Memória descritiva: neste dia…

Neste dia, 12 de Janeiro, passaram-se muitas coisas. Entre muitas dezenas de acontecimentos, escolhi quatro dias e cinco factos, tantos quantos os dedos de uma mão. Vamos então a esses dias e factos, todos eles dramáticos.

Em 12 de Janeiro de 1431, teve início em Ruão o processo contra Joana d’Arc, acusada da prática de bruxaria. Como se sabe foi condenada e executada em 30 de Maio seguinte. Heroína francesa da guerra dos Cem Anos, não teria ainda completado os 20 anos quando foi queimada. Mística e ignorante (uma mistura explosiva), dizia, desde os treze anos, ouvir vozes de santos – São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida – que lhe confiavam a missão de salvar a França invadida e ocupada pelos Anglo – Borguinhões.

Levada à presença do rei Carlos VII, que se refugiara em Chinon, conseguiu que lhe fosse confiado o comando de algumas tropas e venceu uma série de batalhas, levando a que Carlos VII fosse sagrado rei em Reims. Falhando na tentativa de recuperar Paris foi, na Primavera de 1930 aprisionada pelos ingleses. Julgada por membros da Igreja, gente do alto clero francês vendido ao invasor (a Igreja não gosta de perdedores), Pierre Cauchon, bispo da diocese de Beauvais onde Joana fora aprisionada, condenou-a. Acusações: vestia roupas masculinas, fazia profecias e afirmara que as suas visões eram de origem divina.

Acabou por ser queimada viva na Praça do Vieux-Marché. Note-se que Carlos VII, que lhe devia a coroa, não mexeu um dedo para a salvar. Moral da história – Vae victis!.

Em 12 de Janeiro de 1759 O Processo dos Távora chegava ao seu fim, sendo proferido o veredicto – os acusados da Casa dos Távora foram considerados culpados. A presumível conspiração dos Távora (que parece não ter sido mais do que uma questão de saias), em 1758, serviu-lhe de pretexto para reprimir a nobreza. Um rei fraco e pouco inteligente foi servido por um ministro que manteve o poder real com punho de ferro, no mais puro estilo do despotismo esclarecido ou iluminado: Sebastião José de Carvalho e Melo, conde de Oeiras e marquês de Pombal.

Também em 12 de Janeiro de 1759 – O secretário de Estado do rei D. José I, o marquês de Pombal, teve um dia trabalhoso mas profícuo , pois no mesmo dia em que os Távora eram condenados, mandou expulsar os Jesuítas de Portugal. A Ordem de Jesus tornara-se demasiado poderosa e havia que neutralizar esse contrapoder. Daí a expulsão.

Um déspota que teve a seu crédito o vigor com que dirigiu a reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755, o fomento da agricultura, da indústria e do comércio, a criação de monopólios, como o das vinhas do Douro, a reformulação do Ensino. Depois, quando D. Maria I subiu ao trono, em 1781, a chamada «Viradeira» varreu o marquês da corte, destituiu-o. Moral da história: Ai dos vencidos!

Em 12 de Janeiro de 1816 – Toda família Bonaparte foi afastada da França por lei do governo francês. Não vos vou massacrar com a história de Napoleão Bonaparte – direi apenas que nunca a França fora tão poderosa e gloriosa como durante o período do seu consulado e do seu império – se passarmos em revista a história de França, veremos uma extensa cronologia de derrotas: Bonaparte venceu quase tudo. Mas perdeu em Waterloo. Moral da história: Vae Victis, ai dos vencidos, em política é proibido perder. Quem vence tem sempre razão e poder para rescrever a História.

Neste dia 12 de Janeiro, um dia como os outros, passaram-se muitas coisas ao longo dos séculos. Alguns factos talvez mais importantes do que os que escolhi. Porém, a lição é sempre a mesma – o Céu talvez esteja destinado ao reino dos pobres; não sei, nunca lá fui. De uma coisa estou certo, aqui na Terra, onde vivo há alguns anos, quem manda são os ricos, os poderosos e os vencedores. Ai dos perdedores, ai dos vencidos!

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Conheces o beco do chão salgodo onde foram executados os Távoras? Um dia destes vamos a Belém almoçar, comer um pastel e ver o local.

  2. Carlos Loures says:

    Conheço muito bem, tem um marco a assinalar o local exacto. Mas podemos lá ir à mesma, almoçar e comer o pastel de nata.

  3. Adão Cruz says:

    Sempre a dar-nos lições, amigo Carlos Loures. Pela minha parte fico-te grato.
    A história é sempre a história dos vencedores. Por isso eu a encaro sempre de pé atrás.

  4. Pedro says:

    Um dia perigoso, este 12 de Janeiro. Bela resenha.

  5. Carlos Loures says:

    Pois é verdade, Pedro, é um dia perigoso. O problema é que, quem quiser, pode escrever um texto semelhante todos os dias. Conclusão: todos os dias são perigosos. Ou serão antes as pessoas que são perigosas? Obrigado pelos comentários.

  6. Nuno Castelo-Branco says:

    Pois é, mas quanto à glória bonapartista, pagámo-la bem caro, pois o cavalheiro matou-nos 20& da população. 400.000 mortos (pelo menos) em 2 milhões de habitantes, excelsa proeza que supera proporcionalmente, as habilidades dos alemães na Rússia e mais ainda, a recíproca dos russos na Alemanha.

    Carlos, desconfio muito que o seu cartão de militante PRP não o BR, mas o do Costa), acabou de ser rasgado. Atacar o sacrossanto democrata Sebastião José?! Ena-ena…

  7. Carlos Loures says:

    Todas as guerras saem caro, sobretudo a quem as perde. Em Espanha, os livros de história quase não falam de Aljubarrota. E, no entanto, as perdas foram tão elevadas que em Castela só se via gente de negro, homens com barbas por cortar… A nobreza foi atingida, mas o povo também. Foi para eles uma grande tragédia. Para nós, dá direito a feriado, mais de seis séculos depois. As tropas napoleónicas causaram muito estrago por toda a Europa, mas para a França foi uma das poucas épocas de verdadeira glória (porque as outras são a mitificação de derrotas e a sublimação literária de desastres políticos).

    Nunca simpatizei com a figura do Afonso Costa. O Sebastião José era tudo menos um democrata – er um ditador de esquerda, digamos assim. No contexto histórico em que se moveu, tem de ser considerado um grande estadista. Os Távora terão sido executados injustamente (não sei se conspiravam ou não), mas lá que a nobreza meteu a viola no saco até chegar a sebentice da Viradeira, também é verdade. Está enganado, eu admiro a figura do marquês de Pombal, reconhecendo-lhe, no entanto, a inegável (e indispensável) filha-de-putice.

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