A máquina do tempo: em demanda de Eça* (5)

Eça está visivelmente cansado. Sem embargo da lucidez com que continua a responder, interrompe-se frequentemente para respirar, para tossir. À porta surge a D. Emília fazendo-me sinais para que termine.

– Uma última pergunta. Ao cabo destes anos de luta pela língua e pela literatura portuguesas, sente-se devidamente recompensado?

– Sabe, se eu tivesse nascido em França e dado romances ao Petit Journal, possuiria talvez 60 000 francos de renda.

– Sente-se então arrependido.

– De certo modo… a guerra da literatura é uma luta bem vã quando se empreende com uma pena na mão, em língua portuguesa. Todo o meu erro foi, quando era moço e forte como você, não estabelecer uma mercearia para o que aliás tenho jeito e gosto. Estava agora gordo e sossegado, com o toucinho que cobriria o meu balcão e, se você por lá aparecesse, eu diria com delicada superioridade: «Ó Sr. jornalista, temos aqui um queijinho que é de se lhe arrebitar a orelha. E seria o céu aberto! Mas enfim, agora é tarde para chorarmos sobre carreiras erradas…

– Arrependido?

– Não, meu amigo. Chalaceava apenas. E quando, há dois anos, cheguei à minha janela do Rossio para ver o cortejo cívico do centenário de Camões e a multidão me aplaudiu, senti que, afinal, nem tudo tem sido em vão.

Da porta, D. Emília com sinais mais incisivos, exige-nos que terminemos. Muita coisa falta ainda perguntar a Eça. Porém, o seu ar fatigado, a tosse, a voz que enfraquece, não aconselham a que continuemos. Agradeço a afabilidade com que nos recebera e se prestara a responder ás nossas perguntas. Confessa-nos que sempre teve paixão pelos jornais e que, na realidade, me considera um camarada de profissão, pois também ele na juventude fez jornalismo. Agradecemos, despedimo-nos, desejamos melhoras. Julgo ter conseguido disfarçar a enorme tristeza que a visão da ruína física de um espírito tão brilhante em mim provoca.
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De regresso ao centro de Paris, o Sousa lá me convence a sacudir a angústia que a visão de um Eça moribundo me causara e a dar uma volta pela Exposição. Uma vasta área, entre a Concórdia e o Campo de Marte, com pavilhões e palácios fantásticos. Uma viagem reproduzindo o caminho-de-ferro Transiberiano, entre Moscovo e Pequim, um cruzeiro pelo Mediterrâneo, a projecção num ecrã com quase trinta metros de largura dos filmes de Louis Lumiére, etc.. etc. Subo ao cimo da Torre Eiffel. À noite, a «fada Electricidade» que preside à Exposição, surge sob a forma de dezenas de milhares de lâmpadas num espectáculo feérico, inesquecível .

Durante a conversa, Eça dissera:

– Paris já não é aquela cidade ligeira e luminosa. Agora está muito grosseira de aspectos, de modos e de ideias – e completamente negra! – Dizem os entendidos que é por causa do imenso número de fábricas – e porque Paris se vai tornando uma cidade cada dia menos intelectual e mais fabril. Já parece o século XXIII! Deus nos dê paciência para aturar a civilização!
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Novamente em Lisboa, que agora me parece ainda mais provinciana, dado que a vejo um pouco através dos olhos implacáveis de Eça. Desde que cheguei, o major Neves todos os dias me pede os linguados com a entrevista. Não me arrisco a dizer que estão pendentes seja do que for. Prometo levar-lhos impreterivelmente hoje à tarde. Impreterivelmente é uma das expressões típicas do Neves.

Na realidade, trouxe um aluvião de apontamentos com as respostas do mestre e tenho estado a organizá-los, de maneira a dar uma forma coerente ao texto. No meu quarto da Rua dos Fanqueiros vejo a cidade sob um manto de calor. Os ruídos dos choras, dos vendedores ambulantes, chegam difusamente à minha água-furtada. Continuo a escrever. O Neves terá hoje à tarde a sua entrevista e talvez ainda a possa meter na edição de amanhã.

Olho o telegrama que o boletineiro me acaba de entregar à porta. Sousa é lacónico: «Eça de Queirós morreu ontem entardecer. No Orfanato vizinho crianças cantavam Miserere».
Saio para ir à redacção entregar a entrevista ao Neves. Amanhã a minha prosa terá, pela primeira vez, honras de primeira página. O dia está bonito, quente e luminoso. Os choras e os americanos percorrem as ruas tilintando.

Na Rua dos Douradores há carroças, cheiro à urina e aos excrementos dos cavalos. Dois galegos de corda ao ombro estão à esquina da Rua da Assunção conversando. Desço a Rua de Santa Justa. Da porta Café Patinhas, fumando um charuto, o Lopes, um rapaz que estudou comigo em Coimbra, grita-me uma tontice qualquer. A Rua Augusta, a Rua do Ouro são percorridas por carruagens e trens de praça. Começo a subir as escadas do elevador, rumo à Rua do Carmo.

Tudo está na mesma. Lisboa, o país e o mundo estão completamente indiferentes à morte de Eça. Os navios fazem-se ao mar, nos bancos as letras são descontadas, as fábricas laboram, o comércio vende… tudo segue o seu rumo. Como se não estivessemos hoje muito mais pobres do que ontem!

*Nota: Esta narrativa constitui uma adaptação da biografia ficcionada de Eça de Queirós que publiquei em 2000. Na entrevista imaginária, todas as respostas de Eça foram organizadas com recurso a diversos textos do escritor. E embora em alguns casos se tenham introduzido pequeníssimas alterações de forma e de pormenor, procurei sempre respeitar o conteúdo e a substância das afirmações queirosianas. (Carlos Loures).

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