Contos Proibidos – Memórias de um PS desconhecido. Mário Soares nos Estados Unidos

continuação daqui

«Mas se a 17 e 18 de Janeiro Mário Soares tivera ensejo de agradecer na Dinamarca o apoio recebido da famíia socialista, logo a seguir, a 19 de Janeiro, seguiria comigo para os Estados Unidos, para uma visita de duas semanas. Apesar de a visita ter um carácter privado, uma vez que, em Janeiro de 1976, Mário Soares não era membro do Governo, viagens e estadias seriam pagas pelos Estados Unidos. O convite partira de Frank Carlucci e o programa da visita seria preparado em pormenor pelo conselheiro da Embaixada, Richard Meton. Incluía o primeiro de uma série de «doutoramentos» políticos na Universidade de Yale, sob os auspícios do prgrama Chub Fellow, visitas às comunidades portuguesas de Massachussets, um encontro com o senador Ted Kennedy, encontros com o New York Times e o Washington Post para conversas «off the record», uma (então) inédita entrevista numa cadeia de televisão traduzida em simultâneo e um encontro no Departamento de Estado com Henry Kissinger, a 26 de Janeiro.
Esta visita, que seria objecto de um curioso protesto da secção de Informação e Propaganda do PCP, incluiu ainda encontros com os presidentes das Confederações sindicais Lane Kirkand e Leonard Woodcock, da AFL/CIO e UAW, respectivamente. Eu só não seria convidado para uma visita que teria lugar no Old Executive Office Building da Casa Branca, com o subdirector da CIA, Vernon Walters, que, por descuido da organização, constava do itinerário entregue aos motoristas.
Durante o encontro com Kissinger, este fez questão de afirmar perante os seus principais colaboradores ter-se enganado em relação a Mário Soares quando o classificou de «Kerensky português». Essa admissão causaria grande surpresa no Departamento de Estado, pouco habituado a actos de humildade do seu Ministro, mas a verdade é que Soares era também, para aquele grande país, naquela época de desorientação nacional, o exemplo do lado bom da política externa norte-americana. (…)
As questões mais importantes que Mário Soares tinha para comunicar aos americanos, para além de lhes estar agradecido e reiterar apoio para o processo de consolidação da ainda frágil democracia portuguesa, estavam relacionadas com a importância das primeiras eleições legislativas marcadas para o dia 25 de Abril de 1976 e com a necessidade de os americanos apoiarem em Portugal a criação de uma confederação sindical democrática, que fizesse frente à Intersindical. Estava na forja o movimento que viria a ser conhecido por «Carta Aberta», exigindo à Intersindical o direito de tendência, e a estratégia sindical que viria a ser definida por Maldonado Gonelha e adoptada pelo Partido Socialista. Daí o encontro com as duas poderosas Centrais sindicais. (…)
Após o seu interregno de Paris e os primeiros tempos da revolução, em que, inadvertidamente, servira de escudo à estratégia soviética, o «filho-pródigo» regressava a casa. Os EUA, ainda obcecados nos anos 70 em distinguir entre os bons e os maus socialistas, tinham decidido dar cobertura ao próximo primeiro-ministro de Portugal, certos de que dessa associação receberiam serviços inestimáveis para a causa ocidental. As previsões do think-tank de Langley teriam oportunidade de mostrar a exactidão da sua aposta.»

Comments

  1. António Carvalho says:

    As verdades devem ser ditas, doa a quem doer e Mário Soares não escapa de ter sido o traidor mais «emblemático» da nossa revolução ao traír os ideais do 25 de Abril de 1974. Lembro-me muito do primeiro-ministro do I, II, III e IV Governos Provisórios, Vasco Gonçalves afirmar que “ou se está com a revolução, ou contra a revolução”!, Mário Soares vendeu-se ao capitalismo e ao imperialismo dos Estados Unidos da América e ao seu amigo Frank Carlucci que ao serviço da CIA controlou a nossa GLORIOSA REVOLUÇÃO DE ABRIL! OS EUA são useiros e vezeiros em meter o nariz em casa alheia (países alheios) consoante os seus interesses. Mário Soares, quando primeiro-ministro, aliou-se ao CDS de Freitas do Amaral e fez parte do Governo do Bloco Central com Mota Pinto. O Povo não esquece os traidores!!!


  2. Desde os primordios deste PS (Decorria o ano de 1973, vespera da revolução dos cravos,quando foi criado, e sabe-se agora com o apoio de quem)sempre me pareceu que os interesses defendidos por estes senhores, nunca foram os mesmos do Povo Portugues, ou deste Pais que da guarida a toda a corja de traidores sem pestanejar. Era bom que documentos destes pudessem ser do dominio publico, para se poder aferir o que estes senhores tem feito ao Pais, as suas riquezas e potencialidades, somente em prol deles mesmos, esquecendo quem vota neles, que inconscientemente e co-responsavel pela situação que agora se vive por cá.O povo é sereno esta sempre a espera que seja desta, mas não se iludam, com gente desta e sempre mais do mesmo. ABRAM OS OLHOS.

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  1. […] a um confortável exílio, mas é também por causa das lutas de Soares que podemos hoje falar da sua ligação à CIA e a Kissinger, dos diamantes e da Emaudio, do financiamento da sua fundação e dos erros da descolonização. […]

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