O Importante é Andar com a Cabecinha Erguida

Não nos importem as dificuldades que este governo nos impõe.

Não nos interesse o quanto o fisco nos tenha depenado.

Não nos preocupemos com a fome e o desemprego que grassa no nosso País.

Não nos importe o sexo que o governo quer fazer connosco.

Mantenhamos a nossa auto-estima acima de tudo.

E tudo isto porque: [Read more…]

Um dia de crise

Foi o calor, de certeza. A temperatura subiu muito, o corpo tarda em acostumar-se. A cidade vibrou, houve um tremor, os nervos esticados ao limite. Convulsionaram-se as entranhas da terra, parecia prestes a soltar-se a torrente.  Ouviu-se um zumbido no ar, uma trepidação, qualquer coisa capaz de levar à loucura.  Mas logo vieram as primeiras gotas mornas do aguaceiro.

Foi o calor, mas também a greve que enlentecia os autocarros e os fazia chegar empanturrados, com as costas dos passageiros coladas à porta por onde já ninguém podia entrar. E talvez fossem também as notícias das bolsas no vermelho, da dívida, da bancarrota, do fim do mundo tal como o conhecemos, mentiroso e injusto, mas tranquilizadoramente familiar.

O sem-abrigo que todos os dias fica à porta do supermercado decidiu, pela primeira vez, entrar e sentar-se ao pé dos carrinhos. [Read more…]

O 1º de Maio na Alameda

Vou para a Alameda, já recebi a convocatória para me apresentar no local habitual, de preferência perto das barracas do bom vinho tinto alentejano, das sandes de presunto e longe da barulheira dos discursos e da música aos berros. Mas o pior de tudo são as palavras de ordem que uns gajos, escolhidos a dedo, gritam pelo megafone.

Os camaradas vêm de todo o país, com franel, gente generosa, distribuem tudo o que têm, produtos da casa, na província não há os dramas da grande cidade, eles têm o quintal, as couves, os nabos e o porquinho, e o vinho da aldeia, sem misturas, puro, só uva. E se não partilhamos é um desconforto, mas temos o Vitor com o pão alentejano que comprou na barraca dos comes e bebes e a garrafa do tinto, que os camaradas se apressam a dizer que é bom mas não chega ao deles.

Mas também aparece quem de grupo em grupo vá matando a fome. Em cada ano que passa há mais gente que passa mal, ouvem-se as estórias do fecho da fábrica, do filho desempregado, dos familiares que já emigraram.

O 1º de Maio já foi uma festa!

A modos de resposta ao post da Carla

O filho de Deus

 

O filho de Deus sobreviveu

revigorado com o sopro divino.

Chegou ao seio da mãe

onde algumas gotas de leite

lhe seguraram a vida

e

sadicamente

o impediram de seguir logo

directamente

sem necessidade de vir a sofrer

as provações de todo um futuro

incerto e traiçoeiro

para a garantida felicidade eterna.

Passaram os anos.

Um dia meteram-lhe uma coisa na boca

e disseram-lhe que era Deus

como se Deus coubesse na sua boca!

como se Deus coubesse na sua boca!!!

O mar

infinitamente mais pequeno do que Deus

não cabe em todas as bocas juntas!

Também lhe disseram que era filho de Deus.

Ou gozaram com ele

ou pretenderam fazê-lo acreditar em paranóias.

Como se Deus andasse por aí

a fazer filhos como ele!

Seria preciso que fosse um Deus muito fraco

e irresponsável.

Revelaram-lhe

ainda

que sua mãe era virgem

o que ele não era capaz de entender.

Deus

pelos vistos

seu Pai

ao gritar ao mundo que crescesse

e se multiplicasse

ou se enganara

ou se arrependera

ou estava a gozar

ou fora vítima de contradição.

Disseram cada coisa

que ele chegou a pensar

que mandava nos pássaros

que era capaz de pôr as cobras de joelhos

e que o céu era trigo limpo.

Sendo ele filho de quem era!

Apesar de tudo

sempre foram para ele um tanto estranhas

as atitudes de seu Pai.

Porquê tanto medo do inferno lá de baixo?

O inferno lá de baixo

o das almas penadas

perante o grito de sofrimento dos povos

imbuídos da fé

que tanta e tanta felicidade lhes trouxe

nestes místicos séculos

até parece que não é tão mau como o de cá.

Talvez o diabo não seja como o pintam

os sagrados comungadores

não tanto da hóstia como do ouro.

Eles acham que os espoliados ainda têm pele

eventualmente rentável

e utilizável para fazer tambores

e Deus parece concordar

a avaliar por tudo o que se vê.

E ele começa a ter vergonha de ser filho de Deus

porque nenhum filho gosta que o pai o atraiçoe.

Mas a vida continua

na sua tradicional canção de louvor a Deus.

Ele pensa que seu Pai enlouqueceu

ou perdeu a vergonha.

Ele

que é omnipresente

omnisciente

omnividente e omnipotente

optimiza facciosamente

as condições de vida dos fortes e dos ricos

para que não sofram.

Cria

descaradamente

todas as condições para que as catástrofes

as Torres de Babel e os dilúvios

se abatam sempre sobre as cabeças dos mais fracos!

Tal filho não entende tal Pai!

A estupidez invade a cidade

como uma avalanche de merda

e seu Pai permite que façam dela a bandeira

com que a metafísica apodrece a razão

de todos os criados e reciclados

à sua imagem e semelhança.

 

 

 

Hoje vão morrer de fome 17 mil crianças

Na edição de hoje do Diário IOL, conta-se que na abertura da Cimeira da FAO (Organização para a Agricultura e Alimentação), o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon “lembrou que há mil milhões de pessoas com fome no planeta e que a produção de alimentos terá de aumentar para fazer face a estas carências e ainda ao aumento de população que se regista.”

 

Como já é habitual quando se fala nestas questões, o ambiente parece ser de desencanto e cepticismo quanto à intenção dos países mais ricos em dar resposta a esta catástrofe que condena à morte anualmente 36 milhões de pessoas, das quais seis milhões são crianças.

 

Do grupo de países que compõem o G8, esses que são os mais industrializados e economicamente mais desenvolvidos do planeta, faltaram à Cimeira os EUA, o Japão, a Alemanha, o Reino Unido, a França, o Canadá e a Rússia. Isto é, apenas compareceu o chefe de governo italiano, Silvio Berlusconi, e suspeita-se que apenas porque era o anfitrião.

As ausências, digo eu, são reveladoras da importância que atribuem ao tema.