Poesia & etc.: Manuel Simões

Pela primeira vez, em quase cinquenta anos de amizade e de iniciativas realizadas em comum com o meu grande amigo Manuel Simões, me vou referir ao poeta Manuel (Gonçalves) Simões. O contrário já aconteceu, pois foi o Manuel quem prefaciou a minha colectânea poética «O Cárcere e o Prado Luminoso» (1990). Um texto magnífico, aliás.

Da elevada qualidade da sua poesia já outras pessoas se ocuparam, tais como o Professor Fernando J. B. Martinho que, na Colóquio/Letras, tem feito uma análise à obra de Manuel Simões. Outro interessante estudo sobre a sua obra, particularmente sobre «Micromundos» é a do crítico e professor italiano Roberto Vecchi no prefácio a este livro. Este texto, portanto, não é uma análise à obra do poeta, mas sim uma exortação à leitura dos seus livros.

O seus dois primeiros livros de poemas – «Crónica Breve» (1971) e «Crónica Segunda» (1976), foram publicados na colecção «Nova Realidade», que ambos, com Júlio Estudante, criámos em Tomar no ano de 1966. Publicou ainda as colectâneas «Canto Mediterrâneo» (1987), «Sereninsula» (versão em italiano do anterior – Veneza, 1987), «Errâncias» (1998) e «Micromundos» (2005) Em conjunto, coordenámos três antologias de poetas portugueses, todas publicadas na «Nova Realidade»: «Hiroxima» (1967), «Vietname»(1970) e «Poemabril» (1984).

Possui uma vasta obra ensaística publicada.

Uma história: numa sessão realizada na galeria municipal da Amadora, onde foram lidos poemas de diversos autores, um dos actores que estava a declamá-los interpretou, entre outros, o poema «Ceifeira, não dobres tanto a cintura» de «Crónica Breve», que abaixo transcrevo. Num grupo de alentejanos que assistia ao acto, ouviu-se dizer: «É extraordinário como um homem do Norte, compreende tão bem o Alentejo!». Ao meu lado estava Guy Ferreira, pintor e galerista, um homem que durante o PREC estivera ligado ao MFA. Manifestei-lhe a minha estranheza: «Do Norte? O Manuel é de Ferreira do Zêzere, no Ribatejo». Resposta do Guy: «Então tu não sabes que, para os alentejanos, a Norte do Tejo começa logo a Galiza?».

Manuel Simões nasceu em Jamprestes (Ferreira do Zêzere) em 1933. Poeta, ensaísta e professor universitário, é licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e em Línguas e Literaturas Estrangeiras pela Universidade de Veneza. Viveu em Itália desde 1971 até se jubilar, ensinando Língua e Literatura Portuguesa na Universidade “Cà Foscari,” de Veneza. Desde 1977 colaborador da revista «Colóquio/Letras», pertence à redacção da revista «Rassegna Iberistica» (Veneza). Entre 1967 e 1969, pertenceu à redacção da revista «Vértice» (Coimbra). Foi, em 1966, um dos fundadores da colecção «Nova Realidade» (Tomar). Apresento-vos dois poemas seus, um do primeiro livro que publicou, outro do mais recente.

Ceifeira, não dobres tanto a cintura

Ceifeira,
cantar agreste
na flor do vento,
trigo e suor
amargurado
no esquecimento.

Ceifeira,
de sol a sol
teu canto trespassa
o trigo.
Com lâmina
fere a espiga,
põe-na revolta,
explosiva.

Ceifeira,
ó que amargura
te vai no corpo
agravado.
Sempre a dar
o corpo à terra
e teu sangue
amotinado.
Ceifeira,
levanta a foice
não dobres tanto
a cintura.

Quem trabalha
a terra alheia
não pode usar
a ternura.
(Crónica Breve, Tomar, 1970)

Teoria da composição

O artífice imerge
as mãos na matéria
avulsa a transformar.

Sem artifício investe
o próprio corpo no acto
preciso de plasmar.

Seja a matéria
argila, aço ou palavra
espúria a desbastar.

Do ofício extremo
resta o resíduo: densa
e intensa arte de amar.

(Micromundos, Lisboa, 2005)

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Carlos, este é o nosso Manel…

  2. Carlos Loures says:

    Exactamente. Seria uma boa «contratação de Inverno»…

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