntegra. O meu pai, com mais de 60 anos, acabou agora o 9º ano (Novas Oportunidades). Parabéns a todos os que, com esta idade, procuram actualizar as suas habilitações académicas, desinteressadamente…

Caso Relvas: Outras licenciaturas rápidas e competentes

Insensato, ponto, Crato

Santana Castilho *

1. A Unicef divulgou o relatório “Medir a Pobreza Infantil”, considerando crianças até aos 16 anos e dados de 2009. Num universo de 29 países estudados, Portugal está na 25ª posição. Atrás de nós só Letónia, Hungria, Bulgária e Roménia. Quase um terço das crianças portuguesas está em carência económica (o critério é o não cumprimento de dois ou mais dos 14 requisitos considerados). Essa carência dispara para 46,5 por cento se o universo for o das famílias monoparentais ou 73,6 por cento se ambos os progenitores estiverem no desemprego. Há crianças (14,7 por cento) que vivem em famílias cujo rendimento não ultrapassa os 200 euros mensais. A desatenção que as autoridades portuguesas dão às nossas crianças está bem patente quando verificamos que a taxa das que sofrem privações é três vezes superior à dos países com idêntico rendimento per capita. Sendo certo que os efeitos da presente crise ainda não se manifestavam em 2009, imagine-se a brutalidade dos números se fossem reportados à actualidade. É insensato fingir que esta realidade não existe.

2. O teste intermédio de Matemática do 9º ano, da responsabilidade do Gabinete de Avaliação Educacional, teve resultados alarmantes. Houve turmas com uma só nota positiva. Nas escolas de topo dos habituais rankings verificaram-se quebras de 30 por cento. Foram vários os professores da disciplina que consideraram o teste com grandes lacunas de validade relativamente ao programa em vigor na maioria das escolas do país. [Read more…]

Experiência certificada

É tudo uma questão de oportunidade

Diz o tipo que estar desempregado é uma oportunidade. Logo, encerra as Novas Oportunidades. Estar Desempregado é A NOVA oportunidade. Excelente. Grande ideia!

Novas oportunidades têm que continuar – todos o o dizem!

Maria de Lurdes Rodrigues tem um mérito – foi uma Ministra da Educação Eucalipto. Secou tudo à sua volta. Em torno do seu mau feitio e da sua péssima gestão da comunicação conseguiu queimar programas que eram (são!) bons e necessários ao país.

Dois foram absolutamente simbólicos: as novas oportunidades e o magalhães.

Um e outro foram usados (tornaram-se?) como símbolos da governação de Sócrates e acabaram por sofrer com isso. Projectos singulares, com um enorme potencial que acabaram por ser ridicularizados na Praça Pública.

No entanto e mesmo correndo o risco de mexer com o senso comum do leitor, vou defender as Novas Oportunidades como um projecto fantástico e apresentar, para início de discussão, estas questões:

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Última oportunidade para 9 Novas Oportunidades

Momento ao-coração na última campanha eleitoral.

«O Governo extinguiu nove centros do programa Novas Oportunidades, depois de, na quarta-feira, ter divulgado que estava a analisar as candidaturas apresentadas ao financiamento intercalar que se prolonga até Agosto de 2012.» [JN]

Sem conhecer em particular estes nove centros encerrados mas face ao historial do programa o meu comentário é que nove fábricas de sucesso estatístico-educativo foram encerradas. Como bem lembra Paulo Guinote, é de se saber o que acontece aos respectivos dirigentes.

Modesta sugestão a Nuno Crato para resolver o problema das Novas Oportunidades

Por muito que tenha criticado, com conhecimento profissional de causa, o funcionamento dos processos de RVCC (Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências), sobretudo o facto de funcionarem com a pressão das metas, discretamente convidando à aceitação da fraude, nada tenho contra a ideia, muito pelo contrário: há adultos que adquiriram competências ao longo da vida, e que as merecem ver reconhecidas e certificadas.

