Poemas do ser e não ser

(adão cruz)

Já poeta não sou

já não sou quem era

não sinto as noites de prata

nem mexe comigo a ventania

que varre as faldas da serra

não me doem as videiras

espetadas no céu

nem os castelos de fantasia

caídos por terra.

Cada erva

cada semente

é resto de uma canção

que já não sei cantar.

Fugiu do peito o coração

foi-se embora o luar

e o rio que eu era

nem sequer chegou ao mar.

Sou pirilampo das sombras

voando pelos regatos secos

não sei se vou longe se vou perto

se ao cimo se ao fundo

não sei se giro por dentro

ou por fora do mundo.

Comments

  1. Carlos Loures says:

    Ressoa a Bocage : «Já Bocage não sou!… À cova escura/Meu estro vai parar desfeito em vento…» O Elmano Sadino aparece quase como um mote, muito bem desenvoilvido nos restantes versos que se seguem a «já poeta não sou». Aliás, a beleza do poema desmente categoricamente o primeiro verso.


  2. Como sempre, generoso. Obrigado

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