Uma gaveta que seja sua

Ko Sasaki (The New York Times)

Recorda os ambientes angustiantes de alguma ficção científica. Homens que vagueiam como zombies, num cenário pós-moderno. Um antigo hotel que se vai transformando em edifício de habitação. Pequenas celas, todas iguais, com as mesmas comodidades: uma luz, uma televisão pequena com auscultadores, dois cabides de parede, um cobertor fininho, uma almofada dura.

De refúgio de uma noite para homens de negócios que perdiam o comboio para casa depois de beber uns copos a mais, o Capsule Hotel Shinjuku tornou-se na casa permanente de desempregados incapazes de pagar o que custa um apartamento em Tóquio. O aluguer de uma cápsula custa 59 mil ienes, pouco mais de 440 euros. E com este dado, já podem imaginar quanto custará um apartamento com um quarto.

Um artigo publicado hoje (só disponível em inglês, lamento) conta-nos algumas histórias dos habitantes deste hotel e revela-nos que o milagre económico nipónico começa a deixar destroços. O desemprego sobe, há cada vez mais gente sem casa. Uns dormem em ciber-cafés e saunas públicas. Outros ainda vão conseguindo pagar as cápsulas, em hotéis como o Shinjuku.

É a inversão dos valores da economia de mercado. Depois do hiperconsumo e da acumulação de tralhas, chega o despojamento forçado. Tudo o que se tem deve caber nos cacifos disponíveis nos espaços comuns. O que sobra passa a ser supérfluo. Por pouco mais de 400 euros, tem-se direito a uma gaveta com televisão.

Comments

  1. Longre de mim, Carla, dizer que isto está bem. Uma gaveta com televisão, ou dizer que a felicidade está no despojamento forçado, mas talvez seja pedagógico o mundo chegar à conclusão de que a felicidade não está no ter, mas no saber viver com pouco. Não desta forma, imposta cruelmente por um mundo selvaticamente competitivo, mas como fruto de uma cultura de sábia contenção, e de um novo e lúcido entendimento da vida.

  2. Luis Moreira says:

    Carla e Adão, é este fenómeno que verdadeiramente mudará o mundo. Nunca o soube dizer assim, mas quando gerações de seres humanos sentirem na pele que não passam de seres ” usa e deita fora” o sistema mudará, mas é preciso, primeiro, que o ser humano tenha consciência que isso pode acontecer a qualquer um de nós.
    Na grande depressão dos anos 30 saltavam dos arranha céus, homens e mulheres que meia hora antes eram milionários…

  3. Luis Moreira says:

    Já gora. Uma vez fui ver fábricas à região da floresta negra (foi aí que vi o primeiro computador, um engº a desenhar um depósito para enterrar ) e pela primeira vez senti o que a Carla transmite no texto. O meu quarto de hotel era pré-fabricado, a casa de banho saía toda por completo, estava encaixada, Para tomar banho só cabia se não me agitasse muito, e para me secar com a toalha tinha que sair para o quarto, que ficava imediatamente cheio.Lá estava a TV. O pior é que nunca tinha visto um edredon e passei uma parte da noite a telefonar para a portaria para me mandarem umas mantas…

  4. maria monteiro says:

    O hotel Cabinn em Copenhaga, onde estive uma vez com a minha irmã, tinha um painel na porta de entrada do quarto/cabine com as indicações para arranjarmos o espaço para dormir, comer, tomar banho… um autêntico desatino

  5. madalena says:

    suponho que a fase do hiperconsumo individualista está prestes a chegar ao fim..
    os meus sentimentos relativamente a isso são ambiguos : sabe bem ter um carro , uma casa , um pc , uma tv e montes de outras coisas só para nós ; por cada uma destas coisas vamos perdendo imensas ocasiões de partilha com pessoas.
    claro que do ponto de vista do pib , e do nosso egoísta interior , quanto mais bens tivermos para disfrutarmos sozinhos é óptimo , mas do ponto de vista humano acho que fomos ficando cada vez mais pobres.

    (achei giro uma noticia que li -há sempre alguém com belissímas ideias – penso que era em bruxelas ( não tenho a certeza) que pode fazer com que volte a haver um carro por família : alugam carros à hora , días , semana ou mais , a preços mais baratos que taxi.)

  6. Luis Moreira says:

    Madalena, tambem li. As ideias começam a surgir, o que mostra que as pessoas já perceberam que este caminho não é mais possível…

  7. maria monteiro says:

    A carris já tem a funcionar o aluguer de carros à hora http://www.mobcarsharing.pt

  8. maria monteiro says:

    os táxis são sempre mais cómodos porque somos conduzidos e deixam-nos à porta de qualquer lado onde tenhamos que ir.

  9. madalena says:

    mas , Maria , taxi dá jeito quando sabemos onde queremos ir. imagine sabádo à noite : o puto , que até vai para a escola de metro , quer dar umas voltas com os amigos , ou quer fazer um fim de semana diferente no Minho. levar o taxi atrás saia muito caro. ter um carro só para ele , seguros , manutenção e tal , também. esta solução do aluguer barato é ideal para quem não precisa de carro todos os dias.

  10. maria monteiro says:

    um puto que queira ir dar umas voltas com os amigos, mas que não esteja habituado a conduzir, mas que não perceba que se conduzir não beba … o melhor é passear com os amigos mas utilizando pacotes de viagens/ou o faça você mesmo… é económico e mais seguro.

    Há uns bons anos era hábito as nossas gentes, que trabalhavam além fronteiras, alugarem carros para virem de férias para Portugal. Era a único mês que conduziam, a vontade de partir e de chegar nem sempre era boa conselheira…

  11. Maria Alice tanigushi says:

    pelo amor de Deus! Corrijam isso…não é 59 mil yenes e nem 440 euros.
    Correto é: 5.900 yenes e 44 euros.
    Se liga ai cabeção!!!! rssssssss

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