Um conto da vida de Zé Pequeno (6)

(Continuando)

Começou a distanciar-se da serração, tomando o caminho de regresso, num misto de alegria e de insatisfação. Repetia vezes sem conta a resposta que dera a Luísa, com o fito de tentar perceber o porquê. Que iria ela pensar? Que ele tinha muito gosto em a rever ou em conhecer a serração? Porque teria ela pensado que ele gostaria de conhecer a serração? Viria ela algo nos seus olhos que ele próprio desconhecia ou que não queria aceitar?

As dúvidas partilhavam o caminho com Zé Pequeno, rodopiando em seu torno de modo a que nada mais se passava à volta dele. Caminha e meditava, mas ao invés de buscar respostas corria atrás de novas perguntas. Não ser capaz de entender o que se passava consigo, fazia-o sentir-se vulnerável. Dantes tudo era bem mais fácil. Havia o trabalho, sua mãe, seu pai e seus colegas de trabalho. Tudo tinha uma hora e uma mecânica próprias. Tudo era certo e não fazia dúvidas.

Continuou a caminhar pela estrada fora, com o olhar posto em cada curva que se avizinhava e começou a assobiar. Sem dar conta começou a sentir-se mais leve, parecia não sentir as suas pernas, que a estrada se fazia percorrer a ela própria, sem esforço ou cansaço. O assobio ganhou um trinado harmonioso, como que chamasse melros em seu encontro para se desafiarem. Sentia-se em sintonia com tudo quanto o rodeava.

Continuava sem perceber o que se passava consigo. Excepto que se sentia melhor quando deixava de tentar entender o que quer que fosse e se entregava a viver aquele momento, sem mais perguntas.

De repente ouviu o seu nome a ser bradado. Olhou para trás e viu o Senhor Nogueira voltado para trás na janela do camião, olhando-o ao mesmo tempo que abanava a cabeça:

“Então não me vês? Vais por aí fora que pareces um tontinho. Olha, como ia a S. Macário trouxe-te a bicicleta. Já esperava encontrar-te pelo caminho”.

Zé pequeno lá retirou o seu transporte e embaraçado, agradeceu.

“Olha lá, tu por acaso amanhã não estás a pensar em voltar?” inquiriu a experiência de vida do Senhor Nogueira.

Zé Pequeno sorriu com cumplicidade, ao mesmo tempo que encolhia os ombros. O seu olhar brilhante expressava a resposta melhor do que quaisquer palavras.

“Tem cuidado, Zé. Já soube quem é a moça. Olha que quando aparecer um gajo rico és posto fora. Aquela gente é assim. Ela até te pode achar graça, mas és um pedreiro, filho de um pedreiro brigão. Faz atenção ao que eu te digo” alertou o Senhor Nogueira.

“Ela é que me convidou, não a vou desfeitear” respondeu Zé Pequeno ao mesmo tempo que montava a giga.

“Depois na maré não digas que não te avisei” retorquiu o Senhor Nogueira por entre a fumaça do arranque do camião.

Zé Pequeno ficou à espera de perder de vista o camião, que logo adiante desapareceu. E ali ficou, com um pé na pedaleira e outro firme no chão. Sentia ter perdido qualquer coisa. Ergueu-se lentamente e começou a pedalar. Já não tinha brilho nos olhos, mas um rosto afivelado às palavras do Senhor Nogueira.

“Mas que mal tem ser pedreiro?”: a dúvida martelava a sua cabeça, até se transformar em raiva. E logo se seguiu “…és filho de um pedreiro brigão”, aumentando cada vez mais a sua raiva. As pedaladas eram lentas mas tensas. Como tenso estava todo o seu corpo. Agarrava o guiador com a força com que um náufrago se firma a uma tábua.

“Que culpa tenho da fama do meu pai?” interrogava-se enquanto recapitulava todas as brigas a que assistira. Seu pai era homem de não aceitar afrontas e sua palavra era escritura. Homem de grande arte na pedra, perdia-se em copos para afastar amarguras que em si fechava.

A viagem findou em sua casa, com o sol posto raiando os últimos feixes de luz, esbatendo-se por entre as nuvens do firmamento e guardou a sua bicicleta no barraco. Chegado a casa, cumprimentou sua mãe que amarrava no queimado travejamento uns quantos enchidos. Logo se recolheu no seu quarto, pegou num lápis e numas quantas folhas de papel costumeiro, desatando a escrever tudo quanto ao seu espírito vinha. Sua mão agitava-se freneticamente, enquanto transpunha para o pardo papel o turbilhão de sentimentos que o compelia.

Demorou-se naquele exercício cerca de uma hora. Pousou o lápis e recolheu as folhas, ordenando-as. Deitou-se com fôlego de descanso, e releu vezes sem conta, imune aos apelos da mãe para que viesse jantar, os gatafunhos que timbravam de raiva e revolta as folhas que segurava.

Por fim, apresentou-se à sala para comer o caldo quente e uma bucha de carne de porco. As conversas de seus irmãos soavam-lhe a ecos, enquanto mastigava vagarosamente.

Já deitado, voltou a reler as folhas que havia escrito, até que a vista cansada o embarcou no sono.

(Continua)

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.