A tal história

A tal história

 A tal história é muito simples, Carlos. Verdadeira em tudo até nos nomes. É tão real e conhecida na aldeia que não afecta ninguém, se a contar. E conta-se em duas palitadas. Trata-se de um sujeito da minha terra que foi meu doente durante anos e cuja vida conheci, quase do princípio ao fim.

Tinha como alcunha o “palheira”. Era porqueiro, andava com uma carroça a vender e a comprar porcos. Um dia resolveu ir até África, de onde regressou anos depois com uma pequena fortuna, muito grande se comparada com os parcos haveres da nossa aldeia. Vestia bem e comprou um volvo, vermelho e branco, estou mesmo a vê-lo, coisa rara pelas redondezas, e passou a ser o Sr. Tavares, criando em seu redor imensos amigos que o bajulavam e o acompanhavam para onde quer que fosse.

Alguns anos passaram e entre o não fazer nada e o jogo, a fortuna foi-se esvaindo até dar o último suspiro. O Sr. Tavares voltou lenta e insidiosamente a ser “o palheira”, e os amigos sorrateiramente foram debandando, até não restar um único. Só não voltou a carregar porcos na carroça porque, entretanto, a morte, bondosa como é, para não o humilhar com a miséria, se encarregou de o levar para a vida eterna, como “palheira” e não como Sr. Tavares.

Comments

  1. Carlos Loures says:

    Obrigado pela história, Adão. Contém a conclusão moral do costume – «muito tens, muito vales…» Na minha família, passou-se uma coisa semelhante. Nestes casos, os Palheiras gostam de ser promovidos a Sr. Tavares. Habituados a ser espezinhados, aceitam a adulação dos oportunistas que logo aparecem dizendo-se amigos. Até que o dinheiro se esgota e os «amigos» desaparecem. São histórias tristes e que não permitem tirar conclusões elogiosas sobre a natureza humana.

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