A ANTROPOLOGIA TEM VOZ

A voz da Antropologia não é apenas a voz do Povo que o Antropólogo analisa. Nem é a voz do Antropólogo que os estuda. A voz da Antropologia é a sua utilidade social, é o que o analista entende do povo que estuda, como tenho referido em outros textos meus e aparecem nos textos dos Antropólogos que tenho criado, orientado e ensinado durante o tempo transcorrido entre o dia que fui Antropólogo teórico e o dia em que fui Antropólogo de campo. Por outras palavras, entre os dias de aulas, biblioteca, orientação, ensaios, livros escritos, viver no meio da poeira dos livros, especialmente essas imensas salas de leitura que eu costumava visitar dia após dia, para aprender mais.

No entanto, a voz da Antropologia é a voz uniformizada entre a de que analisa e vive com um grupo de seres humanos que estuda, e, sem dar por isso, os representa. Não é por acaso que tenho colocado a imagem de Kaspar Bronislaw Malinowski (Cracóvia, 7 de Abril de 1884 — New Haven, 16 de Maio de 1942). Como sabemos, aos 22 anos era Doutor em Física pela Universidade de Cracóvia, e mais tarde, em Leipzig (Alemanha) foi orientado por Karl Bücher e Wilheem Wundt para formar-se em psicologia, que mais tarde usaria na sua análise do povo Mailu na Polinésia e entre os Massim do arquipélago da Kiriwina nos mares do Sul da Polinésia, sítio no qual ficou mais anos do que pensava e encontrou, para a sua surpresa, que a família não era monogâmica, por outras palavras, não era apenas um casal de um ele com uma ela e o cuidado dos seus descendentes.

O mundo não sabia da existência de formas de acasalamentos de vários homens com várias mulheres, por causa da economia. Quem casava ou se juntava com outros ou outras, tinha por objectivo distribuir e fazer circular a riqueza. Mais uma vez, ficou surpreendido porque quem casava a uma mulher, era o seu Hermano, quem procurava, entre grupos de clãs de diferentes grupos no aparentados entre si um homem para fazer filhos com a sua irmã, os que trabalhavam com o casal, mas, já púberes, os filhos transitavam para a casa do irmão da mãe, esse que a tinha ritualmente unido a um homem de outra fratria o conjunto de parentes. Para os ocidentais, era considerada uma felonia o facto dos filhos da uma irmã, ter por pai ao irmão da mãe, quem tinha toda a autoridade sobre eles, os educava, trabalhavam para ele e transferiam bens para as mulheres com as que iam casar. Era o que Radcliffe-Brown, (Birmingham, 17 de Janeiro de 1881 — Londres, 24 de Outubro de 1955) foi um cientista social britânico, considerado um dos fundadores da escola funcional estruturalista da Grã-Bretanha em Antropologia, no seu texto do 9 de Julho de 1924, impresso mais tarde na South African Journal of Science, Vol. XXI, pp 542-55, e mais tarde expandido para ser parte de um livro seu: Structure and Funtion in Primitive Society, 1952, editado por Cohen and West Ltd, Londres, pp. 15-32, Capítulo I, intitulado o Irmão da Mãe ma África do Sul – livro em inglês sem tradução lusa, obtém os mesmos resultados que Malinowski.

A riqueza e os bens circulavam nos dois sítios, entre os Ba-Thonga da África do sul e os Massim perto da Austrália, porque os bens da mulher ficam na fratria da sua família e se os filhos voltam, é apenas para recuperar esses bens, os trabalhar, produzir, vender no mercado ou exportar, sendo os lucros distribuídos conforme hierarquias entre irmãos, o melhor trabalhador e o melhor comerciante.

Malinowski em 1922 entre os Massim da Kiriwina.

A voz da Antropologia é a de comparar as formas de vida dos denominados nativos, que nada tinham de primitivos, com a corrida ao lucro dos ocidentais.

Os povos primitivos têm um código de honra não escrito e, como refere Malinowski no seu livro de 1922: Os Argonautas do Pacífico Ocidental, os Massim andavam sempre trás o veludo de ouro que o comércio proporcionava. Estudou as formas económicas nas viagens dos Massim no circuito denominado Kula, essa viagem entre as ilhas para trocar bens produzidos por uns, pelos dos outros, ou assegurar o convénio comercial ao casar uma irmã com um homem de outra fratria e assim não cometer incesto, penado até a morte social ou física nos dois sítios mencionados.

Há mais para dizer, mas já está definido quer nos livros dos autores analisados em livros meus, quer na minha monografia em linha: O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade, acessível no repositório da Biblioteca do ISCTE-IUL, ou no Nacional.

E é todo por enquanto. A nossa ciência, por meio do trabalho de campo, a observação participante que implica viver com os grupos analisados. Essa é a voz da Antropologia: fazer falar aos desprezados do mundo e comparar o seu comportamento ético e sem reproche, como a corrida ao lucro dos ocidentais

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Muito bom, caro prof!

  2. Raúl Iturra says:

    Muito obrigado, Caro Luís, pelo seu in fadigavel comentário. Mas espere, parece ser que o texto deve ser mudado por ordem dos chefes…Entretanto, eu vou ao Benfica. Escrever todo o dia, é cansativo! Muito embora adoro a escrita desde os meus quatro anos. Há uma severa crítica para o meu portugês literario, que transferi aos altos mandos. Eles mandam agora a submeter todos os meus textos a revisão….com excelente boa intenção. O Benfica deve começar em breve. Vamos ganhar três a dois estou certo!

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