Romeu Correia (Poesia & etc.)

A revista “Nova Síntese” (Edições Colibri), publica no seu número 4, saído este mês e dedicado ao tema “O rural e o urbano no neo-realismo”, um texto do Professor Alexandre Castanheira, com o título “Romeu Correia, um neo-realista esquecido”. O texto começa com uma citação do crítico literário João Gaspar Simões que, no jornal Sol de 21 de Maio de 1949, dizia sobre “Trapo Azul”, o romance de estreia de Romeu Correia: «Um jovem cheio de talento que insuflou ao “neo-realismo” decrépito uma vida que o “neo-realismo” nunca tivera entre nós».

Não vou referir-me hoje ao magnífico estudo de Alexandre Castanheira, nem dissecar esta precipitada notícia necrológica de Gaspar Simões, crítico inteligente, mas controverso, que considerava decrépito um movimento que ainda mal ensaiara os primeiros passos. Basta consultar as datas de publicação de importantes livros de Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Carlos de Oliveira e de tantos outros para verificar que muitas das grandes obras do neo-realismo português não tinham ainda sido publicadas em 1949. Mas o texto incentivou-me a escrever hoje sobre Romeu Correia.

Conheci-o pessoalmente pelo final dos anos 50, acabara de publicar a sua peça “Sol na Floresta”. Travámos uma amizade duradoura, embora nunca nos tratássemos por tu (era quase da idade do meu pai). A verdade é que eu o «conhecia» já há uns bons dez anos. Quando em 1948 saiu o seu livro “Trapo Azul”, um vizinho, morador na Baixa, mas nascido em Almada, em conversa com os meus pais, a que eu assistia (mas com dez anos não podia intervir na conversa dos adultos sem me rodear de cuidados especiais) disse que tinha saído um livro cheio de calúnias para com as gentes daquela vila, hoje cidade.

Era uma coisa tão miserável que, dizia ele, pela primeira vez na vida tinha rasgado um livro, deitando-o fora a seguir. Como quem não quer a coisa, eu perguntei o nome do livro e quem era o autor. Os meus pais olharam para mim com ar apreensivo. O meu vizinho dignou-se responder-me: «”Trapo Azul”, de um tal Romeu Correia». Isto foi a um serão em nossa casa e no dia seguinte convenci a minha mãe, que também ficara curiosa, a irmos comprar o livro. Foi na Férin, salvo erro, que o encontrámos. E lá o trouxemos para casa. A minha mãe lia-o primeiro e, depois, logo se via se eu o podia ou não ler. Aceitei o acordo.

Ela leu o livro duma assentada e de manhã deu o veredicto. Era um bom romance, mas não era próprio para mim. Claro que mais não foi preciso para que uma grande curiosidade me assaltasse. Manhoso, fingi-me completamente desinteressado e fui observando que a vigilância ao volume ia sendo cada vez mais descuidada, deixou de estar fechado à chave numa gaveta e semanas depois já ninguém se lembrava daquele perigo para a minha educação.

Quando sabia que ia estar uma hora ou mais sozinho ia lendo, memorizando a página em que interrompia a leitura e deixando-o tal e qual na posição em que o encontrara dentro da gaveta. E assim o consegui ler em relativamente pouco tempo. Uma história cruel, a saga das costureiras que faziam os fatos-macaco em ganga para os operários da margem esquerda do Tejo. Esse exemplar não o encontrei entre os livros de minha mãe e o que tenho foi-me oferecido pelo autor ao qual contei as minhas aventuras para ler o seu romance.

Mas voltando a esse primeiro encontro com Romeu Correia, foi (se a memória não me falha) no segundo piso do Café Avis, nos Restauradores do lado do Eden, Era um café estranho – no primeiro piso era frequentado por gente de extrema-direita, legionários, inclusive, ali levados pela grande cruz de Avis em néon que brilhava sobre a porta principal. No piso superior, era para a malta de esquerda. Disseram-me ser ali que o Amílcar Cabral dava explicações de Matemática.

Parava também por aquele segundo piso um grupo heterogéneo onde se incluía o Renato Ribeiro e sua mulher, a Fernanda Barreira, o Manuel de Castro, o Manuel de Seabra, o Romeu Correia que trouxe um dia a Maria Rosa Colaço, e este vosso amigo. O estranho é que os legionários nos viam passar e se faziam comentários era em voz baixa. Nunca houve ali provocações. Um dia hei-de escrever um texto sobre «os meus cafés». Muitos.

Os cafés do Romeu Correia eram outros. Ao Avis só ia para se encontrar comigo, com a Maria Rosa, com o Renato… À noite vinha de Almada no barco e parava na Coimbra, da Alexandre Herculano num grupo de que o Namora e o Bernardo Santareno faziam parte (uma vez que fui lá para o encontrar, eles estavam lá) e, à hora do almoço podíamo-lo, sempre sozinho, encontrar no café Bom (trabalhava na sede do Banco Ultramarino, na Rua do Ouro). O Café Bom ficava na Rua da Betesga em frente à cervejaria Mó, que ainda existe. Ali estava ele, preenchendo com a sua letra grande e irregular folhas soltas de páginas brancas. Era mais um romance em gestação.

