Ainda a "Pesada Herança"

Há uns tempos, tinha deixado a suspeita quanto a um apetecível alvo que há muito se encontra guardado nos cofres do Banco de Portugal. De facto, o famoso “ouro de Salazar” tem sido pasto de lendas, estorietas de ficção e sobretudo, de muita cobiça. Assim, ao longo de décadas, a conhecida Pesada Herança foi descrescendo em volume, quando consta que há três décadas ultrapassava as 600 toneladas. Hoje, os dados oficiais apontam aproximadamente as 380, o que ainda consiste num valor substancial.

Muita tinta correu acerca da origem desse ouro, dizendo-se enquanto se sorve uma jeropiga, que …”uma boa parte tem estampada a águia e a suástica do III Reich”, ou …”provem da troca dos víveres enviados para a Alemanha durante a guerra” e publicações surgiram com insinuações de “dentárias obturações de ouro arrancadas nos campos de concentração”. As organizações internacionais da especialidade dedicaram-se a aventar todo o tipo de hipóteses e Portugal até chegou a surgir numa lista de países que …”também tem que pagar o crime”. Mas qual crime? De qual guerra, extorsão ou lusa violência contra terceiros países?

Sabe-se que durante a II Guerra Mundial, o governo português teve sérias dificuldades em manter a integridade territorial do Estado pluricontinental, aliás violada quando da intervenção australiana em Timor, logo respondida pela invasão e prepotente ocupação nipónica. Conservas e outros produtos alimentares, minérios e géneros coloniais, consistiram num instrumento dissuasor e angariador de uma certa benevolência de um Reich que bem conhecia a debilidade militar nacional e os eternos apetites expansionistas de uma Espanha que já antes de Franco, delirava com a perspectiva anexionista, desta vez sob a fórmula de uma federação de “repúblicas ibéricas”. Uma grande quantidade de material militar – especialmente canhões modernos que serviriam até aos anos 90 do século passado – foi vendida ao governo português e escrupulosamente paga através de trocas comerciais e transferências directas de divisas e minérios estratégicos. Sendo bem conhecida a obsessiva avareza e rigor de contas do regime da 2ª República, de facto o Estado português jamais ficou a dever um centavo que fosse a qualquer outro país, não se conhecendo os calotes que internacionalmente hoje são norma geral e aceite por toda a União Europeia e sem excepção de qualquer um dos membros.

Para aqueles que protestam quanto a uma possível ligação entre o regime português e os trágicos acontecimentos ocorridos nos campos de extermínio, existe sempre a decisiva resposta que refere a neutralidade. Não uma neutralidade de princípios éticos, mas aquela neutralidade de facto que impossibilitava o perfeito conhecimento de uma realidade que os próprios Aliados hoje não conseguem esconder. Na verdade, de Londres a Washington, Moscovo, Camberra ou Otava, todos tinham a certeza dos acontecimentos que ocorriam no Leste europeu e o constante decifrar das mensagens criptográficas Enigma, permitiam a Churchill ler sobre os ombros de todo o aparelho militar e estatal alemão. Nada foi feito para obstar à liquidação dos contingentes humanos que o governo de Berlim pretendia eliminar fisicamente. Nem um campo foi atacado, nem uma via de acesso e a imprensa e propaganda aliada, foi sempre muito circunspecta quanto ao levantar de um generalizado protesto. No final da guerra, o avanço anglo-americano e soviético, tornou impossível a ocultação da realidade . Assim, torna-se abstruso, o apontar de culpas ao Estado português – o da 2ª e o da actual 3ª República – que se manteve à parte de um conflito no qual o nosso país necessariamente melhor servia os interesses do aliado britânico, mantendo-se neutral. Imaginam o que teria sucedido, se Lisboa alguma vez tivesse servido de principal ponto de apoio das flotilhas de submarinos do Grande Almirante Karl Doenitz? O que teria sucedido a Rommel, ao petróleo do Médio Oriente e como teria evoluído a guerra com a chegada dos panzers ao Cairo, Damasco, Kirkuk, Abadan e Erevan? Como teria o Reino Unido sobrevivido a um Atlântico fechado à navegação?

Ciclicamente, surge a questão do ouro. Mas afinal, que questão é essa?

Tem servido para muito, especialmente para ciclicamente trazer à discussão pública, a utilidade dessa reserva. Desaparecido o Padrão Ouro e imaginando-se actualmente o poder financeiro através de quiméricos números fixados por duvidosas contabilidades sem real correspondência com a vida terrena, uma das mais esmagadoras vitórias dos EUA, transcendeu em muito, as conhecidas Iwo Jimas, Guadalcanais, Midways, bombardeamentos em tapete, exageradas Bastognes a fazer lembrar as Termóplias e até, pasme-se a tal luz brilhante como mil sóis em Hiroxima. A grande e colossal vitória, consistiu simplesmente, no agrilhoar do planeta ao dólar, moeda que desde logo inundou as praças financeiras e os mercados, estabelecendo-se ao bel-prazer da Reserva Federal, o verdadeiro centro de organização da desvalorização a nível planetário, com eternos reflexos nas galopantes e inevitáveis dívidas públicas. Quando surgiu o concorrente Euro, a situação pareceu complicar-se e os reflexos tornam-se cada vez mais evidentes.