O problema não esteve aí, nem nos referenciais que servem de guião para os processos de RVCC (criticáveis, mas no geral aceitáveis). Esteve sim no objectivo claro do socratismo: certificar a todo o custo, daí obtendo ganhos eleitorais e estatísticos.

As primeiras vítimas foram precisamente os adultos que mereciam um diploma, e ficaram com um pedaço de papel ridicularizado socialmente, com utilidade quase exclusiva para concursos internos na função pública.

Agora não vai ser fácil recuperar a credibilidade destes processos, e continuá-los como sempre deveriam ter sido.  Armado em alfaiate, vejo duas medidas possíveis. A primeira é simples: aumentar a idade mínima para pelo menos 30 anos. A segunda passaria por transformar as Sessões de Júri em verdadeiros Júris, adaptando o modelo francês: em cada distrito um júri, trabalhando a tempo inteiro, e com capacidade de ler os porta-folhas, e submeter o adultos às questões que entenda necessárias para se assegurar da sua autenticidade. [Read more…]

Educação sempre a rimar com confusão: NO chegam ao Superior

A formação inicial dos professores corresponde, em termos simplistas, ao curso superior que confere a um indivíduo a necessária habilitação para poder dar aulas. Com o controlo que a mentalidade eduquesa vem exercendo, há vários anos, sobre as políticas educativas, a componente científica da formação inicial foi-se tornando cada vez mais irrelevante: o professor é, na realidade, visto como alguém que pode leccionar qualquer matéria, independentemente da especialização científica, como se pode confirmar no projecto de prolongar a monodocência até ao 6º ano.

aqui tive oportunidade de dar a minha opinião: a monodocência, mesmo no primeiro ciclo, é um disparate. Veja-se, por exemplo, o plano de estudos da licenciatura em Educação Básica da Escola Superior de Educação do Porto, curso esse que, complementado com o Mestrado em Ensino do 1º e 2º Ciclo do Ensino Básico, permite a formação de professores “para a docência generalista, no 1.º e 2.º Ciclo do Ensino Básico.”. Assim, as almas que inventaram este plano acreditam que um jovem mestre, ao fim de cinco anos, está preparado para leccionar Matemática, Língua Portuguesa ou outra coisa qualquer a alunos do 1º ao 6º ano.

No Público de hoje, ficamos a saber que o Ministério da Educação pretende que as Escolas Superiores de Educação possam, também, formar professores para o Ensino Secundário. É claro que se trata de uma nova oportunidade de negócio que as ESE não quererão enjeitar, aproveitando as habituais frestas da legislação produzida: a formação de professores do Secundário só pode ser feita através de licenciatura, grau que, desde 1997, pode ser concedido, também pelas Escolas Superiores de Educação. Estranha-se que tenham levado tanto tempo a descobrir esta abertura, mas a necessidade aguça o engenho. [Read more…]

Vinho novo em odres velhos

Na falta de auto-estradas ou troços do TGV, o Governo demissionário tem-se desdobrado em entregas de diplomas como se de inaugurações se tratassem. Como é hábito, quem está na Oposição chama isto de oportunismo. Um dia que a agulha mude, trocam-se as vozes nos mesmos discursos.

O Programa Novas Oportunidades até tem aspectos importantes e virtuosos. Entre outros, a aproximação de gerações mais velhas às novas tecnologias, desde a informática às redes sociais. Diversas pessoas, com mais de sessenta anos de idade, descobriram as maravilhas da Internet graças àquele Programa, e disso fizeram um aliado de combate à solidão.

Infelizmente, a ideia corrente que fica é que não tardou que as Novas Oportunidades fossem instrumentalizadas para embelezar a estatística das nossas habilitações literárias, para mais rapidamente subirmos no ranking da OCDE.

