Antropologia no ISCTE-IUL, primeira parte

antropólogos a ensinar, como Einstein

Lembro-me de ter escrito num outro ensaio intitulado As minhas memórias do ISCTE, hoje IUL, de 23 de Dezembro do ano passado, como éramos pequeninos nos anos 80 do Século passado. Remeto para esse texto, a história das nossas vidas e porque quer o tempo, quer o espaço, são curtos. Também, não queria dar mais trabalho à Maria da Graça Pimentel, que revê o texto antes de publicar, nem ao João José Cardoso, que tem emendado erros informáticos meus ao longo do último ano.

Éramos poucos, muito poucos e apenas uma licenciatura, partilhada com a de Sociologia. A Sociologia era o alvo do nosso patrão, Adérito Sedas Nunes. Mas, confidenciou-me um dia que à Sociologia fazia-lhe faltava uma coisa que não estava bem certo do que seria, até reparar que era o método comparativo com povos de outras culturas, sítios geográficos e costumes. Já havia esse tipo de ensino, com os hoje Professores Catedráticos, os Doutores Joaquim Pais de Brito e José Fialho Feliciano. O primeiro, ensinava usos e costumes de Portugal, na linha de Jorge (António) Dias, da sua mulher alemã Margot, de Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Eanes Pereira. Estudavam Portugal, a correr, antes que se fosse embora a residir pelas vias estrangeiros, trazidas ao ISCTE por todos nós. Com formas diferentes de ensinar, saber, pensa e investigar. Como de facto, aconteceu.

O primeiro ano das Licenciaturas incluía método comparativo, por causa dos estudos de José Fialho Feliciano entre os Ba-Thonga de Moçambique. Os anos mais avançados de Sociologia, cultura portuguesa rural e de bairro ou urbana com o saber de Joaquim Pais de Brito, tal como Antropologia Histórica e Metodologia com Robert Rowland. Mas, não parecia suficiente, o ISCTE queria abrir-se para ciências mais esotéricas e a pouco e pouco fomos chegando os estrangeiros: eu, primeiro, substitui José Fialho que foi ensinar para Moçambique e estudar os costumes Ba-Thonga. Estudo que mais, tarde, conjuntamente com Clara Afonso de Carvalho e os seus estudos na Guiné-Bissau e os de Rosa Maria Perez, que pesquisava na Índia, suportam o uso do método comparativo. Antes, tinham aparecido o já reformado muito cedo José Carlos Gomes da Silva, analista da Índia e, poucos anos mais tarde, a Professora Doutora Nélia Dias, que conhecia bem Moçambique e a Índia, especializada em História da Antropologia, especialmente em Durkheim e Weber e em museologia, o seu forte no saber.

Pedro Prista Monteiro, Sociólogo, veio falar comigo porque trabalhar em migrações de franceses em Nice, Sul de França e sabia, confessara, muito sobre ritual retirado de Durkheim. O nosso antigo Presidente do Conselho Directivo, José Manuel Paquete de Oliveira tinha descoberto o retorno a Portugal, da sua pesquisa na Índia, de José Carlos Gomes da Silva, e o roubara para o ISCTE. O hoje Investigador Principal do ICS da Universidade de Lisboa, João Pina Cabral, foi-me apresentado por um antigo amigo, Manuel Villaverde Cabral, quem me dissera estas palavras: “ Ouve lá, sabemos que andas a abrir um curso de Antropologia Social. Acaba de voltar de Oxford o meu antigo amigo e companheiro João de Pina Cabral, que não se importava nada de trabalhar convosco”, e assim foi. Abrimos concurso para Assistentes, foram entrevistadas Cristiana Lage Bastos e da Madeira, via douramento na Alemanha em Mainz, o hoje Professor Associado Jorge Freitas Branco. Todos foram entrevistados por um júri composto por J.C. Gomes da Silva e por mim, ou apenas por mim.

Desses anos, tenho memória de termos entrevistado Miguel Vale de Almeida, Professor Associado, actualmente com licença por ser Deputado na Assembleia da República.

Um dia qualquer, apareceu no meu eterno gabinete uma rapariga que cumprimentou e, com é o seu hábito, foi directa ao assunto: ”sei que precisam de assistentes e eu estou disponível”. Abri os olhos pela sua valentia, perguntei qual era a sua especialidade, disse que gostava de estudar cidades e como não tínhamos Antropologia Urbana, sem perguntar a ninguém, disse-lhe: “Fique” e ficou. Uma das melhores aquisições do nosso Departamento. Roubámos à Nova (Universidade Nova de Lisboa) o João Leal, que a ela tornou a ir por estar farto do ISCTE, e outros foram trazendo outros, como relato no livro Para Sempre Tricinco. Allende e eu, Tinta da China. Uns convidavam outros, como Gomes da Silva ao Francisco Vaz da Silva e Nélia Dias a Maia João Mota. Havia os estudantes de Sociologia que queriam ser Antropólogos e esperaram até o curso abrir, como Teresa Sachetti, hoje mãe, dona de casa e comerciante, Pedro Monteiro, rasto perdido, António Medeiros para trabalhar com Brian O’Neill que eu roubara do sítio onde trabalhávamos, o Instituto de Ciências Gulbenkian, e Paulo Valverde, o meu melhor discente, que veio a falecer de malária contraída em trabalho de campo em São Tomé e Príncipe.

Os nossos discentes começaram a concorrer para docentes, o Departamento passou a oferecer estudos que conferiam os Graus de Mestrado e Doutoramentos em várias especialidades, como Antropologia da Educação que eu criara, Antropologia Urbana com Graça Índias Cordeiro, Museologia com Nélia dias. Já não havia mais sítios. Assim, o Departamento abre-se para formas etnográficas de trabalho de campo, com residência continuada nas aldeias que estudávamos e começámos a sair para sítios distantes, como para a América Latina, Malacas na Malásia, África e Índia.

Francisco Oneto, hoje Doutor substituiu Paulo Valverde, e, após trabalho de campo, foi constituído um júri para avaliar os melhores tendo por finalidade contratá-los, como foi o caso de Paulo Raposo e Filipe Reis no ISCTE e Nuno Porto que me assistia na minha Cátedra de Visitante em Coimbra, todos membros da equipa que fez trabalho de campo comigo na Beira Alta.

O que ensinávamos? Fica para amanhã. Apenas acrescento que todos eles, praticamente, fizeram comigo as suas provas, pelo que me auto denomino o Avô do Departamento!

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.