Yo bliye peyi nou?

O alucinante ritmo cíclico com que somos bombardeados com tragédias, não nos dá tempo para descansar nem os sentimentos nem a mente. É, tal como a vida em geral, algo frenético e alienante.

Não deixamos de ficar tristes, incomodados até. Mas também não deixamos de comer o bife ou peixe que temos no prato, enquanto pela televisão nos servem orgias de imagens trágicas. Aos poucos vamos ficando como que habituados à tragédia, ganhando uma espécie de imunidade.

Acontece que a tragédia, tal como o sexo, vende. E também vende-se, é verdade. Mas no que toca à comunicação social, a tragédia vende: audiências, tiragens, etc. Ombreia com os escândalos, mas ganha na força das imagens.

Já foi Etiópia, Afeganistão, Timor-Leste, Rodésia, Somália, Bangladeche, Entre-os-Rios, Iraque, Haiti,  etc, etc. Fome, mortes, guerra, sangue, pânico, violência, cataclismos, lágrimas e um pouco mais de tudo quanto urde uma desgraça.

Ainda agora, depois do massivo consumo da tragédia do Haiti, o assunto parece que esgotou. Mas não esgotou a tragédia. Ela continua a existir. Apenas deixou de nos ser servida. E também nós, incluindo os da blogoesfera, também deixamos de “nos servir” dela. Porque o tal alucinante ritmo cíclico não permite continuar a olhar para o “mesmo”, ainda que o “mesmo” não esteja para trás, mas sim ao lado.

Hoje, um haitiano poderia perguntar a qualquer um de nós: yo bliye peyi nou? (esqueceu-se do nosso país?).

Diríamos: não esquecemos, mas agora, e por agora, temos a Madeira. Mas, também ela, irá ser substituída em breve.

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