Mente cultural

Para Manuela Raminhos

Crianças brincam enquanto a sua mente cultural trabalha

Parecia-me que começara o texto com uma gralha. Todo o cabeçalho ou definição deve começar por um artigo. Mas, como se trata de um conceito, retirar o artigo não é gralha, é apenas reduzir o campo de pesquisa do que se quer falar do conceito e não a universalidade do fenómeno, que acaba, assim, por nada definir. Se disser a mente cultural, falo de actividades múltiplas; se digo mente cultural, reduzo a ideia a um fenómeno que pode acontecer universalmente. E falar de Antropologia de forma hermenêutica, é aprofundar no campo do significado do conceito e não da acção do conceito, que varia de sociedade para sociedade.

Aliás, retirar o artigo, reduz o campo de pesquisa à sua verdadeira dimensão, o entendimento do que está escrito e não apenas do que se fala. Razão tinha René Descartes ao dizer penso, em consequência, existo.

Descartes

Diz Descartes em 1637, essa época revolucionária da guerra dos trinta anos, no seu texto que, por rebelde, escreveu em francês e não em latim, como era o hábito dos académicos para distinguir o que se pensa vulgarmente do que se investiga de forma especializada, intitulado Discours de la méthode: O Discurso sobre o método, por vezes traduzido como Discurso do método, ou ainda Discurso sobre o método para bem conduzir a razão na busca da verdade dentro da ciência (em francês, Discours de la méthode pour bien conduire sa raison, et chercher la verité dans les sciences) é um tratado matemático e filosófico de René Descartes, publicado em França, mais propriamente em Leiden, em 1637. Inicialmente apareceu junto de outros trabalhos de Descartes, Dioptrique, Météores e Géométrie; ou Hegel que em 1822, no seu texto Filosofia do Direito, disse que para pensar, é primeiro necessário ver uma coisa e, seguidamente, criar um conceito que a defina, contrariado por Marx em 1843 no seu texto Crítica à Filosofia do Direito de Hegel, ao afirmar que é o conceito o que define um objecto, conceito aprendido antes de ver esse objecto. É, nem mais, o debate de John Stewart Mill com Jeremy Bentham sobre a utilidade das coisas, debatendo se o conceito define o objecto ou indução, ou se a coisa dá o nome ao conceito, ou dedução, como está escrito no livro de 1848 de Mill: Principles of Political Economy, ou no de Bentham, 1859: Utilitarianism, argumento que reproduzido no meu livro de 2003: A economia deriva da religião, Afrontamento, Porto.

Este preâmbulo é para entender esse conceito por mim definido em 1990, baseado nos textos citados e no meu trabalho de campo na aldeia de Vila Ruiva, Nelas, Beira Alta, Portugal. Como é que as crianças aprendem, pergunto-me no livro de 1990  A construção social do insucesso escolar, antiga Escher, hoje Fim de Século, 1ª edição. A minha conclusão é simples: as crianças aprendem de forma dedutiva, retirando conceitos do que vêem e não do que estudam na escola. A escola não ensina trabalho, ensina ciência abstracta que não é útil para a produção de bens nem para a reprodução desses bens e de seres humanos.

Éramos muitos nessa pesquisa, actualmente todos doutores, que usaram o conceito de mente cultural para a sua investigação, combinando hermenêutica – a leitura dos meus escritos etnográficos, com dedução ou a sua própria etnografia. A minha conclusão hermenêutica deriva do conceito de mente ou parte do ser humano que lhe permite a actividade reflexiva, cognitiva e afectiva.afet = Entendimento, espírito, intelecto, pensamento, armazenamento de experiências vividas. = Memória, lembrança, disposição de espírito, ou aquilo que se pretende fazer. = Intenção, intuito, pensamento, propósito, tenção, maneira de compreender ou imaginar o mundo. = Imaginação, percepção, ter em mente, lembrar-se ou ter como intenção o que eu percebi no meu trabalho de campo, após imensas leituras, fui para comprovar, para deduzir.

Concluindo: percepção que a sabedoria das crianças advém de um conhecimento que elas retiram da sua cultura. Quando a criança aparece num grupo social, o mundo já está classificado, dividido e hierarquizado e o exercício desde que nasce até adquirir a aceitação ou a aprovação dos adultos, é aprender critérios e classificações, noções e conceitos, distâncias e categorias sociais, o tempo e o espaço, a vida e a morte, a criação da vida e o seu objectivo. Os jogos e conversas ensinam-lhe mais sobre o tempo que está classificado por meio do ritual e do trabalho enquanto o espaço está segmentado em terras da propriedade do ego e do resto, a aldeia, num conjunto de casas, de parentes distribuídas por um conglomerado de outras que não vêem porque não se identificam com a intimidade e qualidades de nenhuma das pessoas com as quais se está obrigado a conviver. Para nossa surpresa no trabalho de campo, embora os petizes pudessem deambular por todo o espaço que fica a uma certa distância da possibilidade de ser vigiado por um adulto, não sabiam muito claramente quem vivia onde, se não era seu parente ou seu amigo. A intensa concentração dedica-se só a uma união entre o mundo pessoal que é o contexto do outro importante para si, e a materialidade onde este mundo acontece.

Entre materialidade, parentes e rituais, forma-se a mente cultural, conceito que queria atingir até este ponto do meu argumento

Se os doutores antes denominados falavam o que diziam, as crianças são os doutores da sua própria cultura o hábito reiterado de comportamento, aprendido do que acontece a partir da interacção social. O resto, pode-se ler no capítulo 8 do livro citado.

A mente cultural é a aprendizagem do saber reiterado através do tempo.

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