lembro ter escrito que…

analfabetismo activo e passivo entre adultos

Para os meus alfabetizados ao longo de uma cumprida cronologia…

Os iletrados do mundo não lêem, mas falam e falam de tragédias. Foi escrito, se bem lembro, com a minha amiga, orientada de tese e antiga discente, Ana Paula Vieira da Silva. O texto foi resultado de uma conversa ao telefone. A seguir a esse texto, escrevi outro sobre as formas de gerir o ensino em Portugal. Carta Aberta, com respeito e firmeza. Meu Deus! (apenas uma exclamação, não sou homem de fé). As mensagens chegaram em toneladas de mega bytes. Não pararam as mensagens de parabéns, os comentários em prol dessa defesa, acréscimos de congratulações por defender o corpo docente deste meu outro país, Portugal. Mas, estou certo, tenho comigo o texto, esta imensidão não esperada, de com comentários, as cartas, os telefonemas, etc. Nenhum falava dos iletrados. Como diz o meu bom amigo, hoje Doutor em Educação Especial,

José Manuel Pombeiro Filipe, em texto privado, para comemorar o 25 de Abril de 2008: andamos a defender a nossa profissão

Concordo em defender a profissão, mas não nos podemos esquecer que para haver docentes, são necessários discentes. Hoje em dia, sabemos que existem mais a ensinar do que a ouvir. A população já não consiste nessa multidão de crianças tão característica, dado que estamos a querer parecer um país europeu. Portugal começa a ser um país de velhos. As salas de aulas cheias de crianças, tal como na minha infância, já não existem. Ou ainda, quando as crianças eram retiradas das aulas para irem trabalhar. Nesta dicotomia do sexo, para entendimento geral, para as raparigas a escolaridade obrigatória ficava-se no primeiro ano. Como refiro em livros meus, na sequência de trabalho de campo na Beira Alta, ao longo de anos, a viver em Vila Ruiva, São João do Monte, concelho de Nelas, e visitas as aldeias da Guarda e Covilhã.

É ai que facilmente me lembro do problema maior do país: o analfabetismo. Poucos sabiam ler e escrever. O trabalho empurrava a criançada para as cidades à procura de emprego. Nem ler nem escrever. Os que sabiam, nem tempo tinham para se sentar a ler uma revista, um jornal ou um romance. Não peço leituras de José Saramago, António Lobo Antunes, Agostinha Bessa Luís, José Gomes Ferreira ou Eugénio de Andrade. São livros que eu denomino da cultura doutoral de Portugal. Mas, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Júlio Dinis, do século XIX, a passagem entre séculos de António Botto, e Aquilino Ribeiro, do século XX. Fazem parte da nossa memória ou biblioteca cultural nacional, da literatura clássica portuguesa Para aqueles com tempo para ler, recomendo Emília Traça, Margarida Rebelo Pinto, Fátima Lopes, Rita Ferro e Ana Zanati, ou Manuel Alegre ou Jacinto Lucas Pires. Enquanto se debate a crise económica e o matrimónio homossexual, o povo não lê, remete este debate para um problema doutoral, é parte do analfabetismo, o qual teve uma descida acentuada no fim da ditadura, pelas preocupações inerentes ao 25 de Abril de 1974. No entanto, no entanto…..

O mais duro, é o analfabetismo dos que sabem ler e não praticam esse saber. Nem para ler textos às crianças, ou para explicar aos outros como se pode ler um livro. Ao longo de vastos anos de ensino académico, tenho tido sempre a preocupação de explicar como se lê um livro: o índice primeiro para saber do que trata, a síntese da editora, na denominada “orelha do livro”, o título, que é sempre uma hipótese e nunca, mas nunca, o fim antes do começo: o livro perde interesse. O melhor remédio para o analfabetismo activo, é sentar – se com a descendência para fazer circular o livro de um para o outro, com a suave e doce correcção do adulto, que nunca, mas nunca outra vez, faz pouco de quem lê mal. A família é o melhor sítio para trocar livros e ler em conjunto durante um par de horas pelo menos, com amor e carinho.

O analfabetismo passivo tem remédio. Não foi em vão que se criou a Universidade Popular, com Agostinho da Silva, com Manuel Vieigas Guerreiro, eu próprio, a passar as tardes com os novos ou menos novos que queriam aprender. Ou com Denisse Becker e Pierre Bourdieu, para grupos imigrantes em Paris e franceses que queriam saber. Ou ainda no Chile, com Paulo Freire e Paulo de Tarso, para camponeses.

Defender a profissão é alfabetizar. Alfabetizar, é retirar do fundo da memória o que já se sabe e pô-lo por escrito. Alfabetizar é debater, como debatíamos vezes sem fim, com o meu falecido amigo Paulo Freire, enquanto andávamos pelos campos do Chile.

Defendamos a profissão. Formemos escolas para adultos, como os grupos políticos que nos governam andam a debater agora. Com a falta de escolas no interior do país, e as consequentes distâncias que as crianças devem percorrer para frequentar uma, até fico surpreendido como é que a percentagem não aumentou. Defendamos a profissão alfabetizando activamente!

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