O filho de Deus
O filho de Deus sobreviveu
revigorado com o sopro divino.
Chegou ao seio da mãe
onde algumas gotas de leite
lhe seguraram a vida
e
sadicamente
o impediram de seguir logo
directamente
sem necessidade de vir a sofrer
as provações de todo um futuro
incerto e traiçoeiro
para a garantida felicidade eterna.
Passaram os anos.
Um dia meteram-lhe uma coisa na boca
e disseram-lhe que era Deus
como se Deus coubesse na sua boca!
como se Deus coubesse na sua boca!!!
O mar
infinitamente mais pequeno do que Deus
não cabe em todas as bocas juntas!
Também lhe disseram que era filho de Deus.
Ou gozaram com ele
ou pretenderam fazê-lo acreditar em paranóias.
Como se Deus andasse por aí
a fazer filhos como ele!
Seria preciso que fosse um Deus muito fraco
e irresponsável.
Revelaram-lhe
ainda
que sua mãe era virgem
o que ele não era capaz de entender.
Deus
pelos vistos
seu Pai
ao gritar ao mundo que crescesse
e se multiplicasse
ou se enganara
ou se arrependera
ou estava a gozar
ou fora vítima de contradição.
Disseram cada coisa
que ele chegou a pensar
que mandava nos pássaros
que era capaz de pôr as cobras de joelhos
e que o céu era trigo limpo.
Sendo ele filho de quem era!
Apesar de tudo
sempre foram para ele um tanto estranhas
as atitudes de seu Pai.
Porquê tanto medo do inferno lá de baixo?
O inferno lá de baixo
o das almas penadas
perante o grito de sofrimento dos povos
imbuídos da fé
que tanta e tanta felicidade lhes trouxe
nestes místicos séculos
até parece que não é tão mau como o de cá.
Talvez o diabo não seja como o pintam
os sagrados comungadores
não tanto da hóstia como do ouro.
Eles acham que os espoliados ainda têm pele
eventualmente rentável
e utilizável para fazer tambores
e Deus parece concordar
a avaliar por tudo o que se vê.
E ele começa a ter vergonha de ser filho de Deus
porque nenhum filho gosta que o pai o atraiçoe.
Mas a vida continua
na sua tradicional canção de louvor a Deus.
Ele pensa que seu Pai enlouqueceu
ou perdeu a vergonha.
Ele
que é omnipresente
omnisciente
omnividente e omnipotente
optimiza facciosamente
as condições de vida dos fortes e dos ricos
para que não sofram.
Cria
descaradamente
todas as condições para que as catástrofes
as Torres de Babel e os dilúvios
se abatam sempre sobre as cabeças dos mais fracos!
Tal filho não entende tal Pai!
A estupidez invade a cidade
como uma avalanche de merda
e seu Pai permite que façam dela a bandeira
com que a metafísica apodrece a razão
de todos os criados e reciclados
à sua imagem e semelhança.






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