Romeu Correia falava de uma forma apaixonada, revivendo as suas histórias e emocionando-se com as recordações. Não raro, fechava os olhos para que a memória lhe fosse mais fiel. Numa noite de Verão, creio que em 1959, numa esplanada da Avenida descreveu-me a Amália gravando «O Céu da Minha Rua», tema musical da série que a RTP produziu a partir do seu romance homónimo. Não saiu bem durante uma série de tentativas e quando o realizador queria desistir, às quatro ou cinco da manhã, Amália fez uma última tentativa, rasgando as meias com as unhas enquanto cantava. E saiu bem. «Uma mulher muito inteligente e cheia de raça», concluiu. Podemos ouvir a canção no vídeo inserido no final desta crónica.

Noutra das suas descrições, esta feita no Avis, contou-me como, ainda no início da sua carreira no BNU, fora cobrador. Por vezes ia almoçar a casa, a Almada, se tinha alguma cobrança na margem esquerda. Naquele dia após uma cobrança de uma avultada importância, chegou a casa e encontrou Almerinda, sua mulher, profundamente adormecida. Jovem e bonita, era atleta de alta competição, descansava de horas de treino e de trabalhos domésticos. Resolveu fazer uma brincadeira poética, uma homenagem – cobri-la de ouro . colocou-lhe sobre o corpo notas de mil escudos, centenas delas. E depois acordou-a.

A surpresa de Almerinda, a sua expressão ao ver o dinheiro foi uma coisa linda, disse ele. Eram pobres e ela nunca vira tanto dinheiro na vida. Mas depressa percebeu o que se passava e disse-lhe «arruma lá toda esta porcaria!» e ajudou-o a recolocar as cintas nos maços e a metê-los na mala.

Outra recordação que o fazia vibrar era a do seu trabalho como artista de circo. Boxeur amador, com campeonatos ganhos, fazia um número em que com a ajuda de um projector, num jogo de luz e sombra, lutava consigo próprio.

Já nos anos 70, quando voltei a Lisboa, reatei a amizade que fora mantida com uma outra carta e no convívio durante as férias de Verão. Romeu e Almerinda passavam quinze dias todos os anos na Colónia de Férias da FNAT e, em Agosto, eu estava por ali perto, em Santo António ou, posteriormente, em São João da Caparica com a minha mulher e os dois filhos. Encontrávamo-nos sobretudo no cinema da colónia, pois éramos todos apaixonados por cinema.

A última vez que estive com ele foi no lançamento de um livro da Maria Rosa, no forum municipal de Almada que hoje se chama Forum Romeu Correia. Foi pouco tempo antes de ter falecido, notava-se já que estava doente, mas tendo ficado ao meu lado enquanto o livro da nossa amiga era apresentado, falou-me com entusiasmo de uma História da Incrível Almadense que andava a preparar.

Um bom escritor e um grande amigo que, pelo menos por mim, nunca será esquecido. Um homem cuja vida daria um romance. Aqui fica uma resenha biográfica.

Romeu Correia, (17 de Novembro de 1917- 12 de junho de 1996) nasceu e faleceu em Almada. Escritor, ficcionista e dramaturgo, foi colaborador de diversos jornais e revistas, nomeadamente da Vértice. Em Outubro de 1942, casou com Almerinda Correia, que viria a ser campeã nacional de atletismo. O próprio Romeu Correia foi atleta de alta competição e campeão nacional de boxe amador. A sua obra está traduzida em numerosas línguas e tem sido objecto de teses académicas, em universidades portuguesas e estrangeiras.

Recebeu, em 1962 e 1975, o prémio Casa da Imprensa; em 1984, o Prémio de Teatro 25 de Abril, da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro; e, pela peça O Vagabundo das Mãos de Oiro (1962), o Prémio da Crítica. Em 1958, a sua peça Céu da Minha Rua foi transmitida pela RTP, com Amália Rodrigues no papel principal.

Escreveu: Sábado sem Sol (contos, 1947), Trapo Azul (romance, 1948); Calamento (romance, 1950); Gandaia (romance, 1952); Casaco de Fogo (teatro, 1953); Desporto-Rei (romance, 1955); Céu da Minha Rua (Isaura) (teatro, 1955); Laurinda (teatro, 1956) Sol na Floresta (teatro, 1957); O Vagabundo das Mãos de Oiro (teatro, 1960); Bonecos de Luz (romance, 1961); Bocage (teatro, 1965); Jangada (teatro,1966); Amor de Perdição (teatro, 1966) 3 Peças de Romeu Correia: Laurinda, Sol na Floresta e Céu da minha rua (teatro, 1968); O Cravo Espanhol (1970); Roberta (1971); Francisco Stromp (biografia, 1973); José Bento Pessoa (biografia, 1974); Um Passo em Frente (contos, 1976), Os Tanoeiros (nova versão de Gandaia)(romance, 1976); Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada – nas artes nas letras e nas ciências (história, 1978); As Quatro Estações (teatro, 1981) Jorge Vieira e o Futebol do seu tempo (biografia, 1981) Tempos Difíceis (teatro, 1982); O Tritão (romance, 1982),; Grito no Outono (teatro, 1982); O Andarilho das 7 Partidas (teatro, 1983); O 23 de Julho (narrativa, 1986) Portugueses na V Olimpíada (ensaio, 1988); Cais do Ginjal (novela, 1989); Palmatória (1995).

