Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido. Mário Soares e o 25 de Novembro.

continuação daqui

O antigo chefe de gabinete do ministro dos Negócios Estrangeiros e secretário-geral do PS, Vítor Cunha Rego, tivera contacto anteriores ao 25 de Abril com o chefe da CIA em Lisboa, John Morgan. Após o assalto ao «República» e quando Carlucci adquirira a certeza de que Soares entrara no «bom caminho», seriam designados Cunha Rego e Bernardino Gomes para veicular os futuros contactos e o apoio da CIA ao PS.

Com o caso «República» ainda fresco e tendo em conta que aquela organização considerava prioritárias as acções na imprensa e em editoras, como o senador Edward Boland de Massachusset apuraria no final dos anos 70, foi decidido combater a predominância do PC nestes sectores. Assim nasceria a editora «Perspectivas Realidades», ao mesmo tempo que era adquirido o edifício onde iria funcionar a CEIG, Cooperativa de Edições e Impressão Gráfica, com a finalidade de imprimir o diário «A luta» em substituição do «República». O contacto americano era um «operacional» das chamadas «covert operations», ou operações clandestinas, da CIA, a que chamarei apenas KC. (…)

Em entrevista à TVI e a Miguel Sousa Tavares na SIC [1994], o Presidente da República [Mário Soares], para além de se colocar no papel de principal líder da resistência à tentativa comunista de 25 de Novembro, adiuantaria que, de facto, «conspirara» com Callaghan e os serviços secretos ingleses, embora negasse qualquer apoio dos norte-americanos. (…) Mas o general Ramalho Eanes, um pouco esquecido pelos media, viria a contestar o paperl de Mário Soasres no 25 de Novembro, afirmando poder «garantir que a versão dos mesmos apresentada pelo Dr. Mário Soares contém algumas inverdades». Chegaria mesmo a acusar o seu sucessor de pretender adulterar a história, de não ter lido os documentos oficiais sobre o 25 de Novembro e de ter tendência para valorizar os seus contactos internacionais. Mas, segundo refere, «a verdade é que os militares trabalharam essencialmente com matéria-prima nacional».

Fontes dadas como próximas de Eanes revelariam então ter existido, na expectativa do golpe, um Plano Geral de Operações, que integrava um núcleo militar e um núcleo político, de que faziam parte PS, PPD e CDS. Este núcleo tudo decidira e estava alegadamente preparado para o 25 de Novembro com uma resposta muito cuidada e serena a uma situação insustentável, de que Raqmalho Eanes foi o principal protagonista. A própria ida de Mário Soares para o Porto a 25 de Novembro teria sido decidida pelo mencionado núcleo político-militar. Segundo se depreende das afirmações do ex-Presidente da Reública, general Ramalho Eanes, terá sido ele a comandar as operações político-militares de resistência ao ataque comunisrta, enquanto Mário Soares se teria limitado a obedecer às ordens emanadas do núcleo político-militar que o general comandava. (…)

Após a humilhação a que fora sujeito no Estádio 1.º de Maio, Mário Soares, que geralmente reage violentamente quando o seu orgulho é ferido, verifica que o PS cada vez se identifdica mais com Zenha e, no último momento, reconhece que ou aceita a orientação e a ajuda de Carlucci ou será ultrapassado. Quando os socialistas europeus, a partir de Estocolmo, aderem à luta do PS e dos americanos, a União Soviética sentir-se-á colocada entre a espada e a parede. Deixa de ser uma luta anti-imperialista, de conquista de terreno aos EUA, para se transformar num potencial conflito no próprio teatro europeu. A pasrtire de então, a radicalização do processo em Portugal será sempre favorável ao PS e à Direita em geral. E o recurso que o PCP fazia da Extrema-Esquerda coemçaria a funcionar exactamente ao contrário. Foi isso que o PCP compreendeu na madrugada de 25 de Novembro. Daí a sua rendição condicional de última hora, bem testemunhada pela súbita mudança de linguagem do então major Melo Antunes. (…)

Afinal, segundo Mário Soares diria anos depois a Tony Benn, num encontro em que eu estaria igualmente presente, «os socialistas estavam em retirada» e não poderiam sobreviver «sem a protecção dos americanos».

Comments

  1. Nuno Castelo-Branco says:

    Passa o teu circunspecto olhar sobre o livro do freire Antunes, no qual surge toda a ligação à CIA e as conversas com o sr. Kissinger (lê-se Quissinga :P). Incómodo, no mínimo.

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