Um conto da vida de Zé Pequeno (7)

(Continuando)

Seguiu-se mais um dia de trabalho.

Zé Pequeno ritmava o batimento na pedra pela repetição da frase do Senhor Nogueira “Tem cuidado, Zé. Olha que quando aparecer um gajo rico és posto fora. Aquela gente é assim”.

O seu orgulho sentia-se ameaçado. Não lhe entrava na cabeça, nem com um pico, a ideia de ser preterido, escorraçado, ser “posto fora”.

Aquela jornada, parecia ser a mais longa de sempre. As horas pareciam arrastarem-se para um infinito e Zé Pequeno trabalhava mecanicamente. A sua atenção fugia-lhe da pedra e perdia-se num poço de revoltas.

Manteve-se calado durante o almoço, repetindo o mesmo ritual do jantar em sua casa. Fazia-se atento às conversas dos seus colegas, mas as vozes não lhe chegavam aos ouvidos.

Desfeita a comida desfeita a companhia, e todos volveram ao seu posto, à lida do sustento. Tal como voltou Zé Pequeno à rotina da sua rebeldia que descarregava sobre a pedra dura.

De longe, o Senhor Nogueira mirava-o com afinco e abanava a cabeça sempre que o estudava. À sua memória latejavam imagens da sua parca juventude, do dia em que cortejara uma menina rica e foi esperado pelos irmãos dela à saída de uma festa. Não queria que Zé Pequeno sofresse o mesmo vexame, embora soubesse que não seria uma luta que o iria amedrontar ou fazer mudar de ideias. Tudo parecia repetir-se, com a mesma certeza que se repetia o fado sucessivo das vidas de trabalho. Como ele havia repetido a Zé Pequeno a frase que outrora ouvira do Jocas, um colega de trabalho dos tempos da pedreira de São Martinho. Nunca mais o viu desde o encerramento da pedreira. Apenas soube que fora para França, a salto.

Quando o trabalho terminou, Zé Pequeno estava encostado ao cunhal da porta da oficina do ferreiro da obra, aguardando pela compostura das suas ferramentas. Gostava de chegar à obra sempre com os picos prontos para trabalhar. Era um dos muitos brios que o envaideciam. Recolheu tudo ao seu saco e iniciou a marcha até à cabina do camião, onde o aguardava o Senhor Nogueira. Era sempre ele que o acompanhava e bebia todos os dias a sabedoria que vertiam das palavras que compunham as histórias que contava sem prosódia. Uma sabedoria avalizada pelos cabelos brancos que dominavam a cabeleira e pela firmeza das suas palavras, ditas com voz de estentor. Homem experiente da vida como o Senhor Nogueira não podia estar enganado no alerta que lhe havia dado.

Subiu para a cabina do camião numa agilidade mais pausada do que era costume e logo se puseram em marcha. A viajem principiou com um desafio de silêncio, cada um esperando pela cedência do outro. Firmaram os olhares na estrada, como se fossem ambos a conduzir. Por fim, como que sentido-se responsável, atentou o Senhor Nogueira:

“Hoje não trouxeste a bicicleta”.

Zé Pequeno fez questão de perdurar mais uns segundos o seu silêncio, e num lento encolher de ombros e de boca carregada respondeu:

“Se tenho transporte para casa”.

Não trocaram mais qualquer palavra. Sentiram que em duas frases tinham esgotado o assunto. Como que a mescla das palavras ditas e dos silêncios partilhados tinham reposto a ordem natural das coisas, como tudo devia ser. Estavam de acordo sobre tudo o que não haviam falado.

Quando Zé Pequeno se despediu, tomou sem tardança o carreiro para casa. Ao entrar encarou seu pai, sentado numa cadeira de madeira e a dormitar sobre a mesa da sala. Cuidou de não fazer barulho com o fechar da porta e sorrateiramente esgueirou-se para o seu quarto. Deu graças por seu pai estar a dormir, pois nunca sabia qual era a sua disposição. Era hábito sofrer maus tratos por culpas que não eram suas. Sentou-se na beira da cama, pousou o saco a seu lado e ali permaneceu numa contida revolta. Não tardou a ouvir o abrir e fechar da porta ao que se seguiu o silêncio. Regressou à sala agora deserta, baixou-se à panela que repousava sobre as cinzas e destapou-a. Do seu interior emanou o cheiro de carne cozida que se misturava por entre couves e batatas. Com um ferro abriu as cinzas, pondo a descoberto algumas brasas que municiou com umas poucas canhotas. Aguardou que o fogo franzino requentasse a comida, enquanto mexia a cozedura. Comeu sem pressas nem gosto, mas apenas para iludir a fome. Por fim, retirou da algibeira as folhas que havia escrito na noite anterior e sem as desdobrar encalhou-as nas brasas. Ficou ali olhar para o fogo, a consumir o seu testemunho de raiva. Fez companhia à lareira até que as brasas se extinguiram após longa agonia. Maçado, recolheu ao seu quarto onde repousou o corpo, diluindo a fadiga no sono.

(Continua)

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