Acontece que há muito que a exigência e o mérito capitularam. [Read more…]

Pacheco Pereira, Maria de Lurdes Rodrigues e as Novas Oportunidades

Santana Castilho *

1. Em artigo intitulado “Notas de campanha (1)”, Pacheco Pereira classifica de “reprimenda mal-educada” a Passos Coelho aquilo que eu disse sobre o programa do PSD para a Educação. Pacheco Pereira foi atrevido. Falou do que não conhecia. Deturpou e distorceu. Porque não aceito lições de Pacheco Pereira, ignoraria a diatribe, não fora o respeito que me merecem os leitores do “Público”, que cumpre esclarecer. Passos Coelho prefaciou um livro meu e apresentou-o. O livro é um contributo para um programa de actuação política no domínio da Educação. Por iniciativa própria, Passos Coelho esclareceu aspectos de uma colaboração que me pediu. E entendeu, naquele acto público, referir o meu desapontamento (que lhe comuniquei em privado) com a versão final do programa eleitoral para a Educação do PSD e anunciar que o iria melhorar. Passos Coelho falou antes de eu ter falado e teve a hombridade de reconhecer (coisa pouco usual na prática política corrente) que o programa devia ser melhorado. Porque foi Passos Coelho a tomar a iniciativa de se referir ao que eu não abordaria na apresentação do livro, entendi escolher, para o referenciar, os aspectos que melhor poderiam servir a decisão, autónoma e prévia, (e sublinho o “prévia”) de Pedro Passos Coelho. Do espírito e da forma do que foi dito, quer por Passos Coelho quer por mim, ressaltou frontalidade e cordialidade. Só por ignorância ou má fé alguém pode falar de má-educação. A sala estava cheia. Duzentas pessoas podem testemunhar o que aqui fica, preto no branco. E Pacheco Pereira não estava lá. Ficar-lhe-á bem pedir desculpa. [Read more…]

“ELABORAM-SE TRABALHOS NOVAS OPORTUNIDADES”

Elaboro trabalhos das novas oportunidades a um preço muito acessível – Sou licenciada, e tenho muita experiência em elaborar trabalhos – Guardo sigilo absoluto”

Mais, mais, mais, mais… quem tem fome, pega na rede e vai pescar…

Ignorante é quem não conhece o programa Novas Oportunidades

O título deste post é uma frase de Sócrates, dita ontem no arranque da campanha eleitoral. Não o esperava, mas concordo. Com efeito, ignorante é quem não sabe a enorme fraude que as Novas Oportunidades são.

Manuel António Pina sobre as «Novas Oportunidades»

O António Almeida relembrou um post antigo que escrevi sobre as Novas Oportunidades. Um post que se baseava num caso concreto, o do atleta Pedro Póvoa, e que transcrevia parte de uma crónica de Manuel António Pina sobre o assunto.
Porque o tema é muito actual, fui procurar e encontrei o resto da crónica do novo Prémio Camões, publicada em Dezembro de 2008 no JN. Todo o texto, como sempre, é muito bom, mas o final é delicioso.

A propósito do generalizado tratamento de “doutor” em Coimbra, contava-se a história de um barbeiro que, enquanto escanhoava o cliente, metia conversa com ele: “O sr. dr. não é o engraxador que pára lá em baixo na Portagem?” Entretanto todo o país se “coimbrizou” (e o que não se “coimbrizou” está a “bolonhizar-se”) e a piada perdeu-se.
Hoje, no supermercado, devemos dirigir-nos à menina da caixa dizendo: “Pago com Multibanco, sra. dra.”, e à empregada doméstica: “Dra. Irene, sirva o leite-creme”, do mesmo modo que não podemos esquecer-nos de que o lavador de carros pode ser engenheiro pela Moderna ou pela Internacional: “Lavagem completa, sr. engenheiro”.
A revista “Sábado” conta a história de um atleta de “taekwendo” que, sem nunca ter feito o ensino secundário, em poucos meses conseguiu, como tantos outros, um diploma “simplex” do 12.º ano nas “Novas oportunidades” e já está a caminho da Faculdade de Medicina.
Um dia destes, juntamente com um anestesista também “simplex”, estará a operar o leitor num hospital público, os dois cheios de curiosidade sobre o que haverá dentro de uma barriga.

