Reis e chefes no Peru e no Chile

As formas de governo entre as actuais Repúblicas do Peru e do Chile, não eram similares. Conforme o que dizem os historiadores, arqueólogos, geólogos e antropólogos, as formas superiores de governo estavam no que hoje é a República do Peru. Existiam classes sociais e lugares geográficos diferentes para cada actividade. As classes mais baixas habitavam perto do mar e o seu dever era servir a divindade com peixe fresco, como tributo de parte da pesca no território da propriedade do Inca, ou monarquia governante. A divindade Inca era o sol e o seu representante era o governante designado Inca antes do nome pessoal. Ele e a sua família habitavam nas partes mais altas da cordilheira, na montanha nomeada por Machu Picchu.

O Machu Picchu ou montanha alta em língua quechua, por eles falada, não era apenas um sítio geográfico situado a 80 quilómetros ao noroeste da actual cidade do Cuzco e a três mil metros de altitude, era também um emblema de alta hierarquia social das pessoas que a habitavam. Todo o Rei ou Inca tinha direito a dois factos surpreendentes para o pensamento ocidental: podia casar ou unir-se a várias mulheres, todas elas chefiadas pela primeira mulher: a rainha. Os descendentes estavam também hierarquizados. Os da primeira mulher eram herdeiros e o mais velho ou o mais inteligente, devia ser escolhido pelo Rei Inca, como seu sucessor. No entanto, nem sempre a sucessão era pacífica por existirem os preferidos do Rei e os da Rainha e, às vezes, o Inca casava com uma mulher bem mais jovem que todas as outras, estimando-se que o seu filho seria um Rei que saberia governar pois estava em condições de exercer o cargo por um período maior do que qualquer outro. O filho da primeira mulher poderia morrer antes de seu pai. É preciso dizer que os príncipes, futuros Inca, casavam na puberdade dele e da sua mulher. É esta a outra ideia não consonante para ouvidos ocidentais. O Inca apenas podia casar com as suas irmãs como acontecia no Egipto. Forma de manter a linhagem pura e a divindade unificada e não espalhada entre várias pessoas. O Inca não exercia apenas as funções de monarca, era também um Sumo Sacerdote que geria a religião entre a sua família e o seu povo, pelo que, para além de ser reverenciado, era adorado. À passagem do Inca pelas ruas calcetadas, todas as pessoas, mesmo as da família, estavam obrigadas a curvarem-se: ninguém podia vê-lo nem olhá-lo, a não observância destas regras era delito punido com pena de garrote, assim, nenhum quechua conhecia o seu Rei e qualquer tentativa em contrário podia custar- lhe a vida!

Os Inca, pelo que também os quechua, tinham escrita, especialmente cultivada na Corte do Rei. Sorte nossa esse ensejo de guardar crónicas escritas em actas de pergaminho, obtidas a partir da pele seca retirada dos seus animais sagrados: a Llama (em português Lama) e a Vicuña ou Vicunha na nossa língua. Essa preocupação dos Inca de que tudo ficasse gravado em pergaminhos ou em nós de corda para fazerem contas e usarem a sua criada aritmética, permite-nos hoje saber que apareceram na História no nono milénio antes da nossa era. A sua cultura desenvolveu a escrita e a leitura, tal como a geografia, a geometria, a astronomia, a astrologia e a matemática, saberes usados para governar bem um vasto Império. Nascido no Machu Picchu espalhou-se entre todas as etnias que existiam ao norte, hoje Equador, Colômbia e Venezuela e ao Sul as hoje Repúblicas Guarani de Uruguay, Paraguay, Argentina e parte do Chile Central. Os Inca ofereceram, a par dos saberes, culturismo à hoje América Latina, através de jogos como a chueca, o moderno golfe que o meu Caro Amigo Carlos Loures colocou como desenho do Século XVI, no meu post anterior sobre núcleos de família.

Infelizmente a cultura dos Inca foi destruída pelos que andavam a pilhar o Continente em 1532, o espanhol Francisco de Pizarro e um grupo de malfeitores, entraram a saquear Machu Picchu, aprisionaram a divindade, o Inca Altahualpa Yupanqui, prometendo resguardar a sua vida em troca de ouro cunhado ou em barras, equivalente ao seu peso. O Inca era imenso e a pilhagem acabou com as reservas da Monarquia Inca.

