Um dia de crise

Foi o calor, de certeza. A temperatura subiu muito, o corpo tarda em acostumar-se. A cidade vibrou, houve um tremor, os nervos esticados ao limite. Convulsionaram-se as entranhas da terra, parecia prestes a soltar-se a torrente.  Ouviu-se um zumbido no ar, uma trepidação, qualquer coisa capaz de levar à loucura.  Mas logo vieram as primeiras gotas mornas do aguaceiro.

Foi o calor, mas também a greve que enlentecia os autocarros e os fazia chegar empanturrados, com as costas dos passageiros coladas à porta por onde já ninguém podia entrar. E talvez fossem também as notícias das bolsas no vermelho, da dívida, da bancarrota, do fim do mundo tal como o conhecemos, mentiroso e injusto, mas tranquilizadoramente familiar.

O sem-abrigo que todos os dias fica à porta do supermercado decidiu, pela primeira vez, entrar e sentar-se ao pé dos carrinhos. O segurança, arreliado por ter de parar de trocar SMS com a namorada, foi mandá-lo embora e o outro, com a cara enfarruscada como um limpa-chaminés de uma história de Dickens, um miserável náufrago da revolução industrial,  de nariz arrebitado e boca desdentada, disse que não saía.

Não saio nada. Porra, seu guarda, não saio! Estou a juntar dinheiro para um folhado de queijo, que os daqui são mesmo saborosos.

Parecia um spot publicitário hiper-realista, uma campanha em tempos de miséria e penosa consciência das assimetrias sociais. Não é por eu andar roído de fome, poderia dizer o mendigo, mas os vossos folhados são os mais saborosos. Digno de um Duda, pareceu-me. O segurança levou a mão ao cinto, ajeitou as calças, colocou a voz para dizer bem alto,  enquanto se voltava para o público que seguia a cena nas filas para as caixas:

Então vê lá se ficas aí sossegado que eu estou de olho em ti.

E afastou-se com os braços afastados do corpo, com as pernas afastadas uma da outra, como se o corpo que tanto trabalhara não fosse suficiente para conter toda a sua imponência. A firmeza do seu carácter. A dureza tocada por uma sensibilidade canhestra, como um Rick Blaine de província. Mantinha a segurança para que todos os consumidores continuassem a fazer o que lhes compete sem sobressaltos. Mas não iria ser ele a impedir que um desgraçado juntasse oitenta e nove cêntimos para um folhado de queijo.

E quando o mundo assim recolocado nos eixos parecia pronto a rodar, começou a zaragata lá fora. As brasileiras do salão de beleza, o ucraniano que se mete com elas, o taxista, a vizinha, o reformado que vai todos os dias para a estação do metro matar o tempo a vê-lo subir e descer, as beatas da igreja evangélica, que não podem cortar o cabelo nem usar calças, o hair designer de madeixas loiras e namorados violentos, a dona do café, as putas acabadas de despegar do serviço, todos aos gritos.

As vozes sobrepunham-se, intercalavam-se, buscavam harmonias impossíveis numa polifonia de histeria e solidão. Ouviu-se o zumbido da terra, o seu lamento profundo, a tensão, o estiramento das cordas que sustêm um equilíbrio enganador.

O céu ensombrou-se, antecipando as trombetas  anunciadoras do fim, fez-se um silêncio e não aconteceu nada.  Caíram então os primeiros pingos, veio  a chuva mansa  e apaziguadora. Correram todos para casa, aliviados com o desfecho. Ainda não foi desta.

6 comentários em “Um dia de crise”

  1. A tua escrita está a atingir aquela beleza rara a que só alguns estão predestinados. Com as mesmas palavras que os outros usam, chegas a níveis de escrita de rara beleza. Tens futuro, mulher!

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