Nas mãos dos abutres

Desde a década de 1960, existem em Espanha as “Viviendas de Protección Oficial” (VPO), casas cuja renda tem um valor limitado, estabelecido por lei, e a que apenas têm acesso cidadãos que reúnem certos requisitos. O objectivo é garantir que pessoas com rendimentos baixos tenham acesso à compra ou arrendamento de habitações dignas a preços acessíveis. A gestão destas VPO depende de cada uma das comunidades autónomas.

Em Julho de 2013, a Comunidade Autónoma de Madrid, vendeu 1.860 (um terço) das VPO que possuía em regime de arrendamento à norte-americana Magic Real Estate-Blackstone Group International Partners, por 125.5 milhões de euros. A Blackstone é aquilo a que se chama “fundo abutre”, fundos de capital de risco que investem em dívida pública de estados ou empresas em risco de falência. Compram títulos de dívida por valores abaixo do seu valor nominal num mercado secundário para depois pressionar as entidades devedoras a pagar o valor restante. [Read more…]

A banca ganha sempre

A notícia dá conta de que o Tribunal da Relação de Évora decidiu que a entrega de um imóvel ao banco não extingue o empréstimo para habitação quando a venda do imóvel é inferior ao valor em divida, e ordenou a penhora de salários.

Sem conhecer o caso, e apenas com base no que a notícia conta, constata-se a perfeição do sistema, qual engrenagem sofisticada de relojoaria suíça. Reparem: foi o próprio banco, o BCP, a comprar a casa que os antigos proprietários não podiam continuar a pagar. E como era o único interessado, comprou-a, claro está, abaixo do valor do empréstimo e até abaixo do valor da sua própria avaliação. Resultado: os devedores ficam sem casa, com uma dívida de 25.500 euros e os salários penhorados.

A cereja em cima do bolo: o valor do processo não permite recorrer para um tribunal superior.

Caso encerrado, a banca voltou a ganhar.

Foto: André Pais

Nestas casas houve gente

imoveis da banca
Imóveis da banca, retratos arrepiantes de casas penhoradas por André Pais, via P3.

Pura sacaníce

Um amigo meu tem uma mercearia, comprada com recurso a crédito bancário. Quando a comprou era uma loja simples e ele trabalhou no duro para lhe dar valor e ganhar uma clientela. Ao fim de dois anos quis seguir outra vida e decidiu arrendá-la, tendo encontrado um interessado. Acontece que, de acordo com o contrato assinado com o banco, o arrendamento só seria possível com a autorização deste. E o banco não autorizava o arrendamento, excepto se o spread fosse revisto em alta. A proposta do banco, cuidadosamente preparada, significava que toda a renda recebida pelo meu amigo ia direitinha para o aumento de spread. Ou seja, o banco, que já estava a ganhar com o empréstimo bancário, queria ficar o lucro que o meu amigo poderia vir a fazer graças ao seu trabalho.

Vem isto a propósito da notícia da proibição do aumento do spread em caso de arrendamento de imóveis com crédito à habitação associado  não ter sido «bem recebida pelo sector financeiro». [Read more…]

Bom ambiente

No Dia Mundial do Ambiente, só me ocorre dizer da importância de procurar criar “bom ambiente” nos lugares que são as nossas «casas», quer sejam elas permanentes ou temporárias, físicas ou virtuais!!

Penso, sobretudo, no local de trabalho. Que ele seja, com o nosso pequenino contributo, um espaço onde a convivência com os outros é agradável, saudável, «respirável», positiva, acolhedora. E isto só é possível se houver humildade, se se souber pedir desculpa, elogiar, agradecer e conviver.

Mudar de casa, de casa, de casa

Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo

Há pessoas que nunca mudaram de casa. Outras, como eu, quase perderam a conta às casas que habitaram. Mudo agora para uma casa a pouco mais de quinhentos metros da anterior, onde vivi doze anos, um recorde absoluto para mim.