Comments

  1. Pisca says:

    Obrigado por ter relembrado o Romeu Correia.
    Estando em Almada desde 1958, era uma personagem que olhavamos, ainda crianças, com todo o respeito e admiração, quando o viamos no Central
    O seu primeiro livro, Sábado sem Sol, ao que me foi contado, teve a sua edição financiada quase por subscrição de amigos do Liberdade Futebol Clube, situado na Mutela, e acabaria por ser apreendido pelos do costume, passado pouco tempo.
    Isto foi-me contado, não sei se pelo meu Pai que foi o responsável pela minha leitura do Trapo Azul, se por outras pessoas
    Era um profundo conhecedor de Almada e em especial um carinho grande pelo Ginjal, onde cresceu e pela colectividades de cultura e recreio
    Mais tarde em algumas ocasiões trocariamos palavras de circunstância, em diversos eventos

  2. Carlos Loures says:

    Não tem que agradecer. Há muita coisa sobre o Romeu que não disse e que devia também ser dito (por exemplo, o seu amor à liberdade e o consequente asco à ditadura), era um homem solidário e capaz de se comprometer em causas que muitas vezes puseram em perigo a sua condição de funcionário de um banco como o BNU. Jantar no Ginjal, vendo as luzes de Lisboa, foi coisa que fizémos numerosas vezes ao longo dos quase quarenta anos em que convivemos. Não sei em que ponto ficou a tal história da Incrível que ele andava a escrever pouco antes de falecer.

  3. maria monteiro says:

    Tenho um “Sábado sem sol” que me foi oferecido pelo Romeu Correia numa das festas do Avante

  4. Carlos Loures says:

    Sim, o Romeu Correia era um homem chegado ao PCP. As causas a que se ligava e pelas quais se arriscou (de que falo no comentário) estavam ligadas ao PC. Foi um dos militantes do Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF) organização clandestina de oposição à ditadura, formada em 1944, em cuja direcção estava Bento de Jesus Caraça. O MUNAF seria o embrião do MUD e procurava reorganizar a oposição (sob a tutela do PC). Mário Soares militou no MUNAF.

  5. Caro Carlos Loures

    Agradeço a sua lembrança de Romeu Correia, um dos homens mais importantes da minha vida. Sou neto do Romeu e com ele cresci e passei a maior parte do tempo da minha infância e adolescência.

    Obrigado, mais uma vez, pelas suas palavras e recordações bonitas. Temos isso em comum.

    Um abraço

    Vasco Branco

    • Suzy says:

      Vasco! Que prazer!!! Tive umas imensas saudades de Almada, e uma das pesoas que sempre me fez lembrar Almada era o teu avo!
      Nao sei se te lembras de mim. Nos brincavamos… eu a janela da minha avo, no R/C dir. Tu e a Guida la fora em frent ao predio dos nossos avos! Eu sou a neta da Chica… a Suzy. Fui viver para o Canada de novo com a minha mae e o meu irmao – e ainda ca estamos… portanto, o meu Portuugues e so para me safar agora 😛
      Eu gostava muito do teu avo… a calmidade, paciencia e paz que alquele homen tinha era uma coisa fora deste mundo! Gostava muito saber como tu e a Guida estao! Faz muito tempo!

      Podes me mandar email a couponcatchers@gmail.com (e um email que eu uso mas nao vou todos os dias… talvez uma ou duas vezes por mes, mas assim que vir um email teu eu dou-te um email mais directo!)

      Felicidades a ti e os teus! Grand abraco!

  6. Carlos Loures says:

    Um grande abraço para si, Vasco, o seu avô era uma pessoa admirável e um excelente escritor. Não perca o texto de Alexandre Castanheira na «Nova Síntese», pois faz justiça à obra de Romeu Correia.

  7. Sara says:

    qual o nome dos pais de romeu correia?

  8. Vasco says:

    Os pais de Romeu Correia chamavam-se Rogério Henrique Correia e Arminda do Nascimento Pinto Correia.

    Cumprimentos

  9. maria alcina magro says:

    Conheço uma pequena parte da obra do grande escritor Romeu Correia. Para quem quiser conhecer o seu longo e admirável percurso pessoal e profissional, sugiro que leiam o livro de Alexandre M. Flores “Romeu Correia o homem e o escritor”, uma edição da Câmara Municipal de Almada.

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