Viver ou ser vivido?

Estar na fila da caixa de um supermercado e, enquanto se espera a vez, acender um cigarro e começar a fumá-lo, equivale, na percepção subjectiva dos outros, a tirar uma pistola do bolso.
O escândalo e a estupefacção reprovadora são quase imediatos, a censura instantânea e a ordem para colocar fim pronto à subversão são equivalentes às que suscitaria um assalto à mão armada se, no caso do assalto, não houvesse o risco físico evidente, circunstância que desencoraja os mais esclarecidos.
Fumar um cigarro na fila do supermercado, ou na repartição de finanças, ou até no consultório médico, era um gesto socialmente inócuo, ou mesmo prestigiante, até há poucos anos atrás. A transformação que se operou na representação social desse gesto, e na sua percepção subjectiva, foi radical e extremamente rápida. Talvez não haja muitos exemplos de uma tão profunda, ampla e célere modificação no modo como a generalidade das pessoas interpreta um comportamento específico.
Como se fez isto?
Que métodos e meios foram utilizados para introduzir, com tanto sucesso e rapidez, uma modificação tão profunda na avaliação subjectiva de um determinado comportamento, fazendo-o passar da aceitação generalizada para a censura e a repulsa instantâneas?

Teoria dos Fractais

Uma cuspidela no supermercado provoca uma crise política no Governo.

Uma fila de supermercado

é uma colecção de histórias e há umas que parecem mais prometedoras do que outras. Esta até dói.

uma mulher roubou caramelos

Em Milão, no último fim-de-semana, numa cadeia de supermercados, uma mulher de 76 anos foi apanhada pelo gerente a roubar um saco de caramelos. Os caramelos custavam 78 cêntimos. O gerente é um homem de 37 anos e imagina-se que não teve dificuldade em apanhar a mulher. A polícia foi chamada. O gerente denunciou o roubo e a ladra, apanhada em flagrante. A mulher confessou e, humilhada (diz quem escreveu a notícia), admitiu que lhe apeteceu um caramelo mas que não tinha os 78 cêntimos.  O agente da polícia, comovido (também diz quem escreveu a notícia), pagou os 78 cêntimos do seu bolso, a mulher foi embora e alguns clientes aplaudiram. [Read more…]

Os grelos

(Pormenor de quadro de adão cruz)

Eu seguia rua abaixo, pelo lado esquerdo de Sá da Bandeira. À minha frente ia um casal, ela de meia idade, gordinha, ele mais velho, hemiplégico, de bengala na mão direita, arrastando a perna esquerda, pendendo sempre para a direita, trajectória que a mulher ia corrigindo com um pequeno toque na mão dele. Se assim não fosse, as sequelas do seu AVC, à semelhança de um GPS, obrigavam-no a tombar para fora do passeio.

Lá mais ao fundo, frente ao Pingo Doce, o homem, como se uma mola o puxasse sempre para aquele lado, faz, com toda a facilidade um rodopio de noventa graus para a direita, ficando em linha recta com a porta do supermercado. A mulher olha para a direita e para a esquerda (look right  and look left, à londrina) e atravessa a rua, tendo o cuidado de pegar na mão do marido, pois de outra forma, com a sua pendência para a direita, ele iria desembocar dez ou vinte metros acima.

Já dentro do Pingo Doce, resolvi seguir os passos daquele par amoroso, ao mesmo tempo que ia dando uma olhadela às prateleiras que me interessavam. A dada altura verifiquei que o homem parou, olhando insistentemente para o sítio onde estavam as carnes de porco. A mulher puxou-o mas ele resistiu. Apoiou-se na prateleira, encostou a bengala, e com a mão direita pegou numa embalagem contendo uma orelha de porco. Imediatamente a mulher gordinha o dissuadiu dizendo-lhe:

 – nem penses, vou-te comprar uns grelinhos que vi ali e que têm um aspecto do carago!

– Que se fodam os grelos, respondeu ele de forma bem entendível, apesar da fala meia entaramelada.