Atahualpa foi julgado culpado de todo o tipo de acusações e condenado à fogueira. No momento da execução, Atahualpa aceitou a proposta do padre Valverde de diminuição da pena, admitindo ser baptizado para, em seguida, ser executado por estrangulamento no dia 26 de Julho de 1533.
Atahualpa foi sucedido pelo seu irmão Tupac Huallpa e depois por outro irmão Manco Yupanqui, ambos ao serviço de Pizarro

No caso do Chile era tudo bem mais simples e será relatado em outro post, tal como referi, em parte, no de ontem. Não havia reis. O chefe de um grupo era denominado Toqui que em Mapundungum significa quem tem mais força, sabe seduzir mais mulheres e é capaz de procriar uma maior descendência. Famosos eram já na conquista os Toqui Colo Colo, Caupolicán e Galvarino. Entre estes três, tiveram mais de cem crianças. Mas foram incapazes de derrotar uma centena de espanhóis, aparecidos no Chili, palavra Aimara que significa o fim do mundo, enquanto em Quechua é o País do frio.

O Chile foi fundado na cidade que hoje é Santiago do Chile, no cerro Santa Lucía, antigamente Huemul em Mapudungum, o sítio de fortaleza, a 12 de Fevereiro de 1542 pelo Capitão de Extremadura, Espanha, Pedro de Valdívia. História toda narrada por Isabel Allende no seu livro de de 2006: Inés del Alma Mía, Arreté, Barcelona, versão portuguesa do mesmo ano pela Diffel, Lisboa: Ai, mama Inês.

O facto mais importante foi contratar os serviços de um jovem mapuche, chamado Lautaro, baptizado por eles como Felipe.
Lautaro, ou Cervo Veloz em Mapudungum, aprendeu durante seis anos que aqueles “deuses” eram mortais e, no caso específico, podiam ser atacados, pois dispunham unicamente para sua defesa, de dois canhões e doze arcabuzes. O corpo de ferro não passava de uma defesa de chumbo mais pesada do que os seus corpos e as quatro patas e uma cabeça que galopava enquanto o corpo descansava, eram, de facto, duas entidades diferentes: as quatro patas e uma cabeça, era um animal denominado cavalo, que entre eles (mapuche) não existia. E as duas pernas e cabeça, as de um ser humano que podia ser morto.

Com este saber, fugiu um dia, contou a história aos membros da sua tribo, pessoas que não queriam acreditar. Lautaro falou durante três dias, após o que juntou mais de mil homens e atacou Santiago, defendida por uma escassa dúzia de espanhóis. Infelizmente, uma tempestade fê-los pensar que a sua divindade, Pillán, estava zangada por atacarem os ainda, para eles, deuses, fugiram para o Sul da colónia e nunca mais se juntaram até que os espanhóis começaram a explorar o mato e o chefe, Pedro de Valdívia, foi feito prisioneiro. A morte apareceu-lhe durante a incursão no Inverno de 1533 provocada pelo peso do corpo e da armadura, enquanto o seu corpo escorregava por um pau (picanha) que lentamente o partiria em dois.
Doravante, Lautaro, elevado ao cargo de Toqui, não parou de atacar. Contudo, reforços espanhóis chegaram de fora e o país foi finalmente colonizado, para grande raiva de Lautaro e minha…. A luta durou mais de 100 anos, até a colónia passar a ser Reyno e encurralar os Mapuche que ficaram, em reduções (reservas) fechadas até aos nossos dias…

As malfeitorias dos conquistadores eram tantas, que foi preciso instalar parte da Inquisição no Reyno, até à sua chilenização em 1810…

Comments

  1. Luis Moreira says:

    belo texto!

  2. Nuno Castelo-Branco says:

    Caramba, que interessante! E nós que sabemos tão pouco acerca do que se passava além-Europa. Obrigado, Iturra!

