Fabricio Estrada : Haiti, a metade sinistra*

Perante o desastre quase total que assola o Haiti, apenas nos podemos interrogar como pode um país chegar a este nível de destruição, sem a mínima capacidade de resposta no interior do seu território.

A história do Haiti constitui quase uma «vida paralela» relativamente à das Honduras. O Furacão Mitch pôs a nu a fragilidade da nossa estrutura de prevenção, colocando-nos  numa situação de mendicidade internacional, já que se aceitaram as honestas e humanitárias demonstrações de solidariedade.

A mendicidade a que me refiro, levou o Governo de Ricardo Maduro a executar  um lanço semelhante ao que costuma verificar-se nos leilões, com o objectivo de, fosse como fosse, o país entrasse  no clube dos «Países Altamente Endividados» (PPAE, HIPC, usando as siglas imperialistas). Segundo parece, as Honduras cumpriram o programa de pagamentos, sendo-lhes aliviada a dívida, mas, entretanto, as exigências do FMI, no que respeita ao «saneamento fiscal», conferiram à Empresa Privada um poder total sobre os regulamentos estatais, sob o signo infamante da ineficácia governamental.

No Haiti (membro VIP do HIPC), não se pôde sequer pagar a dívida dos fundos para a Redução da Pobreza nem sanear minimamente as suas instituições fiscais.  A devastação económica somada à instabilidade artificial com que a miséria é mantida no país, impediram-no. O Haiti, tal como a Somália, é um Estado falido… e as Honduras, nesta altura, também o são, devido à destruição do sistema jurídico, feita para avalizar o Golpe de Estado.

As Honduras e o Haiti, serviram de «território tampão» a dois impérios: o Haiti encontra-se no meio de Cuba e da República Dominicana. A melhor forma que os gringos e os franceses encontraram para deter a «expansão cubana» na direcção da Dominicana, foi mantendo o caos no desgraçado Haiti.

A Dominicana sempre constituiu uma grave preocupação para a visão imperialista francesa e norte-americana. A autodeterminação popular dominicana, que tomou como exemplo histórico a gesta libertadora dos haitianos contra o colonialismo francês, foi sepultada com a imposição do ditador Trujillo (1930-1961) e com a queda de Juan Bosch, em 1965, que desencadeou uma guerra civil, pretexto para a invasão ianque. As Honduras de Villeda Morales, contribuíram vergonhosamente com tropas para a «estabilização».

O projecto de Juan Bosch fora aniquilado, e desse modo deu-se início à sobre exploração dos recursos naturais do Haiti, através de multinacionais francesas e norte-americanas, até os consumir integralmente, transformando o país num território monstruosamente árido e devastado pela SIDA e pelos bandos de criminosos. Deste modo, entre Cuba e a República Dominicana, ergue-se um muro humano de uma extrema miséria. Na retaguarda, as bases militares imperialistas no Porto Rico, vigiam.

Como se demonstra, a estratégia imperialista foi a de tornar invisível um dado território, expremê-lo até ao limite, pô-lo de rastos e encravá-lo no meio de uma região com reivindicações populares… tudo com o objectivo de levar a população a um tal nível de inferioridade que o fatalismo se transforme na dialéctica generalizada. Desta forma, o país intervencionado passa a ser um centro desestabilizador para os países seus vizinhos, no epicentro de um terramoto permanente, que mata lentamente, mas de forma constante. O Golpe de Estado contra Aristide e Manuel Zelaya constituem irrefutáveis demonstrações científicas desta afirmação.

O Haiti, irmão siamês e consumido da República Dominicana, por seu turno irmã siamesa e distante destas Honduras, representa um doloroso lembrete dos  golpes que o acaso pode desferir, mas também daqueles que resultam da frieza e das maquinações calculadas pelas potências imperialistas.

*O autor joga com o duplo significado da palavra «sinistra»: esquerda e sinistra (desastrosa, funesta). Lembremos que o Haiti partilha com a República Dominicana a ilha Hispaniola, no mar das Caraíbas, ocupando a sua parte ocidental; portanto a parte esquerda.

Tradução de Carlos Loures. Fabricio Estrada, poeta hondurenho.

Comments

  1. Nuno Castelo-Branco says:

    Simplesmente, temos de nos deixar de chorosas tiradas politicamente correctas e reconhecer que a situação é outra: existem demasiados Estados sem viabilidade. Lembram-se de Timor-Leste há uns 9 anos? Mandato da ONU.

  2. Carlos Loures says:

    Todos sabemos que há estados mais viáveis do que outros – recursos naturais, gente com boa formação profissional, etc. Mas também sabemos que naquela parte do mundo que os norte-americanos consideram sua há muito tempo, mesmo antes de serem uma grande potência, têm feito trinta por um a linha. Começaram por tentar roubar as colónias aos europeus – Espanha, França, inglaterra…, dizendo que os estavam a libertar. E depois tem sido a exploração intensiva dos recursos de cada país, mantendo sempre tudo na miséria. Acho que o Fabrício Estrada diz isso de uma forma clara.

  3. Luis Moreira says:

    Tão perto dos US e tão longe de Deus…

  4. Verdade como punhos cerrados, Carlos. Os EU, os doberman da América latina. Parecendo que recuaram, estão a mostrar os dentes em força, ainda que subrepticiamente, a todas as tentativas de humanização e democratização destes povos humilhados e explorados. A execrável e preconcebida manobra que se passou nas Honduras e o cerco abjecto que se estrurura na Colômbia, são disso exemplo. Mas não são únicos. Na verdade, em vez da pulhice a que se prestam, o Sr. Obama devia meter o prémio Nobel no caixote do lixo, e a Sra. Clínton devia ir espreitar o marido nas suas fugas bacanais. Havemos de desenvolver este tema.

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