EB 2,3 Professor Óscar Lopes: Carta Aberta subscrita por docentes e não docentes, após os incidentes ocorridos a 30 de Janeiro de 2013


Morreu um de nós: um daqueles que zelava pela segurança de todos (alunos, funcionários e professores); O nosso elo mais forte, em pleno exercício das suas funções.

Para evitar que um aluno maltratasse um colega fazendo perigar a sua vida, durante a aula, mesmo perante a pronta ação do professor e de um funcionário, foi pedida a intervenção dos vigilantes da escola, para que fosse conduzido à Direção Executiva para que esta acionasse os técnicos da Escola Segura.

Desde o início do comportamento, de extrema violência, materiais foram destruídos, funcionários e docentes ameaçados de morte verbalmente e agredidos fisicamente.

O esforço dos vigilantes em controlar tais atitudes foi imenso mas não conseguiram evitar a destruição descontrolada de mesas, quadros, armários, cadeiras e os atos de ataque físico.

Já na Direção Executiva, e perante o continuado comportamento violento, o vigilante Correia manietando o aluno, manteve-se como pilar determinante na segurança física de outros elementos da comunidade educativa, que tentavam também intervir. Mais de dez pessoas tentaram, sem sucesso, conter o aluno!

Assim, perante uma violência física e emocional tão demorada e brutal o vigilante Correia colapsou.

De imediato foi assistido por professores e funcionários que lhe fizeram as manobras de reanimação (respiração boca a boca e massagem cardíaca) até à chegada do INEM, que prestou toda a assistência possível que, no entanto, se mostrou ineficaz para salvar o Sr. Correia.

Estamos profundamente abalados e consternados com o falecimento do colega em pleno exercício das suas funções, num local, por excelência, educativo, onde uma morte nesta situação é inaceitável.

Estamos de luto, estamos perante algo que não conseguimos aceitar e, por isso, não sentimos capacidade de gerir emocionalmente uma situação tão dramática; estamos na escola sem darmos aulas, incapazes de pedagogicamente abordar o assunto junto dos restantes alunos. 

Todos os que se encontravam na escola ficaram em choque. Como pode isto ter acontecido numa escola? Que ambiente se vive? Que aprendizagens se fazem quando há quem possa frequentá-la enchendo-a de ameaças e de violência?

O contexto escolar do Agrupamento está pormenorizadamente descrito no Projeto Educativo. Todos os profissionais que nele trabalham estão conscientes do universo em que se movem e procuram por todos os meios ajudar a orientar crianças e jovens de um meio problemático, com fragilidades várias, com comportamentos difíceis de gerir. Temos uma equipa técnica preparada e muito ativa, no âmbito dos recursos TEIP. Lidamos com os problemas que vão surgindo e conseguimos muitos resultados positivos.

No entanto, há sempre um pequeno número de alunos, bem identificados na escola, que ultrapassam todos os limites do aceitável numa comunidade escolar, pois põem em risco os seus membros, a nível físico e psicológico, de forma sistemática: não aceitam a autoridade de ninguém, pelo que não cumprem as regras da escola, nem as mais básicas de convivência; ameaçam; aterrorizam; agridem.

Em relação a estes alunos já tudo foi feito, desde as estratégias aplicadas pelos professores e pelos diretores de turma para motivar o aluno para a aprendizagem e para a socialização, passando pelas medidas previstas no Estatuto do Aluno, completamente ineficazes para estes casos. Tiveram a intervenção do SPO, GAAF, ADEIMA, CPCJ, Tribunal de Menores. Aos diretores de turma são pedidos relatórios, pareceres, esclarecimentos de todos estes organismos. Enquanto isto acontece e durante anos, a situação destes alunos na escola mantém-se inalterada, até os jovens saírem da escolaridade obrigatória ou terminarem o ciclo de estudos. Isto é, embora várias instituições estejam envolvidas, a escola tem de manter os alunos ou transferi-los para outras escolas, deslocando o problema, não resolvido, para os outros. Estes continuam assim a ameaçar e a agredir colegas, funcionários e professores, continuam a impedir os colegas das turmas em que estão inseridos de poder ter um ensino de qualidade, minando as aulas. Têm e criam um sentimento de poder ter impunidade e de ausência de limites, que é o oposto do que lhes deveria ser ensinado.