São doze anos de objectos acumulados, de coisas com maior ou menor valor, de lixo, de inutilidades guardadas, de pequenas preciosidades, de memórias, de artefactos que pensamos duas ou três vezes se levamos, ou não, para a casa nova. São dezenas de hesitações, bugigangas que deitamos para o caixote do lixo e, passados minutos, regressamos para recuperar e que, pouco depois, rejeitamos de novo.

Doze anos sem mudar de casa são, no meu caso particular, doze anos de papeis acumulados, fragmentos de poemas, frases com sentidos desconexos, pensamentos incompletos, rabiscos, desenhos em guardanapos, apontamentos, números de telefone sem a indicação do nome a quem pertencem, cartões de visita com apelidos e ruas que não recordo, os primeiros (e os segundos e terceiros) bonecos desenhados pelos filhos, as primeiras palavras caligrafadas, trabalhos do dia do pai, postais do dia da mãe, infantilidades do dia da flor. Novas hesitações porque aquelas representações não nos pertencem, somos apenas depositários delas em nome deles, algumas têm de ficar para trás, não podemos levar tudo, há que fechar os olhos e deitá-las fora, ou rasgá-las imediatamente para que o arrependimento não nos vença.

Mudar de casa é fazer contas à vida, sopesar o tempo, despertar memórias, confrontar-se com o apego e o desapego, triar o útil e o inútil, maldizer o consumo excessivo, sujar as mãos no passado, respirar o pó do que já fomos. [Read more…]

Uma gaveta que seja sua

Ko Sasaki (The New York Times)

Recorda os ambientes angustiantes de alguma ficção científica. Homens que vagueiam como zombies, num cenário pós-moderno. Um antigo hotel que se vai transformando em edifício de habitação. Pequenas celas, todas iguais, com as mesmas comodidades: uma luz, uma televisão pequena com auscultadores, dois cabides de parede, um cobertor fininho, uma almofada dura.

De refúgio de uma noite para homens de negócios que perdiam o comboio para casa depois de beber uns copos a mais, o Capsule Hotel Shinjuku tornou-se na casa permanente de desempregados incapazes de pagar o que custa um apartamento em Tóquio. O aluguer de uma cápsula custa 59 mil ienes, pouco mais de 440 euros. E com este dado, já podem imaginar quanto custará um apartamento com um quarto. [Read more…]

Oh as casas as casas as casas*

Percorro essas estradas municipais já quase abandonadas, que a cada ano perdem alguns centímetros para a floresta de eucalipto, e descubro as espantosas casas do interior do país.

Em lugarejos esquecidos, rodeadas de árvores que crescem à revelia dos homens, erguem-se essas construções impossíveis: casarões com telhados de duas águas, jardins perfeitos aos quais nem sequer falta uma descomunal fonte de pedra, chalets improváveis num cenário desolado.

Estas casas estão feitas de cimento e pedra e frustrações longamente sublimadas, de humilhações, sacrifícios, do orgulho apertado nos dentes por muito, muito tempo. Por isso são únicas e incongruentes, não pertencem ao sítio onde estão mas tampouco poderiam estar noutro lugar, nascem e vivem ao lado do cão que fica longo tempo a olhar os forasteiros, do monte de sucata enferrujada, do poço seco, do ribeiro que já arrastou homens mas agora perdeu a força e esvai-se num fio de água enlameada.

É raro ver-se gente nessas casas, ou um baloiço, ou um par de botas no jardim. Como fantasmas, erguem-se solitárias, miragens urbanas no deserto da estrada, a tal ponto que não sabemos se as sonhámos, se desejámos vê-las para nos tranquilizarmos com a presença do humano numa estrada por demasiado tempo deserta.

Casas estranhamente belas, casas sólidas, para resistir aos temporais das serranias, casas que não morrerão tão cedo mas que já parecem quebradas por dentro, sem o sopro vital que também anima as casas. Casas que, na sua solidão altiva e absurda, me parecem, por instantes, um retrato do país, e, também por isso, ainda mais tocantes e insuportáveis.

* “As Casas”, Ruy Belo, Todos os Poemas, Assírio & Alvim, 2000