Só tive tempo de dar meia volta e tapar a boca com a mão, a fim de abafar uma explosiva gargalhada, que eu não saberia explicar aos circundantes.

Um dia de crise

Foi o calor, de certeza. A temperatura subiu muito, o corpo tarda em acostumar-se. A cidade vibrou, houve um tremor, os nervos esticados ao limite. Convulsionaram-se as entranhas da terra, parecia prestes a soltar-se a torrente.  Ouviu-se um zumbido no ar, uma trepidação, qualquer coisa capaz de levar à loucura.  Mas logo vieram as primeiras gotas mornas do aguaceiro.

Foi o calor, mas também a greve que enlentecia os autocarros e os fazia chegar empanturrados, com as costas dos passageiros coladas à porta por onde já ninguém podia entrar. E talvez fossem também as notícias das bolsas no vermelho, da dívida, da bancarrota, do fim do mundo tal como o conhecemos, mentiroso e injusto, mas tranquilizadoramente familiar.

O sem-abrigo que todos os dias fica à porta do supermercado decidiu, pela primeira vez, entrar e sentar-se ao pé dos carrinhos. [Read more…]

Domingo de Páscoa num supermercado para pobres

Passo por um supermercado de uma cadeia de preços baixos, supermercado para pobres. À entrada 3 desempregados pedem-me para lhes comprar uma lata de atum. Ouço-os mal, tenho o mp3 a tapar as orelhas.

É Domingo de Páscoa.

No balcão do talho o empregado engana-se no troco, a seu desfavor. A cliente não aproveita. Olhe que eu dei-lhe 5 euros e está-me a dar troco de 20. Desfaz-se em agradecimentos. Enquanto me atende desabafa comigo. Estou aqui desde as 8 da manhã, nem intervalo para almoço tive. Mas amanhã vou falar com o patrão. Isto assim não dá, um homem não é de ferro.

São quase 19h. Comento para o empregado, filhosdaputa. Compro duas latas de atum. Depois de sair, já na rua, desfaço-me dos agradecimentos dos desempregados. Ligo o mp3. Tiro o modo aleatório. Mudo de música.

Que força é essa que trazeis nos braços, senhor, que força é essa amigos.

O caso do pobre coitado acusado de tentativa de assalto em Almancil

Um estupor de um indivíduo decidiu visitar, fora de horas, um supermercado em Almancil. Fez um buraco na parede como forma de entrar, porque isto de entrar pela porta é algo do passado. A malta agora prefere janelas, telhados ou buracos na parede. Acontece que o buraco laboriosamente executado ficou pequeno. Demasiado pequeno. O fulano tentou passar, ignorando algumas leis da física, e ficou preso no espaço. Nem para dentro, nem para fora. Ali ficou, constrangedor. Metade do corpo dentro, outra fora.

caso_almancil

Quando alguém o detectou, em vez de ajudar o pobre coitado, resolveu primeiro chamar a polícia. Veja-se que pensaram que ele queria roubar o supermercado. Lá por ter ido fora das horas de abertura não quer dizer que o fosse roubar. Ele não tinha culpa do dono do estabelecimento ter vistas curtas e não querer trabalhar 24 horas por dia.

O proprietário, apesar de desconfiar que teria sido alvo de furto, na figura do supermercado, decidiu não apresentar queixa. Consta que não tem muita confiança na forma como a justiça funciona. Vá lá saber-se porque.

Agora, o nosso amigo, injustamente acusado de ladrão, quer processar o dono do estabelecimento por alegadas agressões nas pernas. É certo que com as pernas de um lado e os olhos do outro lado da parede não poderia ver quem eventualmente lhe espetou uns tabefes nas pernas. Mas só pode ter sido o malandro do dono, não é?

Por mim, vou-me solidarizar com o estafermo e até vou fazer uma manifestação de apoio. Sempre senti um certo carinho por quem é injustamente acusado. Conto com todos vós.

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