Em Entre-os-Rios a culpa morreu mesmo solteira

Fotografia RTP

Aquando da tragédia de Entre-os-Rios, Jorge Coelho, ministro do Equipamento Social demitiu-se nessa mesma madrugada, justificando a decisão: “a culpa não pode morrer solteira”. Pois bem, a culpa morreu mesmo solteira. Apesar de a comissão parlamentar de inquérito concluir que as atividades de extração de inertes foram a principal causa da queda da ponte, nem os areeiros, nem os seis técnicos que foram acusados de negligência e de violação de regras técnicas foram condenados. Foram todos absolvidos.

De que valeu aquela demissão espetáculo de “a culpa não pode morrer solteira”? Não valeu absolutamente nada. A carreira política de Jorge Coelho não saiu beliscada e Jorge Coelho não fez o trabalho que lhe competia fazer depois da tragédia, que era bater-se para que as famílias das vítimas fossem devidamente recompensadas e a culpa do acidente fosse exatamente determinada. Pensei assim na altura e penso exatamente a mesma coisa no caso da tragédia dos fogos que acabámos de viver. Considero que os ministros deveriam ficar em funções e levar o seu trabalho até conhecermos as conclusão dos relatórios das tragédias. Se há culpas, então demitem-se e são julgados se for caso disso. Em particular, no caso dos fogos e no caso de Entre-os-Rios, há imensas culpas que residem no passado. O que é irónico é que alguns desses com poucas e muitas culpas no cartório andam por aí desgarradamente a pedir demissões (sim, sim, estou também a pensar em Cristas).

Este frenesim de exigir demissões a todo o transe, remete-nos para os tempos em que se sacrificavam cordeiros, virgens ou patifes para expiar a culpa e acalmar os deuses. No século XXI temos obrigação de fazer melhor.

lembro ter escrito que…

analfabetismo activo e passivo entre adultos

Para os meus alfabetizados ao longo de uma cumprida cronologia…

Os iletrados do mundo não lêem, mas falam e falam de tragédias. Foi escrito, se bem lembro, com a minha amiga, orientada de tese e antiga discente, Ana Paula Vieira da Silva. O texto foi resultado de uma conversa ao telefone. A seguir a esse texto, escrevi outro sobre as formas de gerir o ensino em Portugal. Carta Aberta, com respeito e firmeza. Meu Deus! (apenas uma exclamação, não sou homem de fé). As mensagens chegaram em toneladas de mega bytes. Não pararam as mensagens de parabéns, os comentários em prol dessa defesa, acréscimos de congratulações por defender o corpo docente deste meu outro país, Portugal. Mas, estou certo, tenho comigo o texto, esta imensidão não esperada, de com comentários, as cartas, os telefonemas, etc. Nenhum falava dos iletrados. Como diz o meu bom amigo, hoje Doutor em Educação Especial, [Read more…]

Yo bliye peyi nou?

O alucinante ritmo cíclico com que somos bombardeados com tragédias, não nos dá tempo para descansar nem os sentimentos nem a mente. É, tal como a vida em geral, algo frenético e alienante.

Não deixamos de ficar tristes, incomodados até. Mas também não deixamos de comer o bife ou peixe que temos no prato, enquanto pela televisão nos servem orgias de imagens trágicas. Aos poucos vamos ficando como que habituados à tragédia, ganhando uma espécie de imunidade.

Acontece que a tragédia, tal como o sexo, vende. E também vende-se, é verdade. Mas no que toca à comunicação social, a tragédia vende: audiências, tiragens, etc. Ombreia com os escândalos, mas ganha na força das imagens.

Já foi Etiópia, Afeganistão, Timor-Leste, Rodésia, Somália, Bangladeche, Entre-os-Rios, Iraque, Haiti,  etc, etc. Fome, mortes, guerra, sangue, pânico, violência, cataclismos, lágrimas e um pouco mais de tudo quanto urde uma desgraça.

Ainda agora, depois do massivo consumo da tragédia do Haiti, o assunto parece que esgotou. Mas não esgotou a tragédia. Ela continua a existir. Apenas deixou de nos ser servida. E também nós, incluindo os da blogoesfera, também deixamos de “nos servir” dela. Porque o tal alucinante ritmo cíclico não permite continuar a olhar para o “mesmo”, ainda que o “mesmo” não esteja para trás, mas sim ao lado.

Hoje, um haitiano poderia perguntar a qualquer um de nós: yo bliye peyi nou? (esqueceu-se do nosso país?).

Diríamos: não esquecemos, mas agora, e por agora, temos a Madeira. Mas, também ela, irá ser substituída em breve.