Novas oportunidades – IV

Até vieram lágrimas a Sócrates quando falou nas Novas Oportunidades. Por vezes a mim também, mas é de tanto rir, com a cultura de facilitismo que se instalou no país… Aproveito para relembrar um post do Ricardo Santos Pinto,  já com algum tempo, mas absolutamente certeiro, quanto às maravilhosas possibilidades das Novas Oportunidades…

Novas Oportunidades: Bloco de Esquerda ao lado do PS

O Bloco de Esquerda volta a escolher a má companhia do PS, ao participar na defesa acrítica das Novas Oportunidades. Será eleitoralismo? Será uma atitude instintiva, face a aparentes ataques aos desfavorecidos? Será crença sincera? Seja como for, é a escolha do facilitismo, é o elogio da lágrima obscena de Sócrates, é querer estar ao lado de duas figuras sinistras como Luís Capucha e Valter Lemos.

Embora não acredite na sinceridade de Passos Coelho, desgosta-me saber que Cecília Honório, deputada do BE, se limite a usar argumentos que conseguem descer ao nível de Sócrates (ou mais abaixo), transformando as críticas a um sistema num “atestado de burrice” passado aos milhares de trabalhadores que passaram pelas NO. O próprio Francisco Louçã já havia iniciado esse caminho no debate com Passos Coelho.

Nesta caixa de comentários, tive oportunidade de concluir que não é obrigatório comungar deste dislate do Bloco para se ser de Esquerda. Ainda bem, mas não deixa de ser preocupante. Entretanto, na mesma caixa, vale a pena ler o testemunho do leitor António Monteiro.

Mas é um actor ou um governante que vamos eleger?

imageO Sócrates é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que nunca sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele não teve,
Mas todas as que ele não tem.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a ilusão,
Esse comboio de corda
Que se chama eleição.

 

* resultado de se estragar o poema Autopsicografia de Fernando Pessoa

Novas Oportunidades: enquadramento do facilitismo

A função docente, entre muitas outras coisas, junta duas qualidades que entram em conflito frequentemente no Portugal hodierno: por um lado, o professor é um funcionário inserido numa cadeia hierárquica, o que o obriga à obediência aos superiores, entre outros deveres; por outro lado, é um técnico altamente especializado em questões educativas e científicas, o que o impede de exercer as suas funções de um modo mecânico e indiferenciado, como Chaplin a apertar porcas em Tempos Modernos.

Não pode, evidentemente, o professor desfazer-se de qualquer uma daquelas qualidades, sob pena de trair a função que desempenha. É essa a razão que leva os professores a serem cúmplices e críticos do facilitismo imposto há vários anos no sistema de ensino, com destaque muito negativo para os últimos seis anos.

O facilitismo está patente em vários campos, como, por exemplo, nos currículos ou no estatuto do aluno. A principal, quando não única, preocupação dos vários ministros, pelo menos desde os tristes tempos cavaquistas, prende-se com o sucesso educativo, confundido com estatísticas de aprovações.

Com as ministras de Sócrates, o discurso acéfalo contra as reprovações atingiu o paroxismo: o que interessa é forçar as estatísticas, mesmo que isso se faça à custa das aprendizagens, mesmo que vá contra tudo o que é essencial na Educação (o empenho, o civismo, a assiduidade, o rigor), mesmo que seja preciso aproveitar todas as não-notícias (como o caso dos resultados dos testes PISA 2009).

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Oportunidades perdidas

Há causas que por muito justas que sejam estão condenadas ao fracasso. O ataque do PSD às Novas Oportunidades foi uma delas. Por um lado não foi uma ideia muito inteligente colocar em causa umas centenas de milhares de eleitores que obtiveram um diploma por processos de RVCC sem terem adquirido competências algumas ao longo da vida, tirando aquelas que a vaga leitura da Bola e da Maria proporcionam. Percebo a intenção de agradar aos professores (e mesmo entre estes muitos contratados sempre agradecem o horário), o resto foi um tiro desproporcionado.

O PS chamou-lhe um figo. Num instante deu gás à máquina:

Depois da troca de acusações entre PSD e PS a propósito do programa Novas Oportunidades, a Agência Nacional para a Qualificação (ANQ), (…) recebeu um pedido para que fossem recolhidos testemunhos abonatórios que pudessem ser utilizados na sessão do PS com José Sócrates e o cabeça-de-lista por Lisboa, Ferro Rodrigues.