A escola regular não pode dar a estes alunos a resposta de que eles precisam. A tutela não está a cumprir o seu papel, que inclui o de resolver a situação destes alunos e o de proteger o direito à educação e à integridade física e psicológica de todos os outros e de quem trabalha nas escolas.

Por estes motivos, dirigimo-nos à Tutela, exigindo que, com a maior urgência, se debruce sobre este problema e o resolva eficazmente, criando acompanhamento adequado às crianças e jovens com comportamentos disruptivos, que põem em riscos elementos da comunidade escolar em que se inserem. Este acompanhamento terá de implicar o afastamento destes jovens das escolas regulares e a sua integração em ambientes controlados, específicos e preparados para este tipo de perfil psicológico.

Morreu o Sr. Correia, dizemos. Já tinha problemas de saúde, dirão. Nos olhos uns dos outros lemos «Mataram o Sr. Correia».

Matosinhos e EB 2, 3 Professor Óscar Lopes, 31 de janeiro de 2013

Assinatura de docentes e não docente

EB 2, 3 Professor Óscar Lopes Carta Aberta subscrita por docentes e não docentes, após os incidentes ocorridos a 30 de Janeiro de 2013

Comments

  1. Tenho aquela sensação parva de que se gasta muito tempo e dinheiro a mimar certo tipo de “alunos”; que noutro tempo os problemas se resolviam de forma mais duradoura e eficiente; que a Escola de agora vem criando flores-de-estufa, de mau cheiro, e a quem nada pode ser dito ou feito porque se melindram e podem murchar.
    Ora porra lá esta geração de meninos-ao-colo…

  2. Adriana says:

    Era meter esses estupores de alunos a trabalhar no campo com chicotes para ver o que é bom para a tosse.

  3. a.sameiro says:

    bastão de 70 cm

  4. Humberto says:

    Os culpados ficam sempre, neste como noutros crimes públicos, impunes. E os culpados têm nomes: políticos! A culpa desta situação social toda é dos partidos e tudo e todos os que se alimentam em seu redor. Enquanto eles não forem banidos não conseguiremos sair deste atoleiro cada vez mais enlameado… também fico de luto… um familiar meu tem essas funções!

    • Pedro Marques says:

      Governantes. Não ponha todos no mesmo saco, não seja palerma e não se deixe ir por aquilo que o governo apoia, que são todos iguais

  5. gracinda maria de sousa e silva freitas castanheira says:

    Alguém dirá que foi apenas um caso. Pode ser verdade, mas muito mais verdade é que casos de alunos destes existem em grande quantidade. Claro que tem de haver respostas para estes seres, mas atenção , o nº é muito elevado e o desgaste dos profissionais é demasiado. Eles tem direito a ter uma resposta social , mas todos os outros alunos e todos os profissionais da educação precisam e têm direito a um ambiente de mais calma e menos stress que possibilite o ato educativo e a sanidade física, mental e emocional das comunidades educativas.Muito preocupante estes casos que são muitos e proliferam cada vez mais.

  6. a.sameiro says:

    qual resposta social????não colaboram fiquem analfabetos,BASTA!!!!!!!!!!!!!!!!

  7. Enquanto se privilegiarem os maus em detrimento dos bons……..não sairemos deste atoleiro!

  8. Reblogged this on A Arte da Omissao and commented:
    Urge uma grande reflexão sobre as causas de tanta violência juvenil a nível mundial.
    Não estaremos perante o reflexo da sociedade que nós (os grandes) construímos?
    Uma Sociedade asfixiada pelo capital e que dia a dia perde valores essenciais como, capacidade de dialogar olhos nos olhos, privacidade, real amizade (não o amigo do facebook), convívio familiar (desligue-se as televisões às refeições)…
    Sendo a nossa sociedade um palco de contradições e incoerências, de que forma as nossas crianças (futuros jovens) as assimilam?

