Um conto da vida de Zé Pequeno (2)

(Continuando)

Findo o carreiro, precipitaram-se para o portal da casa, ao fundo de uma empena. Soltaram o som do pequeno sino que alertava a gente da casa.

Por entre os portões de madeira com grossos cunhais de ferro, surgiu gente que os levou aos donos.

No patamar do alpendre, Zé Pequeno mirou duas raparigas de idades aproximadas, ao lado de um homem com roupas limpas e corrente de ouro reluzente sobre o colete castanho.

Maria Pequena saudou com a humildade de quem passara os muros de um mundo que não era o seu e assim negociou o preço, por entre gestos repentinos e queixas de mercadora.

Seu filho admirava a sua esperteza, o seu modo de fazer negócio. Mas naquele instante ele estava atento às duas raparigas do patamar. Especialmente à Lourinha, o nome que logo de cabeça lhe pôs, pelos seus cabelos louros aos cachos. Das duas, era sem dúvida a mais bonita.

Mirava-a nos olhos à busca de um sorriso, mas o seu rosto parecia manter-se inalterado. O que o entristecia, sem saber bem porquê.

Às ordens de sua mãe, Zé Pequeno e os demais seguiram para o laranjal. Contrariado, voltou as costas à rapariga para seguir o grupo.

Um a um, tomava o peso das laranjas às suas costas num pesado fardo, e tomavam o longo carreiro para a pobre casa onde iam arrumando as laranjas num improvisado barraco.

Às costas lá iam suportando o peso da vida árdua, mas de onde vinha o sustento para a fome de cada dia.

Sempre que passava pelo patamar, Zé Pequeno olhava em busca dos cachos louros, mas não mais os viu.

Restava a imagem que gravara na sua memória, mas que se ia dissipando ao ritmo que as dores se firmavam no corpo, que lhe lembravam as diferenças dos seus mundos.

Quilómetro a quilómetro, palmilharam o carreiro vezes sem conta.

E assim foi durante todo o dia.

Esgotados pelo cansaço, e mal compostos pelo pobre farnel que devoraram ao almoço, Zé Pequeno e sua mãe regressaram a casa pela noite.

Depois de uma sopa enriquecida a azeite, o corpo reclamava o merecido descanso. Mas o bater à porta de mão firme, fez entrar visitas. Era o encarregado da obra da Pena a dar trabalho de pedreiro, a doze escudos a jorna.

Eram boas novas.

“Tens de estar lá às sete para descarregar a pedra e rolá-la” alertou o encarregado.

“Não se preocupe, Senhor Nogueira. Amanhã sou o primeiro a chegar à obra” sossegou Zé Pequeno.

Com um xaile sobre os ombros e de mãos gretadas, Maria Pequena avivava as brasas para manter a sopa quente. Seu marido não havia ainda chegado e gostava do caldo quente.

“Ele ainda há de ser um bom pedreiro como o pai” disse ela enquanto se levantava vagarosamente do banco.

Os olhos de Zé Pequeno logo perderam o brilho da boa nova. Sabia que seu pai estava na tasca da Veiga, onde perdia a sua arte por entre vinho e cartas. A arte e o dinheiro dos negócios e do trabalho da pedra.

A visita tomou o caminho de volta, deixando Zé Pequeno entusiasmado com o novo labor. Era dinheiro precioso como sempre é a quem falta.

Deitou-se na tosca cama, embalado pelo orgulho de ser chamado à maior obra da Freguesia. Uma vez mais olhou para as suas mãos, agarrou-as entrelaçando os dedos e como se estivesse a orar repetiu em segredo o mesmo juramento de se fazer grande pela sua arte.

Com o corpo cansado, adormeceu, ansioso pelo novo dia.

(Continua)

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