O CM sabe que foram também enviados e-mails a funcionários dos centros em que se pedia para comentarem notícias relacionadas com declarações do presidente da Agência Nacional para a Qualificação, Luís Capucha, nas quais este atacava o líder do PSD, considerando “insultuosas” as suas palavras sobre as Novas Oportunidades.

Isto resolvia-se muito bem se aparecessem os milhares que tinham mesmo competências, e ganharam um diploma ridicularizado. Mas não aparecem, porque para isso nem a oposição toda teria máquina, quanto mais gás.

Ficou uma anedota: Miguel Sousa Tavares quer fazer um exame sobre competências adquiridas ao longo da vida. Eu também não percebo nada de mecânica, mas não opino sobre pistões e embraiagens.

via Paulo Guinote

Novas Oportunidades: O Rei vai nu…

Então vamos falar a sério.

Vamos falar sobre um sistema que criou a falsa ilusão de ser igual ao sistema normal de ensino mas não o é. Vamos falar sobre um programa que criou expectativas aos seus “alunos” mas que o mercado de trabalho ridicularizou (com piadas como: “pois, o teu certificado deve ser das Novas Oportunidades” ou “olha este deve ter vindo das novas oportunidades”, etc.). Os motivos? Simples:

Falta de credibilidade por via de um gritante deficit de exigência. Serviu para maquilhar dados estatísticos mas não foi uma mais-valia para a esmagadora maioria. Depois, causou situações gritantes como estas:

É mais uma história de sucesso do Programa Novas Oportunidades, o tal prograna tão elogiado pelo primeiro-ministro. Um programa que conduzirá Portugal ao primeiro lugar mundial nas estatísticas sobre Educação. Agora, ficamos a saber que Pedro Póvoa, atleta de Taekwondo, vai entrar em Medicina sem nunca ter posto os pés numa escola secundária

‘Melhor’ estudante do País chegou à universidade só fazendo um exame e teve 20

Novas oportunidades – III

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         -Não gostas de ler nem escrever? A matemática aborrece-te? A escola é uma seca? Os professores são chatos? Vai mas é dar uns pontapés na bola, descobre o Ronaldo que há em ti, ainda recebes equivalência ao 9º ano sem teres a maçada de estudar ou ires às aulas….

Novas oportunidades – II

                                                                                                             Recebido por e-mail!

Novas oportunidades – I

Novas Oportunidades: a avaliação externa impossível

Hoje PS e PSD andam a brincar às Novas Oportunidades. É assunto que já me ocupou o teclado: as fraudes sistemáticas, as mentiras de Luis Capoulas, e a razão porque o logro é endémico:

As fraudes só passam porque as equipas deixam. E as equipas deixam porque têm metas para cumprir, pairando sempre sobre a sua cabeça a ameaça de encerramento do CNO. Estamos a falar de pessoal maioritariamente contratado (agora menos a recibo verde, é certo) ou sem componente lectiva na escola onde está colocado, e do ou cumpres ou ficas desempregado.

Passo a explicar a Passos Coelho porque não vale a pena fazer auditorias externas. Primeiro porque já foram feitas, com o objectivo de não servirem para nada, mas feitas. Segundo porque embora todas as equipas tenham ordens para certificar qualquer analfabeto que se preste a um processo de certificação de competências isso não está escrito em lado nenhum: existem metas que não dizem claramente validem, fingem dizer outra coisa, tipo despachem, cumpram, inscrevam. Coisa fantástica, na ANQ as instruções superiores passam sempre para a base da hierarquia via formação: é que numa reunião não se escreve, só se diz, não ficam provas. Quando as coisas chegam às equipas são factos orais consumados.

E por último porque José Manuel Canavarro, autor do programa do PSD para a Educação, no intervalo de outros negócios privados e de uma carreira académica muito turbo, também dá uma perninha à ANQ: [Read more…]