As notícias de hoje, apontam para mais de quinze mil milhões (só?) de dólares entesourados no Banco de Portugal. Quando da última polémica, surgida quando da publicação de uma lenda e narrativa engendrada pelo irmão Louçã-júnior – partidário do sistema do duche escocês, hoje pró-palestiniano, amanhã seguindo as directivas do conhecido lobby nova-iorquino -, Mário Soares foi a única voz que em público recusou qualquer veleidade de directa ligação ao famigerado “ouro-nazi” e outras habilidades do estilo. Entre outras proveniências bem conhecidas e acima apontadas, sabe-se que uma boa parte do filão, provém directamente dos magaíças, mineiros que periodicamente saíam de Moçambique para trabalhar no “Jonas”* e que regressados à colónia, trocavam pepitas por metal sonante, nem sequer valendo a pena salientarmos as manigâncias a que o sistema colonial recorria, servindo de intermediário na contratação e por isso sendo bem pago em reluzente metal amarelo. Este comércio era volumoso e durou muitas décadas. Desde o seu advento, a 2ª República procurou um constante entesourar, naquele espírito que acima de tudo receava o descalabro ocorrido ao longo do século XIX – independência do Brasil e quebra de fim do século nas nas remessas sul-americanas -, o ciclópico desastre da 1ª República e as péssimas administrações que a rotação partidária impunha. As reservas foram-se acumulando até atingirem uma inaudita proporção, se tivermos em conta o país e as suas capacidades económicas, precisamente aquela economia real hoje quase desaparecida.

Por enquanto, o ouro “do Banco de Portugal” está seguro, protegido por um extenso articulado que proíbe a sua transformação em moeda corrente ou directa transferência para certos destinos, como pagamento de dívidas. Mas este tranquilizador estado de coisas, poderá mudar.

No seu telejornal das 22.00H, a RTP-2 comentava sorrateiramente o facto, sugerindo implicitamente, a necessidade de uma modificação de regras que permitam o …”uso desse valor que podia servir para suprir a dívida pública”. Argumentava que essa blindagem imposta pelas regras do Banco de Portugal, justificava a “baixa de rating” ditada por tão pouco fiáveis tocas de notórios falsários e vigaristas como a famosa e aborrecida agência do “canal Bloomberg”, a Moody’s, a Fitch e a Standard (and Poors!). Esta gente tem um descomunal nariz que fareja auríferos filões, onde quer que estes se escondam. É, como se diz em português escorreito, “passar a mão pelo pêlo”, “apalpar o terreno”, “experimentar o pulso”, ou como risonhamente se usa em Moçambique, …”experimentar coração de branco”. Esta gente não é de confiança e já percebemos o interesse que dentro e fora de portas existe. Possivelmente, dentro de pouco tempo teremos o regresso da conhecida saga do “ouro nazi”.

Preparem-se, a coisa funciona sob o sistema vai-vem.

*Jonas: Joanesburgo nas imediações das minas do Rand.

Comments

  1. xico says:

    Ao que julgo saber, quer o governo português quer o governo moçambicano pós-independência, recebem ou recebiam legalmente percentagem em ouro, sobre cada trabalhador que ia para as minas do rand. Julgo que estes não recebiam em ouro. Os governos sim. Pelo menos era assim que se contava a estória.
    E se era um abuso colonial, manteve-se pós independência.
    De resto, um óptimo artigo.


  2. O tráfico do ouro era notório e entrava de várias maneiras. Oficialmente, os magaíças não eram pagos com o minério, mas acontecia que eles regressavam a Moçambique com importantes quantidades do mesmo. E não eram roubadas.
    Quanto ao Moçambique do pós independência, sendo um natural de 5ª geração, evitarei muitos comentários que poderia tecer, para não haver más interpretações. É que uma nova bandeira e novos senhores, tudo desculpam. Mesmo os dados oficiais da ONU (1973) e os actuais, são eloquentes em desprimor de 2010, desde a falta de energia, água e saneamento nos hospitais públicos, até à ausência de campanhas para a vacinação maciça, etc, etc.

  3. Luis Moreira says:

    600 t é mesmo uma herança pesada.Mas mais pesada é a situação do país, segundo conta quem lá trabalha.

  4. António Soares says:

    Se estes artistas(falsos)meterem a mão a esse ouro,vamos de mal a pior…nem com os dedos ficamos!!!!!!!!

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