  9. Pedro Marques says:

    Deixe o acordo ortográfico, não seja masoquista.

  10. Rita Costa says:

    Quando andava no 5º ano, a meio de uma aula de EVT, um segurança da escola – por sinal, tal como o Sr. Correia, também uma pessoa muito querida por alunos, professores e funcionários – entrou pela janela da sala de aula e fechou-se na arrecadação durante alguns minutos. Os professores e nós, alunos, perguntávamos o que se passava e ele, assustado, dizia que não queria sair porque tinha medo. O senhor, que coxeava, estava a ser perseguido por pessoas da família de um aluno. Tal aconteceu após uma briga entre esse aluno e outro – este senhor tentou separa-los e impedi-los de se agredirem ainda mais. Foi um incidente infeliz,mas não tomou as proporções do caso do Sr. Correia.
    Como o caso do segurança da minha antiga escola básica,sei de muitos outros casos. Mas este tocou-me especialmente. Ainda me arrepio cada vez que leio sobre o assunto.
    Numa escola onde sei que os alunos têm aceso a todo o tipo de recursos, a todo o tipo de aprendizagens e formas de aprender, onde sei que existem professores que se dedicam verdadeiramente não só para os ensinar como também para os motivar a quererem aprender, os comportamentos disruptivos permanecem e assumem dimensões fatais… Não há recursos materiais e empenho no que respeita a recursos humanos que valham quando se trata de crianças/ adolescentes que após uma situação tão grave como esta acabam, serenamente, a fazer “v de vitória” com os dedos e a dizer frases que me chocaram profundamente e que nem me atrevo a reproduzir. Tudo isto num sistema onde, os professores se vêm com faltas injustificadas por ir ao funeral de um funcionário, de um ser humano, que morre nestas condições.
    Tudo parece errado…tão errado, que até eu que normalmente sou a primeira a desdobrar-me em justificações para comportamentos disruptivos, – com base naquilo que fui observando ao longo das minhas experiências de voluntário e de estágio com crianças sinalizadas como “problemáticas” – não consigo deixar de me sentir extremamente angustiada perante a morte de uma pessoa que não conheci.
    É necessário e urgente uma intervenção com as crianças e adolescentes, mas também com as famílias, cuidadores (e, obviamente, com as instituições, no caso dos que estão institucionalizados), através de equipas multidisciplinares onde professores, psicólogos, educadores sociais e outros profissionais de terreno, em harmonia uns com os outros, possam agir de perto por forma a evitar tragédias como esta e, além disso, trabalhar com miúdos como este depois de situações graves ocorrerem, para que sejam conscientes da intensidade dos seus actos e que assumam as consequências disso e, idealmente, se arrependam e se tornem pessoas melhores). Mas, neste momento, é também necessário e urgente uma intervenção junto daqueles que viveram esta história infeliz. Imagino que estes alunos, funcionários e professores necessitem de uma intervenção terapêutica neste momento, pois parece-me impossível que alguém que tenha assistido a esta experiência traumática esteja bem.
    E, sobretudo, não podemos deixar que esta situação seja esquecida.

    [Vote]

    • deve andar tudo mamelouco says:

      bolas pá num dia é morte à bófia

      e no outro quando matam a bófia na reformA fica tude triste?

      sinceramente a bófia é inimiga do povo

      é atirar-lhes pedras como diz a estiva dos b-loukos

  11. O exercício da liberdade individual pressupõe o respeito escrupuloso de valores inalienáveis que, a geração a que eu pertenço ( adolescentes de 74 ), não soube transmitir aos seus filhos. O exercício da liberdade está confundido com libertinagem, como aqui está evidente.
    Urge que que se penalize de forma efectiva comportamentos transviados e que os Pais assumam a responsabilidade da Educação dos filhos.
    A escola não é depositário de adolescentes, deve ser um local de instrução mais do que educação; a educação cabe, em primeira linha,
    aos pais, à família.

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