Um caçador de magnólias conta o seu ofício

Quando chega Fevereiro passo os  dias a caçar magnólias. Não qualquer magnólia que se me apresente, atenção. Interessa-me unicamente a magnólia branca, mais invulgar, mais frágil, um erro genético. A magnólia rosa, cujo suave tom acetinado constitui o cenário ideal para fotos de casamento, aborrece-me.

Conheço bem o território de caça. Sei que há dois exemplares, um ligeiramente mais tímido, outro mais confiante, frente à igreja dos Congregados, a dar guarida à estátua do Ardina. A rua de Sá da Bandeira recebeu recentemente uns quantos jovens que este ano dão flor pela primeira vez. Sítios insólitos, como o pátio do ACP, também albergam por vezes esplêndidos indivíduos, de grande maturidade e porte digno. Mas costuma ser no largo 1º de Dezembro (onde literalmente se esconde a grande maravilha barroca da cidade, a igreja de Santa Clara) que se encontra uma assinalável concentração de especímenes.

Porque me fiz caçador de magnólias? A pergunta deveria ser: porque não o somos todos? Encontrá-las transformou-se numa missão da qual quase se poderia dizer que depende a sobrevivência da espécie. Da nossa espécie.

Localizo-as, tomo uns quantos apontamentos que poderão ser sobre a tonalidade, o perfume, ou o desenho particular que as pétalas mortas traçam sobre o solo, e caço-as. Como caço? Bem, creio que da mesma forma que todos os outros o fazem, mas, enfim, posso explicar. Coloco-me ao lado do tronco, sob a ramagem, aspiro o perfume subtilmente adocicado, olho o céu através dos ramos, depois afasto-me um pouco para contemplar o indivíduo na sua totalidade.

Não há luz alguma no mundo que se assemelhe à que irrompe das magnólias. Tão doce, tão pungente. A flor da magnólia branca é um poema. Um milagre a pairar sobre o asfalto. As magnólias acendem-se ao sol, amadurecem, e quanto mais ao sol se dão mais curta será a sua já tão curta vida.  Nada é tão fugaz quanto o esplendor das magnólias. Por isso necessitam dos seus caçadores, de quem atente ao triunfo do primeiro botão,  e escute o secreto rumor da sua seiva, e aguarde com constância o fim do Inverno para recebê-las.

Em poucos dias principiarão as pétalas a tombar, num voo cego em direcção ao solo, anunciando um novo ciclo de vida, oculto no obscuro coração da terra. Será então o momento de os caçadores recolherem. Mas agora é o tempo da caça e não posso esperar mais.

Comments

  1. maria monteiro says:

    e as magnólias passam o dia a caçar dias ao inverno e vão-nos anunciando que o começo da primavera se aproxima. Bonito texto, Carla


  2. Muito lindo Carla. Um verdadeiro poema. Um encanto!

  3. Luis Moreira says:

    Carla, por aqui espreito os Jacarandás. Este inverno salvei uns quantos dos efeitos das intempéries. Estão aí a anunciar a primavera, mas o verdadeiro caçador de jacarandás é o António Barreto.Esse descobre o primeiro a florir, antes de ninguem…

  4. carolina santana- says:

    vim aqui, fui ali. voltei. e não resisti…

    Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
    E aproveito o facto de teres chegado agora
    Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
    A magnólia cresce na terra que pisas – podes pensar
    Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
    Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
    Que a magnólia – e essa é a verdade – cresce sempre
    Apesar de nós.
    Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
    Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
    A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
    Mesmo que a recuses
    Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
    A colherei.

    A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra

    E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão

    Daniel Faria

    • Luís Moreira says:

      Isto só prova que a poesia atrai poesia mas não te inquietes Carolina, porque é um fruto muito comum da escrita da nossa Carla!

  5. carolina santana says:

    a que a carolina tem resistido múltiplas vezes. a poesia não me inquieta, Luís, a poesia aquieta-me.

  6. carla romualdo says:

    Por aqui espreitam outros caçadores, que boa companhia

  7. Ricardo says:

    «Deitar à terra». Está quase a fazer um ano. Lembras-te?

  8. carla romualdo says:

    É a época da sementeira, Ricardo

  9. celeste says:

    obrigada. e no jardim da Igreja de Cedofeita..

    • Carla Romualdo says:

      Este ano esqueci-me de ir à caça e quando dei conta já era tarde, pelo menos para as minhas favoritas. Ainda bem que houve alguém que se lembrou

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  1. […] Um caçador de magnólias conta o seu ofício Aventar via Blog de Cheiros. […]

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