  3. maria monteiro says:

    tanto mal e tanta destruição foi feita por europeus em terras além-Europa

  4. Raúl Iturra says:

    Agradeço a paciência de terem lido meu texto. Entendo bem que seja “belo” para o Luís Couto, por ter sido tratado, na parte imágens, pela pessoa que estimo amigo, Carlos Loures, e o português fixado pela senhora que me acompanha na vida, a Antropóloga Graça Pimentel. Bem como porque bem sei que de América Latina nada sabem em Portugal, apenas do Brasil. Maria, o seu comentário é agradecido, mas insisto em entender que parece uma mulher devota: nem fica com dó pelas masscres bem mais piores que as de Auswitchz, que hoje faz 60 anos foi libertada. Nuno Castelo Branco, desculpe a falta de travessão mas o teclado deste computador é britânico e devo inventar palavras. Sou capaz de entender a sua surpreesa, porque o Brasil e o Paraguay foram colonizados pelos lusos em paz e harmonia, a prova está que desde o começo as formas tribais foram respeitadas como o próprio Lévi Strauss analisa em Tristes Tropiques, como narro no meu texto de homenagem ao Professor e Amigo no dia da sua morte em 2009, pode ser lido em Aventar. Quanto ao facto de saber pouco sobre acontecimentos fora da Europa, pense melhor, o meu Colega e Amigo, falecido recentemente, Sílvio Coelho dos Santos, bem como esse outro amigo e mentor da minha Antrologia Paulo Freire escreveram imenso sobre uma política indigigenista, bem como a existência dos Barasana, Boro Boro e Guarani e outros, provam a simpatia dos lusos para com os povos nativos. O que não conhecem, era melhor dizer, é o que aconteceu no resto da América Latina: esterminio total. Ao me referir ao cemetério de milhares de ossos onde eu levava aos rapazes que analisava, elas e eles, acreditaram apenas porque a memória oral é transferida de geração em geração. Como o Nuno sabe, é transformada. Apenas a memória escrita é a que fica, a que eu usara dos manuscrtos dos jesuítas, que guardo comigo. O estermínio entre as outras etnias foi quase total. Eram prometidos o céu e a terra em troca de serem baptizados e “cumprir a lei divina”, que para eles era a obediência á divindade, que, para os engrilhoados, era trabalhar dia e noite até a sua morte. Se os jesuiítas foram expulsos, era por ter ensinado escrita e leitura,música, aos, nesse tempo, escravos. De escravos a jornaleiros sem pagamento, até o dia de hoje. Não esqueça que América Latina é um Continente de mestiços que guardam a sua forma de fugir ao trabalho, como é possível de ver no Haiti de hoje, em largas partes do México, América Central e nas províncias interiores da Colómbia e Venezuela.
    Mais nada digo, está todo no texto e haverá mais.
    Obrigado pela vossa paciência para ler e comentar

  5. Carlos Loures says:

    Este comentário amplia muito o âmbito do texto. Sempre se disse aqui que a colonização portuguesa não foi tão desumana como a castelhana. Esta afirmação parecia ser falaciosa e tendenciosa. No entanto, pessoas. como o Professor Luís de Albuquerque, sempre frisaram a diferença entre a nossa «colonização» e a «conquista» castelhana – o sentido de ambas as palavras dá a medida do que uns e outros tinham como objectivo. A opinião do Professor Iturra de que os portugueses colonizaram «em paz e em harmonia», vem reforçar aquele princípio. Isto, sem querer branquear os horrores que mesmo a «colonização» implicou – a importação maciça de escravos africanos em condições de grande desumanidade.

  6. Raúl Iturra says:

    Agradeço os comentários de Carlos Loures. Fixam ideias que eu tinha esquecido mas como ele próprio reconhece, a colonização foi diferente. A castelhana foi uma tortura, os nativos eram assassinados por si ou por não.É verdade que não houve escravos:os pouco que houve, morriam com o frio do país Colonização e conquista são adjectivos que marcam a crueldade castelhana em “conquista”, na que nada era ensinado, enquanto colonização havia uma simpatia que apoiava aos nativos. Os lusos respetavam, os castelhanos não, OBrigado Carlos por esta achega

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