Centenário da República: os posters comemorativos (1)

1. A DOCE MÃEZINHA

Mário Soares anda todo ancho, já perspectivando o ciclo de forró comemorativo que se avizinha. Assim, vai avisando que apenas serão comemoradas as duas repúblicas do imaginativo esquema vigente, deixando a mais longa e duradoura, como coisa esquecida no limbo da conveniência. Olvida assim, aquela que foi precisamente a 2ª República, – a actual, queira ou não queira, é mesmo a terceira – quem solidificou a instituição, tornando-a corriqueiramente respeitável e alçando os Venerandos à semi-divina condição de entes intocáveis, de que aliás, Mário Soares muito beneficiaria.

A sua questionável coerência, deixa-nos por vezes pérolas de inestimável valor republicano e nos meandros do texto que hoje o Diário de Notícias publica, encontra-se esta saborosa justificação para o dinástico alçar do sr. Artur Santos Silva à presidência da Comissão Oficial do Centenário:

“O Governo decidiu – e bem – constituir uma Comissão Nacional para as Comemorações, presidida pelo Dr. Artur Santos Silva, bisneto de um dos heróis do 31 de Janeiro de 1891 (…), neto de um ilustre médico, várias vezes ministro da 1ª República (…) e filho do ilustre advogado e resistente antifascista (…) de quem tive a honra de ser amigo.”

A plutocracia tem destas coisas. Os amigos são para as ocasiões, mesmo sendo santos entre silvados.

Comments


  1. Nesta dou-te toda a razão. A aristocracia pseudo-republicana tão bem exemplificada nessa árvore genealógico é o cancro de qualquer república por reproduzir fielmente a lógica da nobreza monárquica.
    Além disso o teu texto tem um toque estilístico na melhor tradição jacobina, que também a há.

  2. Nuno Castelo-Branco says:

    Eh pá, João!!! Sabes com quem te pareces? Com um correligionário meu, desaparecido ainda não há muito tempo. O João Camossa. Anti-Estado Novo, anarquista e com o Ribeiro Teles, fundador do PPM, quando “aquilo” tinha umas boas ideias que hoje achamos parte da civilização. Caramba, parecem separados à nascença!

  3. Luis Moreira says:

    Estão todos bem na vida, João !Sabes uma coisa , fiquei a invejar aí o teu estilo de vida, No centro histórico, ruas líndissimas, restaurantes porreiros, miúdas de cair, mesmo se te der para a cultura vais aí a esses monumentos, se te der para a manutenção física ( que não dá, mas nunca estamos livres de uma “recaída) fazes remo ou natação no “basófias” agora armado em crescido…fico reconfortado saber que um Aventador está de bem com a vida!

  4. Carlos Loures says:

    Todos sabemos que a mudança de regime, da Monarquia para a República, manteve as injustiças sociais, transferindo-as da nobreza decrépita para uma burguesia nascente, prósperos comerciantes, bacharéis, industriais de pacotilha… O povo continuou, como na Monarquia, a fornecer os figurantes. A família Soares e muitas outras, são o resultado de uma endogamia que se vai fortalecendo ainda nos nossos dias. Filhos de ex-ministros do PSD que casam com filhas de ministros ou ex-ministros do PS. Novas linhagens, para mim, tão (pouco) respeitáveis como as da anterior nobreza. No fundo, nas raízes de todas as árvores genealógicas, quer o apelido seja Bourbon, Bragança ou Silva, está uma série de cavernícolas bem sucedidos. O texto está bom, Nuno. Parabéns. É assim que vamos comemorar o centenário?

  5. Nuno Castelo-Branco says:

    Em 1910, a nobreza era apenas um monumento, como a Torre de Belém. De facto, já tinha desaparecido completamente como “classe social” com o verdadeiro poder que a economia e a finança pode proporcionar. A questão dos titulares era outro, correspondendendo quase exactamente, aos comendadores do 10 de Junho. Com uma diferença: os galardoados tinha de pagar o encarte pelo título, mas agora, qualquer grã-cruz sai-nos à módica quantia de mais de 1.000 Euros por cabeça. O pior de tudo, é atribuírem-se Ordens, sem que saibamos exactamente porquê. Por amizade? Por negócios jeitosos? É que não me parece dignificante outorgar uma comenda de Avis ou Cristo – usadas por gente como o Gama, o Infante, o Mouzinho, por exemplo – a um habilidoso da Bolsa. Há que separar as coisas, sob pena de descrédito.

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