O regresso de Serpico

Lembram-se de “Serpico”? O polícia barbudo, amante da contra-cultura, que começa idealista, a acreditar que é possível ser polícia em Nova Iorque e não recorrer a métodos brutais, e acaba a enfrentar os colegas corruptos, que o querem ver morto?

Al Pacino foi um Serpico vibrante no cinema, mas o verdadeiro Serpico é real e ainda vive. Foi alvejado na cara e deixado para morrer pelos colegas que sabiam que ele não desistiria de denunciar a corrupção que minava o corpo de polícia da cidade. E acabou a depor contra esses mesmos homens, tendo ganho, como recompensa, o que sempre quis: ser promovido a detective. Recusou a oferta, entregou o distintivo e partiu para a Europa.

Assim termina o filme, dizendo-nos que Serpico vive algures na Suíça, naquilo que poderá ser uma reclusão meditativa ou uma tentativa de reconciliação com uma experiência pessoal arrasadora. Quando o filme acaba, ficamos sem saber se Serpico foi recompensado pela bravura ou se carrega um castigo que não mais acabará.

Agora surge a história do que foi feito do verdadeiro Frank Serpico.

Uma cabana de madeira no bosque, junto ao rio Hudson. Uma vida não inteiramente de eremita, mas quase. Alimentação vegetariana, medicina chinesa, meditação e dança. Uma namorada francesa. Nada de televisão ou Internet. Frank Serpico aponta o consumismo e a manipulação feita pelos media como os grandes males da América. E agora, porque sente que apesar de saudáveis, os seus 73 anos impõem alguma urgência, decidiu escrever a sua história. Não apenas a da batalha pela verdade que quase o matou, mas também a da busca interior que se lhe seguiu.

As histórias épicas mostravam que a recompensa dos heróis era, caso não lhes tocasse uma morte gloriosa, uma vida plena de reconhecimento pelo seus pares, quando não de recompensas terrenas: a fama, a opulência, a harmonia familiar.

Frank Serpico, herói moderno, ficou surdo do ouvido esquerdo e com fragmentos de bala no crânio. Quarenta anos depois conta que ainda tem pesadelos nos quais abre uma porta e tudo lhe explode no rosto. O seu nome, aliado ao rosto de um Pacino jovem e enérgico, tornou-se um ícone da cultura popular, mas isso em nada lhe alivia o fardo na luta contra os seus fantasmas.

São estes os heróis do nosso tempo? Depois da foto da vitória, esperamos que partam para sangrar longe de nós, que curem as mazelas como souberem, e que se contentem em ser aquilo que a posteridade consagrará: uma foto vitoriosa.  Nunca poderíamos imaginar que eles teimariam em regressar, quebrados, por cicatrizar, portadores de uma verdade incómoda.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Sela qual for o caminho os fantasmas vão estar sempre na nossa memória. Como alguém dizia: O drama da raça humana é ter memória! E é verdade, Carla! Ter memória é uma e outra vez, hesitar entre as opções possíveis. Angústia, seja qual for a opção tomada. Só não podem ultrapassar a nossa capacidade individual de podermos viver com elas.

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.